O Planeta dos Humanos em Transição Energética || Por André Baleeiro para A Casa de Vidro

Na ocasião do 50º Dia da Terra, em 22 de Abril de 2020, foi lançado o documentário “O Planeta dos Humanos”, dirigido por Jeff Gibbs e produzido pelo famoso documentarista Michael Moore. O doc levanta a temática dos movimentos ambientalistas norte-americanos que colocam a alteração da matriz energética como uma de suas principais bandeiras.

Ao investigar a questão das energias renováveis, o documentário questiona se essas fontes são realmente “limpas” ou se o ambientalismo norte-americano estaria se iludindo, ou nos iludindo, com pseudo-soluções enquanto corremos contra o relógio na luta para minimizar as mudanças climáticas.

Este artigo tem o objetivo de aprofundar as questões levantadas pelo documentário em relação à necessária transição energética global dialogando com o Webiseminário realizado pelo Grupo de Estudos em Complexidade de Goiás e pel’A Casa de Vidro sobre o tema. Polêmicas com relação ao movimento ambientalista dos EUA serão deixados de lado.

A matriz energética norte-americana é profundamente dependente de combustíveis fósseis, em especial petróleo, gás natural e carvão mineral. Essas formas de energia, não-renováveis, são apontadas como grandes geradoras de gases de efeito estufa por serem reservas de carbono acumuladas em outras eras geológicas que são reemitidas na atmosfera.

Apesar de existirem avisos sobre mudanças climáticas da Terra desde a década de 50, a matriz de energia primária dos EUA ainda é de apenas 11% de Energias Renováveis1 e a sua Energia Elétrica é gerada a partir da queima desses combustíveis fósseis numa fatia de 63%2.

O documentário questiona a urgência e a efetividade de aumentar a participação das Energias Renováveis como uma solução para a crise ecológica. Eu resumo as linhas argumentativas desse discurso em 5 pontos que serão destrinchados a seguir.

1º A eficiência e sazonalidade das Energias Eólica e Solar inviabilizam sua ampla utilização.

Ao visitar usinas fotovoltaicas nos EUA, Jeff Gibbs testemunha bonitos discursos, mas ao questionar sobre como é produzido energia em dias nublados, chuvosos ou à noite, a resposta é: Temos que recorrer à rede elétrica ou a um sistema de baterias, que são muito impactantes e pouco eficientes. Para tratar da eficiência, Jeff filma uma usina que utiliza uma placa fotovoltáica de baixo custo que tem eficiência energética de apenas 8%.

De fato o armazenamento energético por baterias ainda é um limitação tecnológica, mas desqualificar a tecnologia de placas fotovoltaicas, que ainda é uma “criança” em termos de desenvolvimento, por causa das baterias, é um erro. O argumento da baixa eficiência das placas também, pois até as plantas, que a meu ver são exemplo de perfeição na tradução de energia solar, tem 27% de eficiência3.

Gerar energia diretamente a partir da nossa maior e mais abundante fonte, o sol, nunca é uma má ideia, seja por plantas ou por placas fotovoltaicas. Sobre a eficiência dessas transformações teríamos que nos esgueirar pela temática da Entropia e da dinâmica energética planetária, que será tema de outro artigo e outro webinário.

Os questionamentos do documentário deveriam ser direcionados muito mais à erros de projeto de engenharia, do que à “ilusão das energias renováveis”. Uma usina fotovoltaica não deve ser implantada em um local com baixa radiação solar nem uma usina eólica deve ser implantada em local com poucos ventos.

2º A baixa vida útil das Energias Eólica e Solar não compensam a pegada ecológica dessas tecnologias.

Esse questionamento é um pouco mais difícil de responder, visto que existem diversas formas de contabilizar o impacto do ciclo de vida de uma tecnologia. A meu ver esse é um gargalo para o amadurecimento da discussão sobre sustentabilidade. Pegada Ecológica, Análise do Ciclo de Vida, Análise de Energia Incorporada, Metodologia Emergética são alguns desses métodos. Todos eles têm prós e contras.

Portanto, argumentar que não compensa gerar energia por placas fotovoltáicas simplesmente por ser necessário fundir quartzo com carvão em fornos de 1800ºC é uma falácia. O cálculo básico que deveria ser feito é quanto de energia uma placa fotovoltáica pode gerar em 20 anos de vida útil. Se esse cálculo mostrar que é mais sustentável a placa do que 20 anos de queima de combustíveis fósseis para gerar a mesma energia, então compensa a energia solar.

Apenas em uma ocasião eu concordaria com Jeff sobre essa crítica da insustentabilidade das energias solar e eólica. Se ele defendesse um projeto de abandono dos confortos da sociedade industrial. Nesse caso a perspectiva passa a ser outra e a coerência dos dois primeiros argumentos aumenta.

3º Empreendimentos que se julgam “100% energias renováveis” se mantém conectados á rede elétrica.

A meu ver, o foco da crítica deveria ter sido à prática de greenwashing 4 das empresas, que adotam “práticas sustentáveis” para aumentar o valor inerente às suas marcas sem que as ações sejam representativas diante dos grandes impactos negativos provocados pelas mesmas.

Mas essa abordagem acabou sendo periférica. Optou-se ao invés disso por tentar provar que as empresas que alegam funcionar 100% com energias renováveis não a fazem de fato e a prova é que se mantém ligados à rede elétrica ou fazem uso de geradores à diesel.

Por tal escolha de roteiro, o documentário perde força. Ele escolhe trilhar uma abordagem sensacionalista com cenas de contradição entre discurso e prática ao invés de se aprofundar na necessidade de robustez de abastecimento ou na complexidade de uma rede multidirecional onde os geradores e os consumidores se misturam, como podemos ver abaixo.

Fonte: PDE 2029 (EPE, 2019)

4º A energia chamada Biomassa não passa de árvores cortadas para serem queimadas (nos EUA)

O documentário não se propõe a mergulhar no cálculo energético-ecológico de comparação entre a queima de biomassa e a queima de combustíveis fósseis. Ao invés disso, mostra gigantes usinas de energia que utilizam pinus plantados.

Nesse ponto, o documentário dá uma passada por outras formas de biomassa, como a cana-de-açucar no Brasil e óleos obtidos de animais, como vacas e até jacarés, o que acaba sendo um argumento de reductio ad absurdum (uma deixa para mostrar trituradores de animais).

Em termos de efeito estufa é menos prejudicial produzir energia a partir de biomassa, que foi plantada e que absorveu carbono, antes de ser extraída e queimada. De fato não deve ser o substituto aos combustíveis fósseis, mas pode ser um intermediário até a transição para uma energia de baixo carbono.

Novamente, acredito que o foco aqui deveria ser outro. A escala das usinas mostradas e a forma como são plantadas essa biomassa. Esta última argumentação é mais desenvolvida pelo documentário, colocando-o em um melhor caminho, como veremos a seguir.

5º A produção de Biomassa é feita a partir do agronegócio altamente dependente de combustíveis fósseis e de subsídios.

Essa constatação é a mais sistêmica em comparação às demais. De que adianta trocar combustíveis fósseis por biomassa na geração de energia se para a produção da biomassa é necessário uma agricultura industrial que desmata vegetações nativas, se baseia em manejos altamente insustentávias, que resultam em grande perda de solo e biodiversidade, e que são altamente dependentes de combustíveis fósseis?

Esse questionamento toca na realidade do campo brasileiro e de tantos outros países subdesenvolvidos que tem como principais causas de emissão de gases de efeito estufa o desmatamento de florestas nativas e os enormes gastos de combustíveis com logística de transporte de commodities.

O documentário ainda retrata a situação indígena no Brasil, que sofrem diariamente com esse agronegócio genocida. A situação dos Guarani-Kaiowá [5] que não têm suas terras demarcadas e que são cercados e mortos pelos latifundiários coronelistas pulverizadores de veneno é um custo muito alto e não contabilizado do agronegócio e do setor sucroenergético.

As conclusões d’O Planeta dos Humanos

As 5 linhas argumentativas são obtidas a partir da cobertura jornalística de situações que sustentam esses pontos, mas que não dão profundidade requerida pelo tema. Ao fim dessas argumentações, o documentário indica que estamos nos desviando das reais questões que deveríamos abordar, que segundo eles são três:

  1. A super população planetária:

Essa defesa é facilmente apropriada por interesses eugenistas e intervencionistas. A QUESTÃO NÃO É A SUPER POPULAÇÃO. Se tivéssemos 7 bilhões de pessoas com hábitos de consumo dos africanos, o planeta não estaria nem de perto tão fudido. O problema é que um norte-americano consome o equivalente a dezenas de africanos! Se tivéssemos hábitos mais sustentáveis, uma economia circular e cadeias de consumo mais curtas, poderíamos ter 10 bilhões de habitantes. A questão é produzir o necessário de forma a permitir a regeneração dos ecossistemas.

  1. A crença da economia no crescimento infinito em um planeta finito é suicídio;

Desfazer esse mito é fundamental, e diversos economistas formados em importantes academias do mundo tentaram desfazer essa crença desde os anos 706 e comunidades tradicionais colonizadas falam isso desde que tiveram contato com a ganância mercantilista/capitalista7.

  1. A fusão entre o ambientalismo norte-americano e o capitalismo se fez completa.

Essa é a mensagem que recebe maior ênfase, talvez pela necessidade pessoal do diretor de expor a cooptação dos movimentos ambientalistas por empresários bilionários que ocorreu na conjuntura norte-americana. É interessante que a única gota de confiança é dada ao movimento ambientalista popular representado pela Vandana Shiva, o que dá uma breve perspectiva de esperança na luta ambiental organizada.

Balanço do documentário e perspectivas

No frigir dos ovos, O Planeta dos Humanos, apesar de levantar temas importantes e contradições que os setores de pesquisa e desenvolvimento das energias renováveis devem encarar de frente, acaba optando por recursos sensacionalistas.

Ele cria no espectador a ideia de que as energias renováveis são uma farsa e foca na contradição dos movimentos ambientalistas norte-americanos que as utilizam como panacéia para a crise ecológica planetária que nossa civilização vive.

Energias renováveis não são A solução, mas são parte da solução. Temos que ter um projeto energético para que os estados-nação substituam urgentemente suas fontes não-renováveis enquanto construímos simultaneamente experiências comunitárias de tecnologias sociais que gerem autonomia e soberania energética e alimentar.

As questões cruciais continuam sendo “Energia pra Quê” e “Energia pra Quem”. Os subsídios energéticos aos setores eletrointensivos para exportarem matéria-prima, a imensa queima de combustíveis devido à escolha por uma malha rodoviária de transporte de mercadorias e a ineficiente mobilidade urbana por automóveis individuais são apenas alguns problemas que devemos enfrentar na realidade brasileira.

É por isso que o Grupo de Estudos em Complexidade de Goiás discutiu no dia 28 de março de 2020 a necessária Transição Energética, que significa basicamente construir uma economia de baixo carbono. Essa é uma transformação sistêmica que exige mudanças em todos os níveis, do individual ao global, de forma simultânea. A velocidade com que as nações e as comunidades perceberem isso dirá se essa transição será mais sutil ou mais traumática.

Confira o Webinário Diálogos Transdisciplinares sobre Transição Energética: https://wp.me/pNVMz-6p5

“Há apenas uma liberdade: chegar em acordo com a morte.”
Albert Camus, citado no documentário O Planeta dos Humanos. [8]

REFERÊNCIAS

1 https://www.eia.gov/energyexplained/us-energy-facts/

2 https://www.eia.gov/tools/faqs/faq.php?id=427&t=3

3 Albarrán-zavala, E., & Angulo-brown, F. (2007). A Simple Thermodynamic Analysis of Photosynthesis, 152–168.

4 Greenwashing é um termo para significar uma estratégia anti-ética de marketing de empresas que querem se passar por “amigas do meio ambiente” sem serem de fato. Um manual do IDEC ajuda a identificar essas práticas: https://idec.org.br/greenwashing

5 Um lindo curta-metragem sobre a subjetividade da sobrevivência dos Guarani-Kaiowá a partir da ótica infantil é “A Cordilheira de Amoras II”

6 https://pt.wikipedia.org/wiki/Economia_ecol%C3%B3gica

7 “Quando o último rio secar, a última árvore for cortada e o último peixe pescado, eles vão entender, que dinheiro não se come.” Cacique Seattle.

8 “There is only one liberty: in coming to terms with death.”

André Baleeiro
A Casa de Vidro
Goiânia, Maio de 2020

Sobre www.acasadevidro.com

Ponto de cultura em Goiânia. Plugando consciências no amplificador. Encabeçado por Eduardo Carli de Moraes, professor de Filosofia no (IFG). Jornalista e Documentarista independente.

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