PROIBIDO ESQUECER – Os deveres da memória em tempos de genocídio: O caso “Black Earth Rising” (BBC/Netflix)

“A million candles burning
For the help that never came
You want it darker
We kill the flame…”
LEONARD COHEN

Ruanda, 1994: cerca de 800.000 pessoas são assassinadas em 100 dias de carnificina. Recontada no cinema em Hotel Ruanda (de Terry George, 2004), em livro-reportagem no Gostaríamos de Informá-lo De Que Amanhã Seremos Mortos Com Nossas Famílias de Philip Gourevitch (Cia das Letras) e nos romances de Scholastique Mukasonga (três deles publicados no Brasil pela Editora Nós), a história do genocídio ruandês agora volta à tona: Black Earth Risingsérie de 8 episódios produzida pela BBC e que está no acervo da Netflix, retrata os traumas e cicatrizes que marcam os sobreviventes, as testemunhas e os perpetradores deste monumental e trágico evento histórico. Ao fim do século 20, a violência ainda inundava a História Humana, este pesadelo do qual tentamos acordar (para lembrar do personagem de James Joyce, S. Bloom, que afirma no Ulisses: “History is a nightmare from which I am trying to awake”). [1]

Escrita, produzida e dirigida por Hugo Blick (também responsável pela minisérie The Honourable Woman (A Mulher Honrada), Black Earth Rising foca no trabalho de uma equipe de juristas que dedicam suas vidas ao esforço de penalização de genocidas e criminosos-de-guerra, processados em tribunais penais internacionais como o de Haia (Holanda). A personagem principal, Kate Ashby (interpretada por Michaela Coel), atravessa radicais transformações de identidade em uma trajetória para desocultar os segredos de seu passado: ela era uma criança em meio à matança generalizada deflagrada em 1994 lá em sua terra natal Ruanda, e que se estendeu pelos anos seguintes no país vizinho (Zaire / Congo).

Sem memórias claras de sua primeira infância, Kate – que foi adotada pela advogada inglesa Eve Ashby – só poderá compreender muito mais tarde os maiores mistérios de seu destino prévio. Transformada numa mulher em ação, na luta pela memória e pela justiça, ainda que tardias, Kate Ashby vai numa jornada em busca do tempo perdido bastante peculiar, desvelando os nós que entrelaçam seu destino pessoal com os destinos coletivos dos povos do Continente Matriz da humanidade, a África.

Em entrevista à BBC, Blick revelou um pouco do que o inspirou a realizar a série:

“Onde eu cheguei não é o destino que eu esperava. Alguns anos atrás, olhei para os julgamentos de Nuremberg como parte de uma pesquisa de fundo para a série “A mulher honrada “. Consequentemente, fiquei interessado em explorar como perseguimos hoje os criminosos de guerra internacionais. Comecei com o Tribunal Penal Internacional (TPI) e fiquei surpreso ao descobrir, no momento da minha pesquisa, que a maioria, senão todas as acusações formais, eram contra africanos – negros africanos. Isso então me atraiu para o Congo. O TPI não estava apenas perseguindo os perpetradores do genocídio de Ruanda, fiquei ainda mais intrigado ao descobrir que ele também estava perseguindo indivíduos que ajudaram a pôr fim ao genocídio. Ambos os lados eram procurados pelo TPI por supostas atrocidades cometidas na República Democrática do Congo após o genocídio em meados da década de 2000. Eu queria entender por que aparentes vilões e heróis estavam sendo perseguidos. E quanto mais eu olhava, mais fundo eu tinha que ir. ” (BLICK, Hugo. BBC.) [2]

A compreensão do que ocorreu em Ruanda, em 1994, é um desafio cognitivo tremendo. As dificuldades começam pelo fato de que poucos tem estômago para mergulhar no estudo de fenômenos que são tão chocantes e angustiantes, devido à escala monumental do horror e da violência que envolvem. Philip Gourevitch escreve, sobre aquela época, de maneira bem punk, que “o governo ruandês adotara uma nova política, segundo a qual todo mundo do grupo majoritário hutu era convocado a matar todo mundo da minoria tutsi. O governo e um impressionante número de seus súditos imaginavam que exterminando os tutsis poderiam fazer do mundo um lugar melhor – e o assassinato em massa começou.” (GOUREVITCH, P. Cia das Letras, leia um trecho) [2]

O trecho de Gourevitch estabelece uma distinção entre a minoria Tutsi e maioria Hutu, afirmando que a maioria, através do assassinato em massa da minoria, “imaginavam que poderiam fazer do mundo um lugar melhor”, o que é o supra-sumo do contra-senso: utilizar um meio como o assassinato em massa para atingir a finalidade de um mundo melhor é algo estapafúrdio. Só temos a lamentar a crença de muitos na tese de que “o fim justifica os meios”, quando na verdade meios atrozes e cruéis sempre hão de conspurcar os fins, mesmo os supostamente mais elevados. Creio, porém, que o buraco é mais embaixo, que o ímpeto idealista de fabricar uma realidade social melhorada através da purificação, da limpeza étnica, está calcada num dos mais sérios problemas a desgraçar a caminhada humana sobre o planeta – o racismo. Tema que Black Earth Rising evita encarar de frente.

Outra dificuldade que se interpõe como obstáculo na nossa tentativa de compreensão das ocorrências em Ruanda, em 1994, parece-me ser a seguinte: por comodismo e facilidade, ou seja, pela lei-do-mínimo-esforço que preside o trabalho de muitas mentes que se abandonam ao Império da Preguiça, temos uma certa tendência a simplificar as coisas através da perigosa prática do binarismo – e também do maniqueísmo que muitas vezes o acompanha. Usualmente, desejamos enquadrar o mundo e a história em um esquema em que separamos o joio do trigo de modo bastante tosco: há vilões e heróis, bandidos e mocinhos, a luta entre o Bem e o Mal, “ou você está conosco ou está contra nós” (recentemente, um presidente genocida como George W. Bush reciclou esta desgraça de maniqueísmo binário ao lançar sua Guerra Contra o Terror).

A realidade, porém, é muito mais complexa e destroça nossos binarismos maniqueístas. Jamais faríamos o mínimo de Justiça, nem honraríamos os deveres da Memória, tentando enquadrar, em massa, Tutsis e Hutus em uma dessas categorias: Vítimas e Carrascos. Precisamos ir além do simplismo de opor uma “coitada minoria massacrada” e uma “desumana maioria assassina”. Temos que complexificar o quadro e olhar de frente no rosto da Besta Humana. Pois a Humanidade sabe muito bem ser desumana. Nossa união ainda está por ser inventada.


PARA ALÉM DO BINARISMO E DO MANIQUEÍSMO

Um dos ensinamentos de Black Earth Rising é que não podemos cair no binarismo fácil de classificar estas etnias como vítimas (Tutsis) carrascos (Hutus) – as posições de vítimas e carrascos são muito mais intercambiáveis. Ser um Tutsi não é um atestado de vítima, nem imuniza a pessoa contra o cometimento de atrocidades, nem tampouco ser um Hutu é um atestado de genocida, nem impede a pessoa de militar em prol da convivência pacífica.

É isto que Kate Ashby não consegue compreender a princípio: ela está aferrada à noção de que os Tutsis são as vítimas, os Hutus os genocidas. Aferrada, além disso, à crença sobre si mesma: está certa de que é uma Tutsi sobrevivente do genocídio, e tudo fará para que os responsáveis pelo morticínio escapem da impunidade de que ainda gozam. Por isso Kate suporta tão mal que sua mãe tente incriminar em Haia o General Simon Nyamoya, um chefe Tutsi que ajudou a pôr fim ao massacre, em 1994, mas depois se envolveu em crimes de guerra e tráfico de minérios no Congo, além de ter participado de uma carnificina contra um campo de refugiados Hutu em território congolês.

Baseado em fatos reais que o Mirror reconta, assim como a reportagem da BBC, Black Earth Rising merece ser vista na íntegra para que se possa ter uma experiência plena das metamorfoses de Kate Ashby no decorrer da série. Ema espécie de 1º ato, Kate Ashby reluta em ver seu herói Nyamoya sendo destronado, caindo do pedestal em que ela, e tantos outros, mantinham-no. É uma primeira amarga lição, que a impede de idealizar cegamente os chefes Tutsis que lutaram para pôr fim ao genocídio em 1994: apesar de “libertador” dos Tutsis que estavam sendo massacrados, revela-se que Nyamoya também é culpado por crimes contra a humanidade e limpeza étnica – sobretudo no episódio do “desmantelamento” (eufemismo para extermínio!) do campo de refugiados Hutus no Congo.

Mais para o fim da série, será revelado que a própria Kate esteve neste campo, sendo dele resgatada por um ativista de ONG. Quase no desfecho da série, Kate está dentro de uma cova coletiva, temendo por sua vida, como se tivesse ganho algumas décadas de sobrevivência para finalmente perecer no buraco onde deveria ter ficado enterrado seu cadáver infantil, mas percebe que um mutirão de pessoas decidiu, como ela, trabalhar para trazer à tona no presente os ossos enterrados de uma História mal contada e ocultada.

Não é possível compreender as ocorrências de que fala a série com o nosso foco exclusivamente em Ruanda em 1994: os precedentes do genocídio incluem necessariamente as ações das grandes nações imperialistas do Ocidente. Não é fora de propósito averiguar quanto do sangue derramado em Ruanda tem origens numa insanidade racista que foi inicialmente propagada pelo colonizador europeu e pelas ideologias supremacistas que marcaram não apenas o nazifascismo, mas também o escravismo nos EUA calcado na white supremacy. Sim, precisamos falar sobre ideologias racistas típicas do imperialismo “ocidental” – aquele que praticou por séculos a escravidão contra milhões de africanos – para chegar perto de entender melhor o destravamento das carnificinas ruandesas de 1994.

No fim do século XX d.C., a Humanidade descobria, atônita, nossa resiliente capacidade para o pior, somada à nossa incapacidade de autenticamente aprender com erros passados e suas funestas consequências. Parecíamos condenados a repetir, com Maslow: “O Horror! O Horror!”, frase com que se encerra O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, retrato do Congo belga no livro que depois se transformou em Apocalypse Now (filme de F. F. Coppola). O pesadelo do fratricídio entre Tutsis e Hutus segue desafiando nossa Razão a decifrar seus porquês – e diante de vidas humanas reduzidas em massa à morte, é preciso cuidado redobrado naquilo que dizemos e escrevemos. Aqui estou na postura de quem se estarrece que acontecimentos assim estejam entre nossos possíveis, mas não na postura de quem traz todas as respostas em uma bandeja.

Pelo contrário, trago uma bandeja cheia de questões: nós, que nos acostumamos a pensar sobre o racismo como um fenômeno vinculado ao “preconceito de cor”, para lembrar um samba de Bezerra da Silva, como podemos reconfigurar nossa compreensão do racismo diante daquilo que parece ocorrer entre grupos humanos que não estão separados pela barreira epidérmica das dosagens de melanina? O III Reich hitlerista assassinou em massa judeus e bolcheviques, homossexuais e ciganos, mas não consta que tenha visado, como alvos, as populações de descendência africana que estavam naquela Europa que o nazismo pretendeu subjugar a seu sinistro império. Porém, o Holocausto – o genocídio imposto pelo governo nazifascista alemão a mais de 6 milhões de judeus europeus – não é menos racista pelo fato de que, olhado através de um viés bem superficial, trata-se de brancos matando brancos, europeus chacinando europeus.

Algo semelhante me angustia diante do contexto em Ruanda nos anos 1990: Tutsis e Hutus não são distinguíveis por sinais visíveis – similarmente, olhando através de um viés epidérmico, de uma perspectiva que pára na pele, trata-se de negros matando negros, africanos chacinando africanos. O racismo estaria, portanto, riscado da lista de motivações possíveis para estes genocídios? Não creio. O que exige repensar o racismo de modo mais aprofundado, como uma espécie de crença coletiva que um grupo social compartilha e que inclui a desumanização de um outro grupo social. Um dos elementos mais interessantes de Black Earth Rising está na flutuação identitária que o seriado retrata ao descrever as descobertas bombásticas que realiza, em sua vida, a personagem Kate Ashby.

Para todos os efeitos, Kate Ashby aparece-nos, no começo da série, como uma cidadã britânica, uma falante da língua inglesa, uma londrina que cresceu sob os cuidados de sua mãe adotiva, a célebre jurista Eve Ashby. Porém, Kate Ashby é um nome postiço e tardio que vem para encobrir o anonimato de uma criança que sobreviveu sozinha ao genocídio: sem familiares nem amigos que pudessem dizer seu autêntico nome, privada das informações sobre seu batismo africano originário, ela se torna uma sobrevivente do genocídio ruandês a quem se oferece um novo começo no United Kingdom: cresce acreditando, a partir das narrativas que lhe contaram, que é uma Tutsi, sobrevivente de um massacre cometido pelos Hutus.

Qual não será a sua surpresa quando descobrir, conforme avançam suas investigações relacionadas com a tentativa de condenação em Tribunal Penal Internacional do general Hutu Patrice Ganimana, que na verdade Kate Ashby foi em sua primeira infância algo bem diferente de uma criança Tutsi sobrevivente de um genocídio: era uma criança Hutu que deixou o país após o fim da carnificina, tornando-se uma emigrante e depois uma refugiada no país vizinho, então o Zaire, hoje a República Democrática do Congo. A mulher que se conhece por Kate Ashby, cujo nome africano nunca se soube, descobre que lhe mentiram sobre as circunstâncias em que foi resgatada em meio à insana matança dos adultos que a rodeavam: ela acreditava ser um Tutsi que perdeu tudo devido a sanguinários Hutus, e descobre que era uma Hutu que sobreviveu a um massacre perpetrado contra um campo de refugiados no Congo onde estavam 50.000 pessoas, cerca de 9.000 delas crianças.

O que pensar sobre o tema da identidade diante deste caso? Apesar de fictício, o enredo de Black Earth Rising pode nos instigar a seguinte reflexão: nossa identidade não é independente das narrativas que interiorizamos sobre quem somos e sobre a qual grupo social pertencemos. Kate Ashby, em Black Earth Rising, é sempre descrita como uma pessoa sob o risco de colapso psíquico: no primeiro episódio, ela consegue pílulas para tentar controlar seus ímpetos suicidas e faz uma piada com a obra de Primo Levi, judeu sobrevivente do Holocausto. O fato de ser uma sobrevivente de genocídio é essencial à sua identidade, mas os fragmentos de seu passado que ela usou para compor sua auto-imagem revelam-se falsos.

Ela se vê então envolvida numa teia de acontecimentos em que seu destino individual se mescla com o destino de sua pátria e de todo o continente africano: Kate Ashby não está apenas numa viagem de “auto-descoberta”, mas também presa numa teia coletiva e histórica em que terá que reconsiderar radicalmente tudo o que acreditou sobre si, sobretudo a crença de sua pertença à raça/etnia Tutsi.

Um dos grandes temas de Black Earth Rising é o direito à memória e à verdade. A essência dos discursos da personagem Alice Munezero vão neste sentido, o de conclamar-nos para que acessemos o passado em sua verdade, pois em nada contribui para a reconciliação você recalcar o passado coletivo, não permitindo que venham à tona certos episódios que certos grupos não julgam convenientes tornar conhecidos e públicos. A lição que tiro disto é que não devemos “essencializar” a diferença entre Tutsis e Hutus, nem entre nazistas e judeus, como se houvesse de fato uma diferença de essência entre eles que justificasse a noção de que cada grupo pertence à uma diferente raça. Se a diferença não é de essência, é preciso que ela esteja em outra parte, que a diferença seja de pertença, de cultura, de aprendizado, de interiorização narrativa, em suma: de educação. Nurture, not nature.

O racismo, pois, é um construto: não existem raças humanas, mas sim grupos humanos capazes de acreditar na supremacia étnica ou racial. Não parecem existir justificativas para cindir a humanidade em raças superiores e inferiores por razões genéticas, como quiseram fazer os eugenistas de todos os tempos, o que nos conduz à tese de que o problema está de fato na presunção de superioridade que certos grupos acabam interiorizando como uma espécie de item narcísico identitário. Esta crença supremacista – que leva o sujeito à fé de que pertence a um grupo social, ou casta, ou raça, que é melhor, mais superior, mais civilizado, mais humana que o grupo, casta ou raça inferiorizado e desumanizado – está na raiz do problema.

Por isto a educação também está: se não “genes-Tutsi” nem “genes-Hutus”, ou seja, se ninguém nasce com um DNA Tutsi ou Hutu, estas diferenças são construídas, ou seja, as pessoas são ensinadas a aderir a uma certa pertença comunitária que define sua identidade. Se foram ensinadas, ou seja, culturalmente determinadas, isto significa, como é evidente, que a educação e a cultura, transformadas e revolucionadas, são as forças principais para que o racismo construído cesse de sê-lo. Raças humanas nunca existiram, agora é nossa tarefa desconstruir, criticar e aniquilar os racismos para que também eles cessem de ser.

O racismo a que me refiro, ou seja, esta presunção de superioridade e este supremacismo étnico-racial motivado por uma pertença identitária, pode se amparar em características corporais ou epidérmicas – como foi no racismo instituído no Sul dos EUA durante o domínio da white supremacy ou na África do Sul na vigência do apartheid. Mas a crença supremacista pode se amparar em outros elementos, menos epidérmicos, aparentemente desvinculados de questões cromáticas e das aparências do corpo humano.

Hoje, não resta muita dúvida de que Adolf Hitler e o regime que chefiou era alicerçado no racismo instituído, na fantasia de domínio dos “arianos”. E tampouco me parece contestável a tese, defendida por Domenico Losurdo (entre outros), de que há muita similaridade entre os nazis arianistas e os supremacistas brancos dos EUA; há mais em comum entre a Ku Klux Klan e o nazismo do que sonha a liberal filosofia… A insana “originalidade” do hitlerismo foi tratar judeus e bolcheviques como se fossem negros no Sul dos EUA na era escravagista. Se as raças humanas não existem de fato, como podem garantir muitos cientistas, o racismo de fato existe como fenômeno ideológico e como práticas instituídas, de modo que o combate ao racismo permanece necessário e urgente, sendo um dos grandes desafios educacionais que deve mobilizar os esforços de todos nós que trabalhamos com educação, comunicação social e mobilização de massas. Como disse Nelson Mandela:

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.” –
Nelson Mandela, “Long Walk to Freedom”, 1995. [3]

Genocídio é uma palavra nova, um fruto macabro da época que o historiador Hobsbawm chamou de “A Era dos Extremos”. Através de livros como A Problem From Hell, de Samantha Power, e de filmes como Watchers of the Sky, de Edet Belzberg (2010), podemos aprender que o termo genocídio foi cunhado por Raphael Lemkin (1900-1959) e une o cide (assassinato em latim) e o genos (família, tribo ou raça em grego) para forjar um conceito que se refere ao assassinato em massa cometido por ódio étnico-racial. O antropólogo anarquista Pierre Clastres posteriormente irá distinguir o conceito de genocídio do conceito de etnocídio, em Arqueologia da Diferença. Aqueles que acompanham o cenário musical também sabem dos esforços de artistas atuais como M.I.A. (rapper inglesa, de origens no Sri Lanka), na denúncia de processos genocidários que ocorrem hoje contra os Tamil do Sri Lanka ou os Rohingya de Mianmar, ou do System of Down, banda de heavy metal que sempre quis relembrar episódios de m passado esquecido por muitos, como o Holocausto armênio de 1915 – 1923, tema também do filme The Cut de Fatih Akin.

Diante do genocídio ruandês, a pior das explicações é aquela que culpabiliza os próprios ruandeses por terem descido à barbárie de “uma insanidade tribal”, como diz um burocrata governamental inglês em Black Earth Rising. Esta explicação, de um racismo velado, parece atribuir toda a culpa às insanidades do tribalismo africano, conduzindo à noção eurocêntrica e supremacista de que as afiliações e pertenças étnicas dos ruandeses “atrasados” e “primitivos” são as culpadas pelo horror. Na verdade deveríamos estar nos perguntando qual é o grau de responsabilidade do Imperialismo Ocidental – que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, sendo que foram necessários muitos movimentos anticolonialistas na África e na Ásia após 1945, em luta por libertação!

As ideologias de supremacismo étnico-racial são bastante típicas de países que foram impérios escravocratas sediados na Europa, e não é fora de propósito supor que estas ideologias racistas possam ter sido exportadas pelos imperialistas colonizados, acabando por contaminar os povos colonizados: a Bélgica, a França, a Alemanha, a Grã-Bretanha, não podem se eximir de toda a responsabilidade pelo que se passou em Ruanda em 1994. Além disso, diante de 800.000 mortos em 100 dias, precisamos nos perguntar também: Estados Unidos da América, que pretendia ser após o colapso da URSS e da queda do Muro de Berlim, uma espécie de Xerife Global e o Super-poder de um mundo Unipolar, em um contexto em que Fukuyama previa o “fim da História” com o triunfo final do capitalismo liberal globalizado, por que diabos o Tio Sam, ou melhor, suas maiores autoridades, fizeram tão pouco e foram tão ineficazes para conter a carnificina, para amainar sua fúria, para salvar dezenas de milhares de vidas? A resposta de Samantha Power, vencedora do Prêmio Pulitzer, é chocante mas me parece verdadeira:

Romeo Dallaire, a Canadian major general who commanded UN peacekeeping forces in Rwanda in 1994, appealed for permission to disarm militias and to prevent the extermination of Rwanda’s Tutsi three months before the genocide began. Denied this by his political masters at the United Nations, he watched corpses pile up around him as Washington led a successful effort to remove most of the peacekeepers under his command and then aggressively worked to block authorization of UN reinforcements.The United States refused to use its technology to jam radio broadcasts that were a crucial instrument in the coordination and perpetuation of the genocide. And even as, on average, 8,000 Rwandans were being butchered each day, the issue never became a priority for senior U.S. officials. Some 800,000 Rwandans were killed in 100 days. No U.S. president has ever made genocide prevention a priority, and no U.S. president has ever suffered politically for his indifference to its occurrence. It is thus no coincidence that genocide rages on…” SAMANTHA POWER [4]

É bem-vinda a chega entre nós de Black Earth Rising, que demonstra que BBC e Netflix eventualmente se interessam por temas tão importantes quanto o direito à memória, a difícil concretização de uma justiça penal internacional e os mecanismos de prevenção ao genocídio. A série é ótima, no geral, apesar de algumas falhas – dentre estas, eu mencionaria que a série jamais revela porquê Kate Ashby teria sido iludida com mentiras explícitas por todos ao seu redor, sendo convencida de que era uma Tutsi e não uma Hutu. Qual o sentido desta teia de mentiras que depois será duramente desfeita? Apesar destes pontos obscuros, Black Earth Rising é uma obra potente, repleta de protagonismo feminino, que retrata também o empoderamento da mulher negra em espaços de poder, inclusive através da personagem da presidenta de Ruanda e seus dilemas no sentido de avançar no sentido da justiça social, tendo como uma das dificuldades maiores o neo-imperialismo que se manifesta pela fome ocidental por minérios. Sabemos que as minas de cobalto e outros minérios, em Ruanda e no Congo, estão na mira de várias corporações internacionais que fabricam celulares e computadores (vejam o documentário Blood in The Mobile).

Em uma das cenas mais inesquecíveis, Kate Ashby revisita em Ruanda uma igreja onde centenas de Tutsis foram massacrados. Transformada em Museu, a igreja agora acolhe apenas as roupas ensanguentadas dos que pereceram no massacre, assim como o Museu do Holocausto em Berlim visa dar uma noção do tamanho do extermínio perpetrado pelos nazis ao empilhar sapatos, aos milhares, dos que pereceram nos campos da morte erguidos pelo III Reich.

Diante de uma estátua de Cristo sem cabeça, Kate Ashby parece ter sua vida invadida pelos fantasmas de todos os massacrados, num transbordamento psíquico tão insuportável que ela precisa, na saída da igreja, chorar convulsivamente e buscar amparo no peito daquele que ela foi ensinada a odiar, um Hutu – que também foi ensinado a odiá-la. Instantes depois, conduzida ao local onde os refugiados Hutus no Congo foram massacrados pelos Tutsis, ela se surpreende com a aparição de centenas de pessoas da comunidade que decidem cavar para revelar, através da cruel pedagogia dos ossos, uma verdade que estava enterrada.

“She risked her future to uncover her past“, diz a frase no cartaz de Black Earth Rising: de fato, Kate Ashby tornou-se um emblema, concedido à Humanidade por uma competente teledramaturgia, de alguém que tem a ousadia de ir atrás do desocultamento de verdades, por mais amargas e cruéis que sejam, arriscando seu futuro para desocultar seu passado. Ensina, assim, sobre a importância suprema de cumprirmos com nossos deveres de memória e com nossos trabalhos de justiça, pois a possibilidade dos genocídios do futuro dependem de nossa negligência presente em aprender com o passado. Se nos recusarmos à lembrança e não buscarmos trazer à justiça carrascos e genocidas, só estaremos contribuindo para que nosso futuro esteja tão repleto de atrocidades quanto nosso passado.

Na canção tema da série, o bardo canadense Leonard Cohen canta um sombrio folk que fala sobre “um milhão de velas queimando por uma ajuda que não veio”. Sinistro, Cohen evoca o serviço atroz daqueles que se engajam nas tarefas do obscurantismo e querem tornar tudo, para todos, mais escuro (“you want it darker? we kill the flame…”). Diante disso, precisamos ser os que re-acendem a Iluminação plena para que esta se espraie pela História, aumentando nossa compreensão corajosa dos horrores que se passaram, de modo a evitar os genocídios do porvir – infelizmente prováveis, possíveis e plausíveis em uma época em que estão empoderados genocidas-em-potencial como Jair Bolsonaro, racista, misógino, homofóbico, notório defensor de Ditaduras Militares, fã de criminosos-contra-a-humanidade como Ustra, Pinochet e Stroessner, que prega o extermínio de opositores políticos e jamais escondeu suas posturas de supremacista branco que mede “afrodescendentes” em “arrobas”.

Em meio à pandemia de covid-19 em 2020, vimos Bolsonaro ser denunciado no mesmo Tribunal Penal Internacional de Haia que é cenário para Black Earth Rising. O presifake brasileiro, denunciado por incitação ao genocídio, demonstrou através de sua criminosa irresponsabilidade perante à crise da saúde coletiva, e também por sua participação em atos públicos que demandavam o colapso das instituições democráticas, que é um atroz agente de uma necropolítica do assassínio-em-massa e do ocultamento da História.

O Bolsonarismo deseja desmantelar o direito do povo brasileiro à memória e à justiça, cuspindo naqueles que trazem à luz os ossos de nosso passado real como se não passassem de cães, quando na verdade são figuras como o “Seu Jair” que, através da História, propiciaram as condições para os “massacres administrativos” e para a “banalidade do Mal” de que nos fala Hannah Arendt. Black Earth Rising nos ajuda a aprender que a atrocidade terá longo futuro enquanto formos incapazes de iluminar, com nossa compreensão e lucidez, com a coragem de nosso conhecimento, as atrocidades passadas e hoje ainda infelizmente tão possíveis. Só o passado iluminado pela lucidez atual é capaz de dar força e energia para que a geração atual possa ir mudando os rumos que já se mostraram que conduzem ao abismo e à carnificina.

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Abril de 2020

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https://wp.me/pNVMz-6p1.

REFERÊNCIAS

[1] JOYCE, JamesUlisses.

[2] BLICK, Hugo. Entrevista à BBC.

[3] GOUREVITCH, Philip. Gostaríamos de Informá-lo De Que Amanhã Seremos Mortos Com Nossas FamíliaCia das Letras.

[4] MANDELA, Nelson. Long Walk to Freedom, 1995.

[5] POWER, Samantha. A Problem from Hell: America and the Age of Genocide. 

VÍDEOS RECOMENDADOS:

SAMANTHA POWER:

LINKS DE INTERESSE: The GuardianCineset

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UM VIOLADOR EM TEU CAMINHO – O feminismo internacionalista do Coletivo Las Tesis chileno emplaca um “megahit” na cultura global. Assista ao curta-metragem produzido em Goiânia por A Casa de Vidro.

I. A ARTE DA REVOLUÇÃO SERÁ INTERNACIONALISTA

Sobre o tapete vermelho onde desfilavam as celebridades do showbizz, a vencedora do Grammy Latino 2019 cometeu uma heresia feminista. Desnudando os seios na frente dos paparazzi e das câmeras de youtubbers, a cantora chilena Mon Laferte, fenômeno da música latino-americana atual, protestou contra Piñera e seus carabineiros. As tetas de fora, no caso, não tinham a ver com pornografia, mas com o desejo de que o mundo inteiro lesse a mensagem desenhada entre os mamilos, “en Chile torturan violan y matan”. Uma frase tão forte que estava destinada a virar meme (e viralizar):

Vencedora do prêmio de Melhor Álbum Alternativo por seu disco Norma (2019), Laferte está em sintonia com as intensas mobilizações feministas no Chile. No Grammy, deu voz a uma poesia composta à maneira de Violeta Parra, ou seja, uma décima (como são conhecidas as poesias de dez versos na lírica chilena), composta pela cantora chilena La Chinganera, expressando todo o tormento de um “Chile que me dói por dentro, que me sangra por cada veia”.

A reportagem da BBC, Topless de protesto de cantora chilena Mon Laferte revoluciona tapete vermelho do Grammy, destacou que

“em seu discurso de agradecimento, a artista pediu justiça ao Chile e reivindicou a luta dos jovens no país, que enfrenta uma onda de manifestações há mais de um mês contra a desigualdade social. “Chile, você me machucou por dentro, me sangra por todas as veias, me pesa cada corrente que te aprisiona até o centro. Chile afora, Chile adentro. Chile ao som da injustiça, da bota da milícia, da bala que não escuta. Não vão parar nossa luta, até que seja feita justiça”, recitou.”

Laferte estava assim em sinergia com o fenômeno feminista do ano, nascido em Valparaíso, cidade chilena da costa do Pacífico. Lá, dos cerros repletos de criatividade de Valpo, o coletivo interdisciplinar de mulheres Las Tesis, com mais de 250.000 seguidorxs no Instagram, disparou desde o Chile outra performance memética e viral que tomou conta da McLuhaniana “Aldeia Global”:

II. VIOLADORES EM NOSSO CAMINHO

“O Estado opressor é um macho violador!”, repetem em coro as mulheres, em uma vibe que evoca o Femen, a Marcha das Vadias (Slut Walk, originária de Toronto), o Pussy Riot russo, mas também se afina com o movimento cívico que marcou as eleições de 2018 no Brasil, o #EleNão.

Não restam dúvidas, diante da disseminação verdadeiramente viral de “Un Violador En Tu Camino”, que estamos diante de um excêntrico hit musical. Os DJs já pulam em cima da canção para fornecer a ela os beats eletrônicos infecciosos que somem dançabilidade ao refrão “Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía!”

“El patriarcado es un juez, que nos juzga por nacer
y nuestro castigo es la violencia que no ves.
El patriarcado es un juez, que nos juzga por nacer
y nuestro castigo es la violencia que ya ves.
Es feminicidio
Impunidad para el asesino
Es la desaparición
Es la violación
Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía…”

hit disparou numa jornada cosmopolita, tentando provar na prática o velho mote socialista: a arte da revolução será internacionalista. O hino feminista foi cantado em quéchua no Peru, ganhou as ruas da Índia e do Líbano, foi criminalizado na Turquia, e agora vem penetrando em território brasileiro querendo reativar, cerca de um ano depois, a “Primavera Feminista” do Ele Não. A fotoreportagem do El País conseguiu mapear bem o processo recente de internacionalização desta performance artística que rompe as fronteiras entre o que é ato cultural e o que é manifestação política.

Em entrevista à BBC, as 4 integrantes principais do Las Tesis revelaram: “a performance ‘Um Estuprador no Seu Caminho‘, que se tornou um fênomeno mundial, foi criada como parte de uma peça de teatro que não chegou a ser lançada. A música e a coreografia foram apresentados pela primeira vez em 20 de novembro nas ruas de Valparaíso, a 120km de Santiago, “em meio a uma série de intervenções convocadas por um grupo de teatro local. ‘E a culpa não era minha, nem de onde estava, nem como me vestia. O estuprador é você”, diz parte da música, cantada por mulheres que fazem a coreografia de olhos vendados.” (BBC)

Paula Cometa – O coletivo Las Tesis trabalha desde abril do ano passado para levar teses de autoras feministas para o teatro, como uma transferência da teoria para a prática, em um formato curto, de cerca de 15 minutos. Inicialmente, trabalhamos com Calibã e a Bruxa, da Silvia Federici, e depois pegamos a tese da antropóloga argentina Rita Segato sobre o mandato do estupro e a desmistificação do estuprador como sujeito que exerce o ato de estuprar por prazer sexual. A partir disso, começamos a pesquisar sobre violência sexual, homicídios e estupros especificamente no Chile e constatamos que as denúncias desse tipo se esvaem na justiça.

Rita Laura Segato (Buenos Aires, 14 de agosto de 1951) é uma antropóloga e feminista argentina

Segundo Lola Aronovitch, outro elemento importante da performance é “a venda nos olhos para marcar a cegueira da sociedade e da Justiça, que finge não ver os inúmeros casos de violência contra as mulheres em todo o mundo. E também para mais uma vez denunciar a ação criminosa da polícia chilena, que atira balas de borracha nos olhos dos manifestante e já cegou centenas de pessoas.”


 

LANÇAMENTO! “UM VIOLADOR EM TEU CAMINHO”

Curta-metragem documental produzido por A Casa de Vidro Ponto de Cultura, em parceria com o Comitê Goiano de Direitos Humanos ‘Dom Tomás Balduino’, revela as repercussões, em Goiânia, da performance criada pelo coletivo LASTESIS e que se transformou em fenômeno feminista global.

Realizada entre os dias 09 e 15 de Dezembro, a 3ª Jornada Goiana de Direitos Humanos, que acolheu ambas performances, culminou com a publicação do pertinente (e impressionante) “Relatório de Violações de Direitos Humanos 2019”. Nele, descobrimos as atrocidades cotidianas que são cometidas, em Goiás, contra as mulheres que são violentadas em quantidades alarmantes, sendo que um grau de opressão muito mais intensa e atroz é perpetrada contra as mulheres negras:

“No ano de 2018, no Estado de Goiás foram registrados 595 feminicídios e 1673 estupros. Entre 2006 e 2016, o estado foi o campeão nacional em homicídio de mulheres negras: 8,5 para cada 100 mil mulheres, enquanto o índice de mortes de mulheres brancas ficou em menos da metade, 4,1 para cada 100 mil habitantes.” Fonte: Comitê Dom Tomás Balduíno, Relatório de Violações de Direitos Humanos 2019. Acesse: https://bit.ly/2MgWbFu.

Para enfatizar o internacionalismo feminista, este documentário também incorpora imagens dos flashmobs através do mundo, ocorridos na França, na Turquia, no México, dentre muitos outros países, para fortalecer a mensagem que transcende fronteiras que está presente na obra de Las Tesis. Este coletivo de chilenas visa propagar as ideias da antropóloga argentina Rita Segato e a performance “Un Violador En Tu Camino” foi lançada em 25 de Novembro, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. De Valparaíso, onde rolou a première, espalhou-se pelo mundo, chegando à Goiânia em 10 de Dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos instituído pela Nações Unidas (Sobre as datas, consulte: https://bit.ly/2Zc520A e https://bit.ly/2riE4YL).

Agregamos ao nosso doc algumas imagens publicadas pelo LA NACION da Argentina e pelo Jornal ElComercio do Peru. Na trilha sonora de nosso filme, utilizamos (e aqui reconhecemos nossa dívida de gratidão) a obra de Mon Laferte, ícone da música chilena e vencedora do Grammy Latino de melhor álbum alternativo, e da obra de remix do DJ Janomix (que criou uma das mais pulsantes versões da música, colocando “Un Violador En Tu Camino”, cantado em coro pelas minas, em meio às batidas trance (Fonte da trilha sonora: https://bit.ly/372D765 e https://bit.ly/35PDDny).

Na foto: Praça Universitária, Goiânia, 10 de Dezembro, durante a primeira apresentação da performance “Um Violador Em Teu Caminho”.

De acordo com Mulheres na Comunicação, “o ato também teve homenagem à estudante de arquitetura Susy Nogueira Cavalcante, de 21 anos, que faleceu devido à uma embolia pulmonar após ser estuprada em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Goiânia Leste. “Nós queremos que seja um ato espontâneo e sem intervenções, lutamos por um mundo igual e sem violência. Todos aqueles que quiserem nos acompanhar e lutar ao nosso lado são bem-vindos”, conta a diretora do Bloco Não é Não, Cida Alves.

O evento tem o apoio da Associação Mulheres na Comunicação, do Coró Mulher (Associacao Coro de Pau), Centro Popular da Mulher – CPM\UBM Goiás, Comitê Goiano de Direitos Humanos Dom Tomás Balduino, Coletivo Feminista Olga Benário, Coletivo Cartas para Lula – Mulheres de Goiás, Indique Uma Mana Goiás – Redaborativa, de emancipação e ajuda mútua entre mulheres, Mandato Deputada Adriana Accorsi – PT GO, #partidAGoiânia, @rebeliumcoletiva, Ser-tão, Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gênero e Sexualidade/UFG, Setorial de Mulheres de Goiânia, SINT-IFESgo – Sindicato dos Técnicos-administrativos das universidades e institutos federais de Goiás, SINTFESP-GO/TO – Sindicato dos Trabalhadores Federais em Saúde e Previdência e Vereadora Cristina Lopes – Presidente da Comissão Em Direitos Humanos.”

* * * * *

UM VIOLADOR EM SEU CAMINHO *

O patriarcado é um juiz,
Que nos julga ao nascer
E nosso castigo
É a Violência que não se vê.

O patriarcado é um juiz,
Que nos julga ao nascer
E nosso castigo
É a Violência que já se vê!

Feminicídio.
Impunidade para o assassino.
Humilhação e espancamento.
Estupro.

E a culpa não era minha, nem de onde estava, nem o que vestia
E a culpa não era minha, nem de onde estava, nem o que vestia
E a culpa não era minha, nem de onde estava, nem o que vestia

O violador era você!
O estuprador é você!
São os brancos invasores,
Anhangueras
Capitães do mato,
Capatazes,
Milicianos
Cidadãos de bem,
Hipócritas,
Juízes,
Estado,
Presidente fascista…

O Estado opressor é macho violador!
O Estado opressor é racista, estuprador!

O violador era você
O estuprador é você

O violador era você
O estuprador é você…

– Não é Não!
– O corpo é nosso!
– Nenhuma mulher será silenciada
– Susy Nogueira Carvalho, presente!
– Hoje e sempre!
– Cê sente, cê sente? Marielle está presente!
Os assassinos dela são “hômi do presidente”!

*Adaptação da letra original do Coletivo Las Tesis.

UM DOC A CASA DE VIDRO – SITE OFICIAL:
www.acasadevidro.com

ASSISTA EM:

FACEBOOK – https://www.facebook.com/blogacasadevidro/videos/2476995359254742/

VIMEO – https://vimeo.com/379796182

YOUTUBE – https://youtu.be/IfwE1IrekGQ

Conheça o cinema transdisciplinar do documentarista político inglês Adam Curtis, da BBC (British Broadcasting Corporation)

Adam Curtis, cineasta britânico

Nascido em 1955, o documentarista inglês Adam Curtis, de carreira visceralmente conectada à BBC, pratica um cinema transdisciplinar que “trafega por áreas como sociologia, psicologia, filosofia e história política” (Wikipédia). A maior inspiração para o seu trabalho, confessou Curtis, é a obra de John dos Passos, escritor que compôs a famosa Trilogia dos EUA , onde utiliza em sua literatura várias estratégias expressivas cinematográficas.

Os documentários realizados por Adam Curtis, segundo a manchete desta entrevista da The Economist, é fornecer “um antídoto ao colapso civilizacional”; além disso, seus trabalhos vem impactando, nas últimas décadas, todo o campo da comunicação social (saiba mais nesta matéria da VICE), auxiliando profissionais a questionar a fundo os problemas e complexidades de áreas de atuação como o jornalismo, a publicidade, a psiquiatria etc.

Conheça, na seleção abaixo, uma parte da vasta e pertinente filmografia de Adam Curtis:

THE CENTURY OF THE SELF

THE POWER OF NIGHTMARES



THE TRAP

“A armadilha: O que aconteceu com o nosso sonho de liberdade?”
Originalmente foi ao ar no Reino Unido na BBC Two em março de 2007.

 

HYPERNORMALISATION

 

All Watched Over by Machines of Loving Grace



 

OUTROS VÍDEOS E LINKS:

INFILTRADO NA KLAN: Spike Lee denuncia o supremacismo branco e o racismo de extrema-direita em seu novo cinejoint

SUPREMACISMO BRANCO: A FACE MAIS EXPLÍCITA DO RACISMO NOS EUA

O livro de memórias “Black Klansman”, escrito por Ron Stallworth, inspirou o
filme realizado por Spike Lee em 2018.

A Ku Klux Klan nasce após a derrota do exército-dos-escravocratas na Guerra Civil dos EUA (1861 – 1865).  A carnificina da Secessão encerrou-se com a vitória do exército do “Norte” (União) e a derrota do “Sul” (Confederados). Com a abolição da escravatura, assinada por Abraham Lincoln, procede-se à integração da população afro-americana libertada à economia capitalista. A transformação dos escravizados em assalariados proletarizados será complementada por uma nova onda de segregação e apartheid, legalizados com as “leis Jim Crow”.

Membros da Ku Klux Klan reunidos no Tennessee, em 1948

A KKK, portanto, está conectada, em sua raiz, às forças reacionárias e escravagistas do Sul dos EUA, cuja economia ainda era largamente baseada nos grandes latifúndios e numa tirania agrária dos mega-proprietários. A maioria deles filiados ideologicamente, e até institucionalmente, ao movimento do Supremacismo Branco, e que não aceitaram a derrota para a União. Assim, as elites do “agrobiz” mobilizaram-se para dar forma ao terrorismo do “White Power” – como explicam Brasil Escola e Wikipédia:

Parada realizada pela Ku Klux Klan em Washington, capital dos EUA, em 1926.

“A Ku Klux Klan é uma organização terrorista formada por supremacistas brancos que foi criada depois da Guerra Civil Americana (1861 a 1865) por ex-soldados confederados com o objetivo de perseguir e promover ataques contra afro-americanos e defensores dos direitos desse grupo social. Chegou a possuir quatro milhões de membros na década de 1920.” – Brasil Escola

Ku Klux Klan (também conhecida como KKK ou simplesmente “o Klan“) é o nome de três movimentos distintos dos Estados Unidos, passados e atuais, que defendem correntes reacionárias e extremistas, tais como a supremacia branca, o nacionalismo branco, a anti-imigração e, especialmente em iterações posteriores, o nordicismo,anticatolicismo e o antissemitismohistoricamente expressos através do terrorismo voltado a grupos ou indivíduos aos quais eles se opõem. Todos os três movimentos têm clamado pela “purificação” da sociedade estadunidense e todos são considerados organizações de extrema-direita. – Wikipédia

Assim que Trump assumiu a presidência dos EUA em 2016, os caras da Klan já foram saindo dos armários e reacendendo suas tochas da intolerância e do racismo violentador. Um supremacista branco dentro da Casa Branca era tudo o que a KKK queria para se sentir autorizada a voltar a tocar o terror com suas práticas racistas, xenofóbicas e fundamentalistas. Na cidade de Charlottesville, no Estado da Virgínia, os ânimos se acirraram em Agosto de 2017, como mostram as impressionantes video-reportagem da Al Jazeera e da Vice, ou o seguinte artigo de El País:

O caos se apoderou neste sábado (13) de Charlottesville, uma pacata cidade de 45 mil habitantes na Virgínia, nos Estados Unidos. A maior marcha dos supremacistas brancos nos últimos anos nos EUA  levou a confrontos com manifestantes contrários aos racistas e deixou três mortos, uma mulher de 32 anos e dois policiais, pelo menos 34 feridos e um número indeterminado de pessoas presas. A mulher morreu depois que um carro foi jogado contra manifestantes críticos aos grupos racistas. Foi um crime “premeditado”, disse a polícia. [LEIA A REPORTAGEM DO EL PAÍS]

Este é o pano-de-fundo para um dos maiores cineastas vivos, Spike Lee, expressar com a maestria costumeira os conflitos étnico-raciais na nação que, após 8 anos sendo governada por Barack Obama, o primeiro afroamericano a ocupar tal posição na história do país, hoje convive com a “governança” ultra-liberal de um empresário bilionário, racista e de extrema-direita. Trata-se de aplicar à risca a Shock Doctrine conceituada por Naomi Klein – e que é também a plataforma “Pinochetista” de Bolsonaro / Paulo Guedes para o Brasil a partir de 2019.

A Era Trump é aquilo que emerge na tela, no fim de BlacKkKlansman, em cenas documentais que mostram todo o caos e violência que saíram de controle em Charlottesville – inclusive a mais chocante de todas as ocorrências: um carro, dirigido por alguém que só pode ser corretamente descrito como um psicopata fascista, acelera contra a multidão de pessoas que protesta contra o racismo e que defende Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). São dezenas de pessoas atropeladas, que tem seus ossos fraturados, que perdem seus dentes, ou que ficam banhadas em sangue e mutiladas para a vida. Uma delas, Heather Heyer, morreu. E à ela o filme dedica seu réquiem.

White nationalists carry torches on the grounds of the University of Virginia, on the eve of a planned Unite The Right rally in Charlottesville, Virginia, U.S. August 11, 2017. Picture taken August 11, 2017. Alejandro Alvarez/News2Share via REUTERS.

 

A demonstrator holds signs during a rally in response to the Charlottesville, Virginia car attack on counter-protesters after the “Unite the Right” rally organized by white nationalists, in Oakland, California, U.S., August 12, 2017. Picture taken August 12, 2017. REUTERS/Stephen Lam

 

A photograph of Charlottesville victim Heather Heyer is seen amongst flowers left at the scene of the car attack on a group of counter-protesters that took her life during the “Unite the Right” rally as people continue to react to the weekend violence in Charlottesville, Virginia, U.S. August 14, 2017. REUTERS/Justin Ide/File Photo

Os filmes de Spike Lee queimam no incêndio de uma urgência que anima este irrequieto artista, consciente da missão histórica do cinema, sobretudo quando ele é uma arma nas mãos dos oprimidos em processo de libertação. Não são apenas os seus filmes mais explicitamente históricos – como a biografia de Malcolm X ou os documentários sobre New Orleans após o Furacão Katrina (When The Levees Broke) – que revelam densidade histórica.

É toda a filmografia de Spike Lee, mesmo em seus filmes mais delirantes e lúdicos (como Bamboozzled), expressa a visão de um artista que deseja ensinar à América aquilo que ela esqueceu: to love again. Amar para além das falsas fronteiras e injustas segregações produzidas pelas opressões de classe, raça, gênero, religião.

Infiltrado na Klan, ainda que tenha uma dose suficiente de humor e aventura para entreter e divertir o público, numa sessão de cinema deliciosamente excitante, no fundo é bastante sério em suas apologias – do Black Power, dos Panteras Negras, das oratórias e das práxis de líderes históricos como Angela Davis e Stokely Carmichael, mas também em suas críticas – que envolve até mesmo uma crítica cinematográfica embutida na própria obra e que incide sobre o filme O Nascimento de Uma Nação de D. W. Griffiths (1915).

É espantoso o brilhantismo com que Spike Lee, em um filme de 2018, é capaz de inserir em seu enredo as cenas de um filme de 1915, de modo a provar que há uma espécie de força genética dos produtos culturais audiovisuais que fizeram história. O épico de Griffiths foi primeiro filme a ser exibido na Casa Branca e o presidente Woodrow Wilson teria dito que o filme é “a história escrita em relâmpagos”. Spike Lee não concorda que o filme seja história, pois na verdade é ideologia. Em O Nascimento de Uma Nação, vemos o cinema transformado em um artefato de doutrinação ideológica de imenso poderio – digno das análises de um Slavoj Zizek.

 Na gênesis de muitos dos ritos e cerimônias, das práticas de morticínios e linchamentos praticados pela KKK, está a inspiração deste filme que Griffiths fez em 1915 descrevendo um passado que já ia ficando distante: a Guerra Civil (1861 a 1865). Esta, também conhecida como Guerra de Secessão (entre o Norte industrializando-se e o Sul agrário-escravocrata), é o pano-de-fundo de Griffiths. Como nos relata a sinopse do filme,  a guerra civil “divide amigos e destrói famílias, como a dos Stoneman e dos Cameron. O filme retrata a história dessas duas famílias em meio aos conflitos da Guerra da Secessão, o assassinato de Abraham Lincoln e o nascimento da Ku Klux Klan.”

Jornal da KKK, Julho de 1926

Para Spike Lee, um mesmo fluxo histórico de racismo, supremacismo e eugenia parece atravessar as épocas, desde a Guerra Civil até 2018, com Trump na Casa Branca. A Ku Klux Klan permanece ativa, tendo vivido até mesmo um re-ascenso que integra este horrendo ciclo de ascensão da extrema-direita xenófoba pelo mundo afora.

Assistir a Infiltrado na Klan no Brasil, ao fim de 2018, ganha sentidos novos: na tela, um dos personagens é o líder da KKK, David Duke, que recentemente declarou em entrevista que “Jair Bolsonaro soa como nós” (confira em BBC). Duke e Bolsonaro só divergem mesmo na questão judaica: Duke é um antisemita ferrenho, fiel ao tradicional anti-semitismo da KKK (no filme de Spike Lee, a dupla infiltração da Klan, por suprema ironia, se dá através de uma coligação entre um negro e um judeu); já Bolsonaro, é favorável ao regime sionista, como evidenciado por sua predisposição a mudar a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, em subserviência total ao regime hoje comandado pelo genocida Netanyahu.

 

Bolsonaro é o típico líder de extrema-direita, que não entende bulhufas sobre políticas públicas, mas quer cagar regra de modo ditatorial para cima das classes oprimidas e subalternizadas. Bolsonaro é a encarnação da Barbárie, a nova versão do bandeirante genocida, do senhor de escravos, do cara pálida ignorantão e cruel; é, de novo, a repetição do supremacista da branquitute, que adere a uma ideologia muito semelhante ao arianismo dos nazistas.

Declarações de Bolsonaro sobre povos indígenas e quilombolas são de revirar o estômago e prenunciam práticas de extermínio e genocídio que ele sempre defendeu. A cada vez que abre a boca para falar sobre o tema, só vomita desrespeito aos povos originários, sendo ele mesmo um descendente de italianos, um seja, um xenófobo com mentalidade de colonizador… É uma vergonha que 57 milhões de eleitores, imbecilizados pela propaganda fascista nas mídias sociais e pelas fraudes eleitorais (caixa 2 e abuso de poder econômico, além de conluio com o Judiciário Golpista e com Sérgio Moro), tenham dado seu voto a esse fuhrerzinho do nazifascismo teocrático à brasileira. É vergonhoso para o Brasil ter uma figura tão medíocre e nefasta como chefe de estado.

Infiltrado na Klan, neste contexto, é um filme essencial para dar ânimo à resistência, à qual será essencial o Black Power, o Black Lives Matter, em suas versões afrotupiniquins, com intensa participação do Hip Hop e do Feminismo Negro. É que, para resistir à enxurrada de regressões e retrocessos que a ditadura neoliberal do Bolsonarismo fascista virá nos impor com tanques, tropas e fuzis, faremos bem em aprender com Spike Lee, mas também com Emicida, com Djamila, com Conceição Evaristo, com Mano Brown, com Bia Ferreira, com… todos e todas que querem um mundo onde caibam todas as vidas.

Que as adversidades sejam estímulos para a solidariedade e que os mártires que entre nós tombem, injustamente assassinados pelos algozes dentre nossos adversários, possam ser as sementes do que um dia serão as árvores frutíferas de nosso mundo novo.

“BlacKkKlansman – Infiltrado na Klan”, um filme de Spike Lee (2018, 130 min)

Leia em BBC News Brasil: a extraordinária história do policial negro que se infiltrou na Ku Klux Klan.

Assista também a entrevista do cineasta à BBC sobre Donald Trump e a ascensão da Direita:

 

 

APRECIE TAMBÉM:

Resenha do canal “Etnia Brasileira por Lívia Zaruty”:

RESENHA POR ISABELA BOSCOV / REVISTA VEJA

“O Brasil foi construído sobre a maior migração forçada da História, tendo recebido cerca de 4 milhões de escravos africanos…” – Veja o documentário da BBC, “BRAZIL: AN INCONVENIENT HISTORY” (BRASIL: UMA VERDADE INCONVENIENTE)

 Documentário da BBC, “BRAZIL: AN INCONVENIENT HISTORY”
(BRASIL: UMA VERDADE INCONVENIENTE)
Ano de produção: 2001. Diretor: Phil Grabsky. 47 minutos. Legendas: português.

While the history of slavery in the US is widely known, few people realize that Brazil was the largest participant in the slave trade. Forty percent of all slaves that survived the Atlantic crossing were destined for Brazil, while only four percent were sent to the US. At one time half of the population of Brazil were slaves, and it was the last country to officially abolish slavery in 1888.

This well-researched BBC production charts Brazil’s history using original texts, letters, accounts, and decrees. From these original sources, we learn firsthand about the brutality of the slave traders and slave owners, and the hardship of plantation life. With the Portugese colony of Angola acting as a “factor” supplying Africans to Brazil, it was cheaper to replace any slave starved and worked to death than to extend his life by treating him humanely. Few plantation owners sent for their wives to live in this hot climate, so the softening effect of family life was absent among the rough white settlers.

Historians Joao Jose Reis, Cya Teixeira, Marilene Rosa Da Silva, anthropologist Peter Fry, and others recount the effect of centuries of slavery on Brazil today.This is an important documentary for Black history, African history, and Latin American studies.

Academic Video Store

“O Banquete” (Symposium) de Platão

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Pintura de Anselm Feuerbach que representa O Banquete ou Simpósio, diálogo de Platão

O Banquete, também conhecido como Simpósio (em grego antigo: Συμπόσιον), é um diálogo platônico escrito por volta de 380 a.C.. Constitui-se basicamente de uma série de discursos sobre a natureza e as qualidades do amor (eros). O Banquete é, juntamente com o “Fedro”, um dos dois diálogos de Platão em que o tema principal é o amor.

Tò sumpósion, em grego, é em geral traduzido como O Banquete, mas, no sentido atual, equivaleria a uma festa mundana, em que quase sempre se bebe mais do que se come. Trata-se, pois, de um festim na casa de Agatão, poeta trágico ateniense. Sócrates é o mais importante dentre os homens presentes. Entre outros, também ali estão Aristodemo, amigo e discípulo de Sócrates; Fedro, o jovem retórico; Pausânias, amante de Agatão; o médico Eriximaco; Aristófanes, comediante que ridicularizava Sócrates, e o político Alcibíades.

O exagero cometido na festa do dia anterior, sobretudo o excesso de bebida, fatigara os convidados de Agatão. Pausânias propõe, então, que, em lugar de beber, ficassem ali a conversar, a discutir ou que cada um fizesse algo “diferente”. A proposta de Pausânias é aceita por todos. Eriximaco sugere que fossem feitos elogios a Eros: os convidados deveriam fazer discursos para louvar o amor… – WIKI

O “MITO DOS ANDRÓGINOS”, EXPOSTO NO DIÁLOGO POR ARISTÓFANES, TRANSFORMADO EM ANIMAÇÃO

PAPO COM O PROF. ADRIANO RIBEIRO MACHADO (FFLCH/USP) NO PROGRAMA DA UNIVESP TV, “LITERATURA FUNDAMENTAL

TELE-PEÇA DA BBC, BASEADA NO BANQUETE:

BBC // Jonathan Miller’s play “The Drinking Party”

“A Via Láctea aceitará numerar suas estrelas”? – Shakespeare e a desmesura (por Victor Hugo)


SHAKESPEARE por VICTOR HUGO

– Ele é reservado e discreto. Com ele estais sossegado; ele não abusa de nada. Ele tem, acima de tudo, uma qualidade muito rara; é sóbrio.

Que é isso? Uma recomendação para um empregado doméstico? Não. É um elogio a um escritor. Uma certa escola, dita ‘séria’, ostentou atualmente este programa de poesia: sobriedade. Parece que toda a questão é preservar a literatura das indigestões. Outrora se dizia: fecundidade e poder; hoje se diz: tisana. Eis que estais no resplandecente jardim das Musas em que desabrocham, em tumulto e multidão nos galhos todos, essas divinas eclosões do espírito a que os gregos chamavam Tropos, por toda parte a imagem-idéia, por toda parte o pensamento-flor, por toda parte os frutos, as figuras, as maçãs de ouro, os perfumes, as cores, os raios, as estrofes, as maravilhas, não toqueis em nada, sede discretos. É por não colher nada disso que se reconhece o poeta. Sede da sociedade da temperança. Um bom livro de crítica é um tratado sobre os perigos da bebida. Se quiserdes fazer a Ilíada, fazei dieta. Ah! Foi em vão que esbugalhaste os olhos, velho Rabelais!

O lirismo é capitoso, o belo grisalho, o grande subir à cabeça, o ideal provoca deslumbramentos, quem dele sai não sabe mais o que faz; quando se andou sobre os astros, pode-se recusar uma subprefeitura; não estais mais de posse do vosso bom senso, ser-vos-ia oferecido um posto no senado de Domiciano que recusaríeis, não dais mais a César o que é de César, chegastes a esse ponto de desvario de nem mesmo saudar o senhor Incitatus, cônsul e cavalo. A isso chegais por terdes bebido nesse lugar ruim, o Empíreo. Ficastes altivo, ambicioso, desinteressado. Dito isto, ficai sóbrios. É proibido freqüentar o cabaré do sublime.

Liberdade é libertinagem. Limitar-se é bom, castrar-se é melhor.

Passai vossa vida a vos conter.

Sobriedade, decência, respeito pela autoridade, toalete irrepreensível. Não há poesia senão vestida com apuro. Uma savana que não se penteia, um leão que não faz as unhas, uma torrente não peneirada, o umbigo do mar que se deixa ver, a nuvem que se arregaça até mostrar o Aldebarã, é chocante. Em inglês: shocking. A vaga espuma no recife, a catarata vomita no golfo, Juvenal escarra no tirano. Ui, que nojo!

Preferimos o de menos ao demais. Sem exageros. Doravante a roseira terá de contar as suas rosas. O prado será convidado a ter menos margaridas. A ordem da primavera é moderar-se. Os ninhos caem no excesso. Digamos, portanto, arvoredos, não tantas toutinegras, por favor. A Via Láctea aceitará numerar suas estrelas; há muitas.

Tomai por modelo o grande Círio Serpentário do Jardim das Plantas que só floresce a cada cinqüenta anos. Eis uma flor recomendável.

Um verdadeiro crítico da escola sóbria é esse zelador de um jardim que a esta pergunta: ‘Há rouxinóis em vossas árvores?’, responderia: ‘Ah! Não me faleis disso, durante todo o mês de maio esses animais ruins só gritam.’

* * * * *

Se houve um homem que não mereceu a boa observação: ele é sóbrio, esse homem foi, com certeza, William Shakespeare. Shakespeare é um dos maiores maus sujeitos que a estética ‘séria’ jamais teve de dominar.

Shakespeare é a fertilidade, a força, a exuberância, a mama cheia, a taça espumante, a cuva transbordando, a seiva em excesso, a lava em torrente, os germes em turbilhões, a vasta chuva de vida, tudo aos milhares, tudo aos milhões, nenhuma reticência, nenhuma ligadura, nenhuma economia, a prodigalidade insensata e tranqüila do criador. (…) Shakespeare é o semeador de deslumbramentos.

Shakespeare não tem reservas, retenções, fronteiras, lacunas. O que lhe falta é a falta. Nenhuma economia. Nada de abstinência. Transborda, como a vegetação, como a germinação, como a luz, como a chama. (…) Ele se dá, se espalha, se prodigaliza; não se esvazia. Por quê? Não pode. O esgotamento lhe é impossível. Tem dentro de si o infindável. Enche-se e gasta-se, depois recomeça. É o saco sem fundo do gênio.

Como todos os altos espíritos em plena orgia de onipotência, Shakespeare derrama sobre si toda a natureza, bebe-a e vos dá de beber. (…) Não pára, não se cansa, é impiedoso com os pobres estômagos fracos que são candidatos à Academia. Essa gastrite, que chamamos de “bom gosto”, ele não a tem.

Shakespeare, como todos os grandes poetas e como todas as grandes coisas, está repleto de um sonho. Sua própria vegetação o assusta; sua própria tempestade o apavora. Dir-se-ia por momentos que Shakespeare mete medo em Shakespeare. Tem horror à sua profundeza. Isso é o sinal das supremas inteligências. É a sua própria extensão que o sacode e que lhe comunica sabe-se lá que oscilações enormes. Não há gênio que não tenha ondas. Selvagem ébrio, seja. Ele é selvagem como a floresta virgem; é ébrio como o alto-mar…

Há gênios com as rédeas soltas de propósito por Deus para que sigam selvagens e em pleno vôo rumo ao infinito.”

* * * * *

Siga viagem… 

Série da BBC “The Themes of Shakespeare”
4 episódios completos – legendado em português

só se sabe que são coisas que são







Tô numa onda de assistir Life e Human Planet, séries natureba e alta-produça da BBC britânica e que são repletas de imagens bonitas de estontear. A pátria nativa de Charles Darwin (e Richard Dawkins) parece bem mais… evoluída do que outras culturas, ainda presas a caduquices teológicas/supersticiosas/criacionistas, no sentido de divulgar massivamente, utilizando os meios cinematográficos e fotográficos de ultimíssima geração, as evidências às toneladas que corroboram como verdades o cerne do evolucionismo. Acima, uma pequena seletinha de screenshots das séries, tão competentes em pintar um mosaico da complexidade e diversidade febricitantes da vida: paisagens, flores, jellyfishs, estrelas-do-mar, ocelots, abelhas mamando néctar em girassóis, macacaquinhos… e gente. Tudo junto e misturado como é nisto que é. São imagens que, dentre muitas outras, me fascinam, me deixam boquiaberto ou me despertam o lado bucólico-idílico-kitsch. Mas que, sobretudo, chamam a atenção para o quão estarrecedor e infinitamente complexo é o processo de Evolução das Espécies [by the means of natural selection…], que como uma clareza completa revela-se não como uma mera teoria, mas uma força concreta, uma realidade natural, em ação há centenas de milhões de anos, e do qual somos apenas um dentre milhões de outros resultados.