A BIOLOGIA DO CORONAVÍRUS – Debate do Grupo de Estudos em Complexidade | A Casa de Vidro

Debate por webconferência em 06/04/2020, 1h45min

A pandemia do novo coronavírus é considerada por especialistas de diversas áreas como um evento com potencial para mudar o mundo. Nesse cenário onde conhecimento é poder, surgem questões que evocam as origens, dinâmica e epidemiologia dessa nova ameaça. A Casa de Vidro, em parceria com o Grupo de Estudos em Complexidade, aproveitou essa quarentena para realizar um debate sobre “A biologia do Coronavírus”, em que os jornalistas Renato Costa e Eduardo Carli de Moraes entrevistaram dois biólogos: Hauanny Rodrigues e Gabriel Ávila. Design do flyer por Marcelle Veríssimo (Instagram @zholograma). Link: https://youtu.be/s0onm5gaQtw.


A conversa se desenrolou a partir de uma pauta temática pré-preparada:

  • A importância do isolamento social na ação contra o espalhamento do vírus; a diferença entre iso. vertical vs horizontal; estudos do Imperial College de Londres previram 1 milhão de mortes no Brasil caso nenhuma medida fosse tomada para evitar o contágio, disseminando tal informação o virologista e influenciador digital Átila Iamarino foi considerado por alguns como “alarmista”, em contraste com a atitude de minimizar a pandemia como “histeria” e “resfriadinho”  que caracterizou o campo Bolsonarista; na perspectiva de vocês, o prognóstico é alarmista ou realista? A capacidade de contágio do novo coronavírus excede de fato a de outros vírus conhecidos? Apesar de sua letalidade abaixo dos 5%, é plausível prognosticar óbitos que superem um milhão de vidas humanas em países de populações humanas q superam 200 ou 300 milhões, como é o caso de EUA e América, epicentros atuais da covid-19 nas Américas? Tais “alarmes” contribuem para que o próprio cenário catastrófico possível não se realize devido a medidas de prudência coletiva tomadas no sentido do isolamento social?

 

  • Considerando que nenhum estudo seja conclusivo quanto a sua origem genética precisa, sendo que não se encontrou uma variante 100% idêntica à causadora da Covid-19, muito ainda se especula sobre a origem do novo coronavírus. A revista Nature atestou sua origem biológica, mas sem apontar definitivamente qual o animal hospedeiro desta variação chamada SARS-Cov2. Considerando a imensa capacidade de mutação dos coronavírus em geral, qual seria o caminho mais provável da contaminação humana?

 

  • Em que medida as ações humanas no planeta, nesta era geológica que adentramos, o chamado Antropoceno, são causadoras não só das mudanças climáticas (Efeito Estufa), mas também das pandemias? A destruição de habitats naturais de outras espécies, a “tirania” especista que os animais humanos impõem aos animais cujas carnes desejam comer, o uso intensivo de agrotóxicos e OGMs, as monoculturas, a destruição de florestas tropicais, também são responsáveis por disrupções nos equilíbrios ecosistêmicos que ocasionam o espalhamento de pandemias?

 

  • Mais recentemente, um estudo chamado “Grandes Fazendas, Produzem Grandes Gripes”, do pesquisador estadunidense Rob Wallace, aponta para a relação entre a pandemia e o modelo agroindustrial de pecuária suína. A hipótese é que morcegos alojados em grandes granjas possam ter contaminado os suínos, que, por sua vez, possuem grande similaridade genética com os seres humanos, o que facilitaria a transmissibilidade. Essa parece uma tese viável?

 

  • Em algum momento, as mídias ocidentais, em seu conjunto, denunciaram o consumo humano direto da carne destes animais “exóticos“ no mercado de Wuhan, na China, como origem mais que provável. Quase que o atestaram, nas entrelinhas. Isto disparou uma série de conclusões apressadas e uma verdadeira crise diplomática, além de um movimento xenófobo anti-China, que chegou até o Brasil, principalmente entre os detratores do Partido Comunista Chinês. Por estigmatizar os hábitos alimentares chineses e, consequentemente, racializar o debate, muitos atacaram o país e suas autoridades. Qual seria o papel da ciência na moderação ética de conclusões rápidas e indevidas, no esclarecimento das responsabilidades e no encaminhamento de desagravos diplomáticos ou reparações jurídicas em caso de pandemia ou problemas similares?

 

  • Estudos, como o da revista ScienceMag, atestaram a presença de variações muito similares nos morcegos, e logo nos pangolins, um mamífero da ordem Pholidota, similar aos tatus. Este mesmo estudo, entretanto, aponta que outros infectados chineses não tiveram qualquer contato epidemiológico com o “mercado molhado” de Wuhan, onde animais vivos são efetivamente comercializados, porém com um rigor sanitário atestado por pesquisadores de diferentes países, inclusive em comparação com similares nos Estados Unidos e Europa. Qual o nível do rigor sanitário contra contaminações similares no mercado de carnes no Brasil?

 

  • As mutações genéticas impostas pela humanidade – os OGMs, as sementes transgênicas, os clones etc. – hoje são questionadas por várias vozes críticas, a exemplo de Isabelle Stengers: mega-corporações como a Monsanto ou a Friboi, com o argumento liberal da “liberdade de empreender”, estão pregando seu “direito à irresponsabilidade” (como diz Stengers, No Tempo das Catástrofes, p. 69), tratando catástrofes sócio-ambientais por elas ocasionadas como externalidades, além de defenderem seus direitos de patente sobre OGMs. Na perspectiva de vocês, as megacorporações, sobretudo agroalimentares, teriam alguma “culpa no cartório” no atual cenário pandêmico?

 

  • É compreensível que, nesta conjuntura, os sujeitos humanos sejam tomados pelo temor de serem invadidos por um vírus invisível que pode causar estragos consideráveis à saúde, deixar sequelas nos pulmões ou mesmo causar a morte; porém, a esta “fobia” específica contrasta com a afirmação de muitos cientistas de que aquilo que chamamos de organismo humano, na verdade, está povoado por milhões de bactérias, fungos, vírus – somos um “zoológico itinerante” e uma “casa de feras”, como afirmou Emanuele Coccia em entrevista recente (leia trecho a seguir). Vocês compartilham desta visão do ser humano como uma espécie de “comunidade inter-espécies” que usualmente não se percebe como tal?

    “Todos somos cuerpos que transportan una increíble cantidad de bacterias, virus, hongos y no humanos. 100 mil millones de bacterias de 500 a 1.000 especies se instalan en nosotros. Esto es diez veces más que la cantidad de células que componen nuestro cuerpo. En resumen, no somos un solo ser vivo sino una población, una especie de zoológico itinerante, una casa de fieras. Aún más profundamente, múltiples no humanos, comenzando con virus, han ayudado a dar forma al organismo humano, su forma, su estructura. Las mitocondrias de nuestras células, que producen energía, son el resultado de la incorporación de bacterias. Esta evidencia científica debería llevarnos a cuestionar la sustancialización del individuo, la idea de que es una entidad en sí misma y cerrada al mundo y a la otredad. Pero también deberíamos eliminar la sustancialización de las especies …” Emanuele Coccia

Emanuele Coccia: «El virus es una fuerza anárquica de metamorfosis»

 

Sobre www.acasadevidro.com

Ponto de cultura em Goiânia. Plugando consciências no amplificador. Encabeçado por Eduardo Carli de Moraes, professor de Filosofia no (IFG). Jornalista e Documentarista independente.

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