OS ENCONTROS DE UM CARACOL AVENTUREIRO, um poema de Federico García Lorca (1898 – 1936)

lorca_portrait_fullOS ENCONTROS DE UM CARACOL AVENTUREIRO,
Um poema de Federico García Lorca (1898 – 1936)
Escrito em Dezembro de 1918, Granada
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Há doçura infantil
na manhã quieta.
As árvores estendem
seus braços à terra.
Um bafo tremente
cobre as sementeiras,
e as aranhas estendem
seus caminhos de seda
– raias no cristal limpo
do ar.

Na alameda
um manancial recita
seu canto entre as ervas.
E o caracol, pacífico
burguês da vereda,
ignorado e humilde,
a paisagem contempla.
A divina quietude
da Natureza
deu-lhe valor e fé,
e esquecendo-se das penas
de seu lar, desejou
ver o fim da senda.

Pôs-se a andar e internou-se
em um bosque de heras
e de urtigas. No meio
havia duas rãs velhas
que tomavam sol,
entediadas e enfermas.

‘Esses cantos modernos’
-murmurava uma delas-
‘são inúteis.’ ‘Todos,
amiga’ – lhe responde
a outra rã, que estava
ferida e quase cega. –
‘Quando jovem acreditava
que se finalmente Deus ouvisse
o nosso canto, teria
compaixão. E minha ciência,
pois já vivi muito,
faz com que não o creia.
Eu já não canto mais…’

As duas rãs se queixam,
pedindo uma esmola
a uma rãzinha nova
que passa presumida
apartando as ervas.

Ante o bosque sombrio
o caracol se aterra.
Quer gritar. Não pode.
As rãs aproximam-se dele.

‘É uma mariposa?’
-diz a quase cega.
‘Tem dois cornichos’
– a outra rã responde.
‘É o caracol. Vens,
caracol, de outras terras?’

‘Venho da minha casa e quero
bem depressa voltar para ela.’
‘É um bicho mui covarde’
– exclama a rã cega.
‘Não cantas nunca?’ ‘Não canto’,
diz o caracol. ‘Nem rezas?’
‘Tampouco – nunca aprendi.’
‘Nem crês na vida eterna?’
‘O que é isso?’

‘É viver sempre
dentro da água mais serena,
perto de uma terra florida
que rico manjar sustenta.’

‘Quando menino me disse
um dia minha pobre avó
que, ao morrer, eu iria
para junto das folhas mais tenras
das árvores mais altas.’

‘Uma herege era tua avó.
A verdade te dizemos,
nós. Acreditarás nela’ –
dizem as rãs furiosas.

‘Por que quis ver a senda?’
-geme o caracol. ‘Sim, creio
para sempre na vida eterna
que [me] predicais…’

As rãs,
muito pensativas, afastam-se,
e o caracol, assustado,
vai-se perdendo na mata.

As duas rãs mendigas
como esfinges ficam.
Uma delas pergunta:
‘Crês tu na vida eterna?’
‘Eu não’ – diz mui triste
a rã ferida e cega.
‘Por que dissemos, então,
ao caracol que cresse?’
‘Porque… Não sei por quê’
– diz a rã cega.
‘Encho-me de emoção
ao sentir a firmeza
com que chamam meus filhos
a Deus lá da acéquia…’

O pobre caracol
volta atrás. Na senda
um silêncio ondulado
emana* da alameda.
Com um grupo de formigas
encarnadas se encontra.
Vão muito alvoroçadas,
arrastando atrás de si
outra formiga que tem
truncadas as antenas.
O caracol exclama:
‘Formiguinhas, paciência.
Por que assim tratais
vossa companheira?
Contai-me o que fez.
Eu julgarei com consciência.
Conta-o tu, formiguinha’.

A formiga, meio morta,
diz muito tristemente:
‘Eu vi as estrelas’.
‘Que são as estrelas’, dizem
as formiguinhas inquietas.

E o caracol pergunta,
pensativo: ‘Estrelas?’
‘Sim’ – repete a formiga-,
‘vi as estrelas,
subi na árvore mais alta
que existe na alameda
e vi milhares de olhos
dentro de minhas trevas.’
E o caracol pergunta:
‘Mas o que são as estrelas?’
‘São luzes que levamos
sobre nossa cabeça’.
‘Nós não as vemos’,
as formigas comentam.
E o caracol: ‘Minha vista
só alcança as ervas’.

E as formigas exclamam,
movendo as suas antenas:
‘Matar-te-emos, és
perguiçosa e perversa.
O trabalho é a tua lei’.

‘Eu vi as estrelas’,
diz a formiga ferida.
E o caracol sentencia:
‘Deixai-a ir,
continuai as vossas tarefas.
É possível que, muito em breve,
já rendida, morra’.

Pelo ar dulcífico,
cruzou uma abelha.
A formiga, agonizando,
cheira a tarde imensa,
e diz: ‘É a que vem
levar-me a uma estrela’.

As demais formiguinhas
fogem ao vê-la morta.

O caracol suspira
e aturdido se afasta
cheio de confusão
por causa do eterno. ‘A senda
não tem fim’ – exclama.
‘Talvez às estrelas
se chegue por aqui.
Mas minha grande fraqueza
me impedirá de chegar.
Não pensemos mais nelas.’

Tudo estava brumoso
de sol débil e névoa.
Campanários longínquos
chamam gente à igreja,
e o caracol, pacífico
burguês da vereda,
aturdido e inquieto,
a paisagem contempla.

issIn: Obra Poética Completa, Ed. Martins Fontes, 2012, 5ª edição, p. 13-20.
Tradução de William Agel de Mello.

SINOPSEPoeta e dramaturgo de trágico destino, García Lorca legou-nos uma obra que ultrapassou as fronteiras de tempo e de sua tão querida Espanha por seu valor intrínseco. Este artesão da palavra produziu, em tão breve período de tempo e de forma tão intensa, a poesia com os traços universais que caracterizam os grandes poetas. O leitor encontrará a obra completa de Lorca, podendo observar a evolução de um poeta, mestre da vida. Seus desenhos ilustram e completam a beleza de sua Obra Poética. Edição bilíngue – espanhol / português. – COMPRE NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO @ ESTANTE VIRTUAL.

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“O SISTEMA DA NATUREZA” (1770) do Barão D’Holbach (1723-1789) – Leia alguns trechos da magnum opus de um dos mais importantes pensadores materialistas do Iluminismo francês:

“O SISTEMA DA NATUREZA” (1770)
do Barão D’Holbach (1723-1789)
Leia alguns trechos da obra-prima de um dos mais importantes pensadores materialistas do Iluminismo francês:

“Percorrendo o caminho que a natureza traçou para nós, assemelhamo-nos a nadadores forçados a seguir a corrente que os carrega. Acreditamos ser livres porque ora consentimos, ora não consentimos em seguir a maré que sempre nos arrasta. Nós nos acreditamos os senhores do nosso destino porque somos forçados a mexer os braços no temor de ir para o fundo. ‘O destino conduz aqueles que o aceitam e arrasta aqueles que resistem a ele’ (Sêneca).” – 266

“Tudo está em movimento no universo. A essência da natureza é agir e, se nós considerarmos atentamente as suas partes, veremos que não existe nela uma única que desfrute de um repouso absoluto. […] Mesmo os corpos que parecem desfrutar do mais perfeito repouso recebem – seja na sua superfície, seja no seu interior – impulsos contínuos da parte dos corpos que os rodeiam ou daqueles que os penetram, que os dilatam, que os rarefazem, que os condensam, enfim, mesmo daqueles que os compõem. […] Não existe nela nenhuma partícula que desfrute por um instante de um verdadeiro repouso. […] Como, sem movimento, conceber a maneira como o nosso olfato é afetado por emanações escapadas dos corpos mais compactos, dos quais todas as partes nos parecem em repouso? Enfim, nossos olhos veriam, com a ajuda de um telescópio, os astros mais afastados, se não houvesse um movimento progressivo desde esses astros até a nossa retina?” (48-51)

“A matéria sempre existiu, se move em virtude de sua essência e todos os fenômenos da natureza são devidos aos diversos movimentos das matérias variadas nela contidas, fazendo que – semelhante à fênix – ela renasça continuamente das suas cinzas.” (62)

“O homem é uma produção da natureza. […] Mas – dirão – o homem sempre existiu? O homem terá sido sempre aquilo que é, ou então, antes de chegar ao estado no qual o vemos, ele foi obrigado a passar por uma infinidade de desenvolvimentos sucessivos? O homem pode, enfim, gabar-se de ter chegado a um estado fixo, ou então a espécie humana deve ainda se modificar?” (115)

“A matéria é eterna e necessária, mas suas combinações e suas formas são passageiras e contingentes. […] A hipótese mais provável é a de que o homem é uma produção feita no tempo, peculiar ao globo que habitamos. […] As plantas, os animais e os homens podem ser considerados como produções particularmente inerentes e próprias do nosso globo, na posição ou nas circunstâncias nas quais ele se encontra atualmente. Essas produções se modificariam se este globo, por alguma revolução, viesse a mudar de lugar.” (117)

“Que absurdo ou que inconsequência existe, portanto, em imaginar que o homem, o cavalo, o peixe e o pássaro um dia não mais existirão? Esses animais seriam, portanto, uma necessidade indispensável da natureza, e será que, sem eles, ela não poderia continuar sua marcha eterna? Tudo não está mudando em torno de nós? Nós mesmos não nos modificamos? […] Como, pois, pretender adivinhar aquilo que a sucessão infinita de destruições e reproduções, de combinações e dissoluções, de metamorfoses, de modificações e de transposições poderá trazer em seguida? Sóis se extinguem e se solidificam, planetas perecem e se dispersam nas planuras dos ares; outros sóis se acendem, novos planetas se formam para fazer suas revoluções e para percorrer novas rotas e o homem, porção infinitamente pequena de um globo, que não passa ele próprio de um ponto imperceptível na imensidão, crê que é para ele que o universo é feito, imagina que deve ser o confidente da natureza, gaba-se de ser eterno, diz-se o rei do universo! Ó homem! Tu não conceberás jamais que não passas de um efêmero? Tudo muda no universo… e tu tens a pretensão de que a tua espécie não pode desaparecer, que deve ser uma exceção à lei geral, que quer que tudo se altere! […] Tu, que em tua loucura adotas arrogantemente o título de rei da natureza! Tu, para quem tua vaidade imagina que tudo foi feito… ” (120)

“…o homem não tem nenhuma razão para se acreditar um ser privilegiado na natureza. Ele está sujeito às mesmas vicissitudes que todas as suas outras produções. Suas pretensas prerrogativas são baseadas apenas em um erro. […] A ilusão que o predispõe em favor de si próprio…. não tem outro fundamento além do seu próprio interesse e da predileção que tem por si mesmo.” (123-124)

“…todas as faculdades intelectuais, ou seja, todas as maneiras de agir que são atribuídas à alma, se reduzem a modificações, a qualidades, a maneiras de ser, a mudanças produzidas pelo movimento no cérebro, que é visivelmente em nós a sede da sensibilidade e o princípio de todas as ações…” (153)

“…a impossibilidade em que cada um de nós se encontra de trabalhar eficazmente sozinho para se conservar e para se proporcionar o bem-estar nos impõem a feliz necessidade de nos associar, de depender dos nossos semelhantes, de merecer o seu auxílio, de torná-los favoráveis aos nossos desígnios, de atraí-los para nós para afastar, através dos esforços comuns, aquilo que poderia perturbar a ordem em nossa máquina…” (159)

“As hediondas quimeras da superstição nos desagradam porque elas não passam dos produtos de uma imaginação doente, que só despertam em nós ideias mortificantes. A imaginação, quando se desvirtua, produz o fanatismo, os terrores religiosos, o zelo irrefletido, os frenesis, os grandes crimes.” (167)

“…tomamos por ideias inatas aquelas das quais esquecemos a origem. Não nos lembramos mais nem da época precisa nem das circunstâncias sucessivas em que essas ideias foram consignadas na nossa cabeça. […] Nenhum de nós se lembra da primeira vez em que a palavra deus, por exemplo, feriu nossos ouvidos…” (209)

“Os teólogos só têm tanta dificuldade para concordarem uns com os outros porque, nas suas disputas, eles partem incessantemente não de proposições conhecidas e examinadas, mas dos preconceitos dos quais eles se imbuíram… raciocinam continuamente não sobre objetos reais ou cuja existência esteja demonstrada, mas sobre seres imaginários… Se tivessem posto os preconceitos de lado, teriam descoberto que os objetos que fizeram nascer as mais medonhas e as mais sangrentas disputas entre os homens são quimeras, teriam descoberto que lutavam e se degolavam por palavras vazias de sentido … Tudo deveria convencer da tirânica insensatez, da injusta violência e da inútil crueldade desses homens sanguinários que perseguem os seus semelhantes para forçá-los a se dobrarem às suas opiniões. Tudo deveria reconduzir os mortais à doçura, à indulgência e à tolerância – virtudes, sem dúvida, evidentemente mais necessárias à sociedade do que as especulações maravilhosas que a dividem e a levam muitas vezes a degolar os pretensos inimigos de suas opiniões veneradas.” (227)

“…o homem que não espera uma outra vida está mais interessado em prolongar a existência e em se tornar querido pelos seus semelhantes na única vida que conhece. Ele deu um grande passo para a felicidade ao se desvencilhar dos terrores que afligem os outros. Com efeito, a superstição tem prazer em tornar o homem covarde, crédulo, pusilânime. Ela adotou o princípio de afligi-los sem descanso; assumiu o dever de redobrar para ele os horrores da morte. Seus ministros, para disporem dele mais seguramente neste mundo, inventaram as regiões do porvir, reservando-se o direito de lá fazer recompensar os escravos que tiverem sido submissos às suas leis arbitrárias e de fazer serem punidos pela divindade aqueles que tiverem sido rebeldes às suas vontades. Longe de consolar os mortais, a religião em mil regiões esforçou-se para tornar a sua morte mais amarga, para tornar mais pesado o seu jugo, para tornar o seu cortejo acompanhado de uma multidão de fantasmas hediondos…

Ela chegou ao cúmulo de persuadi-los de que a sua vida atual não é mais do que uma passagem para chegar a uma vida mais importante. O dogma insensato de uma vida futura os impede de ocupar-se com a sua verdadeira felicidade, de pensar em aperfeiçoar as suas instituições, suas leis, sua moral e suas ciências. Vãs quimeras absorveram toda a sua atenção. Eles consentem em gemer sob a tirania religiosa e política, em atolar-se no erro, em definhar no infortúnio, na esperança de serem algum dia mais felizes, na firme confiança de que as suas calamidades e a sua estúpida paciência os conduzirão a uma felicidade sem fim. Eles se acreditam submetidos a uma divindade cruel que gostaria de fazer que eles comprassem o bem-estar futuro ao preço de tudo aquilo que eles têm de mais caro aqui embaixo.

É assim que o dogma da vida futura foi um dos erros mais fatais pelos quais o gênero humano foi infectado. Esse dogma mergulha as nações no entorpecimento, na apatia, na indiferença sobre o seu bem-estar, ou então as precipita em um entusiasmo furioso, que as leva muitas vezes a dilacerarem a si próprias para merecer o céu.” (318-19)

Paul Henri Thiry, o Barão de Holbach (1723-1789),
um dos mais importantes pensadores do Iluminismo,
no clássico O Sistema da Natureza (1770).
Editora Martins Fontes. Tradução Regina Schöpke.

LEIA MAIS (EM FRANCÊS) >>>

“A FILOSOFIA E A FELICIDADE”, do pensador holandês Philippe van den Bosch

A FILOSOFIA E A FELICIDADE

do filósofo holandês Philippe van den Bosch

(Editora Martin Fontes)

Pintura da abertura: O Triunfo de Pã, de Nicolas Poussin (1636)

EM BUSCA DA FELICIDADE

a-filosofia-e-a-felicidade-philippe-van-den-bosch-lisboa_rev002A filosofia é para a maior parte de nós uma disciplina muito estranha e obscura. Entretanto, ela tem um objeto muito simples que deveria concernir à maioria das pessoas, uma vez que sua primeira vocação é preocupar-se com a felicidade dos homens. Com efeito, todos o sabem, filosofia quer dizer em grego “amor pela sabedoria”, e a sophia, a sabedoria, em seu sentido original nada mais é senão o método da felicidade. Para os gregos, sophia também pode designar o saber… mas, para os gregos, o saber autêntico deve contribuir para a felicidade, senão ficaria privado de sentido.

A felicidade é sobretudo o que todos os homens desejam. Cada ser humano no mundo procura ser feliz, ninguém pode negá-lo de boa-fé. Alguns podem eventualmente ter renunciado a ser felizes, porque estão decepcionados com a vida, porque nada mais esperam dela, porque sabem que não têm, ou deixaram de ter, os meios de alcançá-la, por exemplo, se estão incuravelmente doentes ou irremediavelmente dimuídos pela velhice, ou se seu único amor, o único ser que possa torná-los felizes, já não está neste mundo. Mas o desejo da felicidade não fugiu totalmente de seus corações, só que o julgam irrealizável, pois, se alguma potência mágica oferecesse realizar seus desejos e restituir-lhes o ser adorado, ou a juventude e a saúde, ou ainda conceder-lhes a riqueza ou o amor compartilhado, eles não recusariam essa dádiva.

Portanto estamos vendo bem que todos os homens desejam experimentar a felicidade e no fundo só desejam mesmo isso, pois, como dizia o filósofo grego Epicuro três séculos antes de nossa era: “Com a felicidade temos tudo de que precisamos, e se não somos felizes fazemos de tudo para sê-lo.”

Entretanto, enquanto fazemos essas poucas reflexões para compreender o que é a felicidade, podemos ser assaltados por uma dúvida: a felicidade é acessível ao homem? Poderei realmente conseguir satisfazer todos os meus desejos… e assim viver permanentemente em prazeres sempre renovados, eliminando toda aflição e toda contrariedade? Isso parece muito além de minhas capacidade, e posso ser tomado por certo desencorajamento com esse pensamento.

Todos os homens correm a vida toda atrás da felicidade, a coisa mais importante para eles, lançam-se numa profusão de empreitadas, preocupam-se com muitas coisas, refletem nelas até torturar a mente, mas nenhum consagra um minuto de sua vida a meditar sobre o que é realmente a felicidade e a saber se ela é pelo menos acessível! Os homens talvez persigam uma quimera inatingível, o que uma reflexão elementar como a que acabamos de fazer basta para sugerir-nos. Seria cômico se não fosse de um absurdo trágico, e se não participássemos desse destino.

Já vemos desenhar-se aí a necessidade da filosofia. Em vez de ir à caça da felicidade de modo totalmente irrefletido, como fazem todos os homens, convém ao contrário fazer um esforço de pensamento para primeiro saber exatamente o que é a felicidade, como alcançá-la, e sobretudo assegurar-se de que seja acessível. Qualquer um que comece a refletir seriamente na felicidade começa por isso mesmo a tornar-se filósofo, uma vez que reencontra o ponto inicial dos primeiros sábios da Grécia antiga.

(pgs. 17 a 25)

O EPICURISMO

Epicuro, no século III a.C., pensa, também ele, que o objetivo da vida humana é obter a felicidade. Está mais de acordo com o homem moderno: o meio de alcançar a felicidade é o prazer nascido da satisfação dos desejos. Cumpre buscar o prazer, pois é seu acúmulo que constitui a felicidade. Esta doutrina que prega assim o prazer se chama hedonismo (do grego hedoné, o prazer). Portanto, devemos ficar em condições de experimentar o prazer na vida, de aproveitar os bons momentos, e mesmo de cada dia, de cada instante, isso que diz a célebre máxima latina que reflete o ensinamento de Epicuro: Carpe diem, “Colha o dia”. Para isso, devem-se primeiro eliminar as preocupações e as angústias. É bem isso que sentem todos os nossos contemporâneos que correm ao psicanalista ou psicólogo!

O Materialismo contra as angústias religiosas

Uma das primeiras causas de angústia nos humanos é, segundo Epicuro, a inquietude religiosa e a superstição. Muitos homens vivem no temor dos deuses. Têm medo de que sua conduta, seus desejos não agradem aos deuses (ou a Deus, para os monoteístas, que Epicuro não conhecia), que estes julgam seus atos imorais ou ofensivos contra suas leis e se decidam a punir severamente os pobres fomentadores, esmagando-os de infelicidade já nesta vida ou castigando-os depois desta vida. Pensam também que se deve prestar um culto escrupuloso a essas divindades, dirigir-lhes preces, súplicas, fazer-lhes oferendas a fim de granjear suas boas graças. Pois os deuses são suscetíveis, irritam-se por nada, e às vezes ficam mesmo ciumentos da felicidade dos simples mortais, que eles se comprazem então em arruinar. Todas essas crenças que envenenam a vida dos homens não passam de superstições e patranhas para Epicuro.

Epicuro SuperA morte não é nada paranós

A metafísica materialista também vai permitir livrar a humanidade de um de seus maiores temores: o temor da morte. Os homens têm realmente medo da morte e fazem de tudo para evitá-la. Mas quem temem nela? É precisamente o salto no absolutamente desconhecido. Não sabem o que os espera e receiam confusamente que terríveis sofrimentos lhes sejam infligidos, talvez em punição de seus atos terrestres. Os cristãos, por exemplo, imaginarão que qualquer um que tenha agido mal e não obteve o perdão de Deus irá assar nas chamas do inferno.

Inferno. Anônimo. 119 x 217,5 cm. Óleo sobre madeira de carvalho. Primeiro terço do século XVI. Museu Nacional de Arte Antiga Lisboa.

Inferno. Anônimo. 119 x 217,5 cm. Óleo sobre madeira de carvalho. Primeiro terço do século XVI. Museu Nacional de Arte Antiga Lisboa.

O medo da morte está relacionado com as superstições religiosas de que a metafísica materialista nos liberta. Ademais, se tudo no universo é feito de matéria, se nós, como todos os seres vivos, somos apenas agregados de átomos, quando morremos são apenas nossos átomos que se separam, que se desagregam, é apenas nosso corpo que se decompõe, primeiro num ponto (o que está ferido ou doente), depois em todos. Por conseguinte, nada de nosso ser sobrevive, não há nada depois da morte, “a morte não é nada para nós.”

Aqueles que pensam que a vida do corpo, o pensamento, a sensação, o movimento vêm da alma e que essa alma poderia sobreviver após a morte do corpo, estão errados. Pois a própria alma é feita de matéria, por certo mais sutil, quase invisível; mas se ela não passa de uma agregação de átomos, ela também se decompõe quando sobrevém a morte, e até, de acordo com a experiência mais comum, deve-se pensar que é a primeira a decompor-se pois que a morte se mostra imediatamente privada de vida, de sensação, de pensamento e de movimento… Falam-lhe, tocam-no, beliscam-no e ele não tem nenhuma reação, não manifesta nenhum sentimento… A morte se caracteriza bem, em primeiro lugar, pela ausência de sensação.

Epicuro pode escrever: “Habitua-te com o pensamento de que a morte não é nada para nós, uma vez que só há bem e mal na sensação, e a morte é ausência de sensação. / Assim, o mal que mais assusta, a morte, não é nada para nós, pois, quando existimos, a morte não está presente, e, quando a morte está presente, deixamos de existir.”

Epicuro - slide 2

PRA QUE PRESTAM, NA PÓLIS, OS PHILÓSOPHOS? Uma resposta de André Comte-Sponville

DO OUTRO LADO DO DESESPERO
Entrevista com André Comte-Sponville

Pergunta: André Comte-Sponville, façamos tábua rasa de tudo, e comecemos por definir: o que é a filosofia? O que é um filósofo? Que papel ele deve representar na Cidade de hoje?

André Comte-Sponville: Aí está um início bem filosófico! No fundo, será que filosofar não seria, antes de mais nada, isso mesmo: fazer tábua rasa (nada prova que seja possível), pelo menos tentarmos nos livrar de tudo o que nos atravanca, dos costumes, das idéias feitas, etc., em outras palavras, pensar renovadamente? Sim, talvez a filosofia seja antes de mais nada esse movimento de interrogação radical, como que um começo da razão, ou um recomeço; talvez a filosofia seja o pensamento novo, o pensamento livre, o pensamento libertado e libertador… Costuma-se dizer, citando Hegel, que a coruja de Minerva alça vôo no crepúsculo, e não está errado. A filosofia é a alvorada sempre recomeçada do pensamento, que não pára de se alçar – brilho pálido da razão! – do fundo de nossos crepúsculos.

Não há como escapar da filosofia – ou, diria eu, só escapamos dela renunciando a pensar. Ela é antes de mais nada uma dimensão constitutiva da existência humana. Você me pergunta, “O que é a filosofia?” Forjei, pensando em Epicuro, a definição seguinte: “a filosofia é uma prática discursiva que tem a vida por objeto, a razão por meio e a felicidade por fim.”

Como falo da felicidade, conclui-se daí um tanto apressadamente que aí estaria, para mim, o mais importante da filosofia. Nada disso. É possível ser feliz sem filosofar, sem dúvida, e, com toda certeza, é possível filosofar sem ser feliz! A felicidade é o fim, não o caminho. E principalmente: a felicidade não é a norma. Se uma idéia faz você feliz, o que isso prova? É o que acontece também, pelo menos por certo tempo, com a maioria das nossas ilusões… A felicidade não é a norma: a norma da filosofia, como de todo pensamento, é, só pode ser, a verdade. Sempre digo que, se um filósofo tem escolha entre uma verdade e uma felicidade, o que pode acontecer, ele só é filósofo se escolhe a verdade. Renunciar à verdade, ou à busca da verdade, seria renunciar à razão e, com isso, à filosofia. Mais vale uma verdadeira tristeza do que uma falsa alegria.

Por que então não definir a filosofia como busca da verdade? Primeiro porque essa busca não é, evidentemente, específica da filosofia: também se busca a verdade na história, na física, no jornalismo ou no tribunal… Na filosofia, a verdade é a norma, mas trata-se afinal de viver e, se possível, viver feliz, ou não muito infeliz… Daí essa tensão sempre, que me parece característica da filosofia, entre o desejo e a razão ou, para dizê-lo de outro modo, entre o fim (a felicidade) e a norma (a verdade). Que as duas podem se encontrar, é o que ensina a velha palavra “sabedoria”.

Se a filosofia é amor à sabedoria, como a etimologia anuncia, é que ela é amor, ao mesmo tempo, à felicidade e à verdade, e que tenta, na medida do possível, conciliá-las, fundir uma na outra…”

sponvaCOMTE-SPONVILLE.
O Amor, A Solidão.
Ed. Martins Fontes. Pg. 12.
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OS EMPANZINADOS DO HIPERCONSUMO, por Serge Latouche (in: Tratado do Decrescimento Sereno, ed. Martins Fontes, 2012)

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Imagem: Adbusters

 “O CRESCIMENTO INFINITO É INCOMPATÍVEL COM UM MUNDO FINITO!”
 por Serge Latouche, filósofo e economista francês,

em “Tratado do Decrescimento Sereno” (Editora Martins Fontes)
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“Há perguntas demais neste mundo aqui de baixo, nos diz Woody Allen: de onde viemos? Para onde vamos? E o que vamos comer hoje à noite? Se, para dois terços da humanidade, a terceira questão é a mais importante, para nós, do Norte, os empanzinados do hiperconsumo, ela não é uma preocupação. Consumimos carne demais, gordura demais, açúcar demais, sal demais. O que nos assombra é antes o sobrepeso. Corremos o risco de sofrer de diabetes, cirrose do fígado, colesterol e obesidade: esta atinge 60% da população dos EUA, 30% da Europa e 20% das crianças na França. Estaríamos melhor se fizéssemos dieta. Esquecemos as duas outras perguntas que, menos urgentes, são contudo mais importantes.

Para onde vamos? De cara contra o muro. Estamos a bordo de um bólido sem piloto, sem marcha a ré e sem freio, que vai se arrebentar contra os limites do planeta. (…) Mas, com a nossa refeição desta noite garantida, não queremos escutar nada. Ocultamos, em particular, a questão de saber de onde viemos: de uma sociedade de crescimento – ou seja, de uma sociedade fagocitada por uma economia cuja única finalidade é o crescimento pelo crescimento. É significativa a ausência de uma verdadeira crítica da sociedade de crescimento na maioria dos discursos ambientalistas, que só fazem enrolar nas suas colocações sinuosas sobre o desenvolvimento sustentável.

Dizer que um crescimento infinito é incompatível com um mundo finito e que tanto nossas produções como nossos consumos não podem ultrapassar as capacidades de regeneração da biosfera são evidências facilmente compartilháveis. Em compensação, são muito menos bem-aceitas as consequências incontestáveis de que essas mesmas produções e esses mesmos consumos devem ser reduzidos, e que a lógica do crescimento sistemático e irrestrito (cujo núcleo é a compulsão e a adição ao crescimento do capital financeiro) deve portanto ser questionada, bem como nosso modo de vida.”

* * * * *

“Três ingredientes são necessários para que a sociedade de consumo possa prosseguir na sua ronda diabólica: a publicidade, que cria o desejo de consumir; o crédito, que fornece os meios; e a obsolescência acelerada e programada dos produtos, que renova a necessidade deles. Essas três molas propulsoras da sociedade de crescimento são verdadeiras incitações-ao-crime.

A publicidade nos faz desejar o que não temos e desprezar aquilo de que já desfrutamos. Ela cria e recria a insatisfação e a tensão do desejo frustrado. Conforme uma pesquisa realizada entre os presidentes das maiores empresas americanas, 90% deles reconhecem que seria impossível vender um produto novo sem campanha publicitária; 85% declaram que a publicidade persuade “frequentemente” as pessoas a comprar coisas de que elas não precisam; e 51% dizem que a publicidade persuade as pessoas a comprar coisas que elas não desejam de fato (cf. André Gorz, “Capitalisme, socialisme, écologie”, Paris, Galilée, 1991, p. 180).

Esquecidos os bens de primeira necessidade, cada vez mais a demanda já não incide sobre bens de grande utilidade, e sim sobre bens de grande futilidade. Elemento essencial do círculo vicioso e suicida do crescimento sem limites, a publicidade, que constitui o segundo maior orçamento mundial depois da indústria de armamentos, é incrivelmente voraz: 103 bilhões de euros nos Estados Unidos em 2003, 15 bilhões na França. No total, considerando o conjunto do globo, mais de 500 bilhões de despesas anuais. Montante colossal de poluição material, visual, auditiva, mental e espiritual!

O sistema publicitário “apossa-se da rua, invade o espaço coletivo – desfigurando-o -, apropria-se de tudo o que tem vocação pública, as estradas, as cidades, os meios de transporte, as estações de trem, os estádios, as praias, as festas. Ele inunda a noite assim como se apossa do dia, ele canibaliza a internet, coloniza os jornais, impondo sua dependência financeira e levando alguns deles a ficar reduzidos a tristes suportes. Com a televisão, ele possui sua arma de destruição em massa, instaurando a ditadura do ibope sobre o principal vetor cultural da época. (…) A agressão se dá em todas as direções, a perseguição é permanente. Poluição mental, poluição visual, poluição sonora.” (Jean-Paul Besset, em “Comment ne plus être progressiste… sans dévenir réactionnaire”, Paris, Fayard, 2005, p. 251).

Com a obsolescência programada, a sociedade de crescimento possui a arma absoluta do consumismo. Impossível encontrar uma peça de reposição ou alguém que a conserte. Se conseguíssemos pôr a mão na ave rara, custaria mais caro consertá-la do que comprar uma nova (sendo esta hoje fabricada a preço de banana pelo trabalho escravo do sudeste asiático). Assim é que montanhas de computadores se juntam a televisores, geladeiras, lava-louças, leitores de DVD e telefones celulares abarrotando o lixos e locais de descarte com diversos riscos de poluição: 150 milhões de computadores são transportados todos os anos para depósitos de sucata do Terceiro Mundo (500 navios por mês para a Nigéria!), apesar de conterem metais pesados e tóxicos (mercúrio, níquel, cádmio, arsênico e chumbo).

À bulimia consumista dos fissurados em supermercados e lojas de departamentos corresponde o workaholismo, o vício em trabalho dos executivos, alimentado, em muitos casos, por um consumo excessivo de antidepressivos. (…) Nós, franceses, somos detentores de um triste recorde: compramos, em 2005, 41 milhões de caixas de antidepressivos. (…) Resta-nos apenas assinar embaixo do diagnóstico do professor Dominique Belpomme: “O crescimento tornou-se o câncer da humanidade.” (cf. “Avant qu’il ne soit trop tard”, p. 211).


LatoucheLATOUCHE
, S.
“Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno”
Editora Martins Fontes, 1a ed, 2009.
Tradução de Claudia Berliner
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Primeiras impressões do visitante extraterrestre sobre o bicho humano! Do filósofo espanhol Fernando Savater em “As Perguntas da Vida” (Ed. Martin Fontes, 2011)

Calvin

– Às vezes penso que o sinal mais seguro de que vida inteligente existe em algum outro lugar do Universo é que ninguém tentou nos contatar. (Calvin & Haroldo)

AS PERGUNTAS DA VIDA
por Fernando Savater

Suponhamos que um extraterrestre venha a nosso mundo e comece a nos estudar, a você e a mim. Tem à sua frente um ser vivo, talvez até o considere inteligente (sejamos otimistas!), mas uma das primeiras perguntas que se fará é: onde começa e onde acaba esse bicho?

A pergunta não é absurda… não é fácil determinar, por exemplo, se o casulo da crisálida também deve ser considerado crisálida como o resto do animal que o segregou. Do mesmo modo, o extraterrestre pode achar que eu também sou minha casa e que acabo na porta da rua, ou que pelo menos minha poltrona favorita e meu avental fazem parte de mim, ou que o cigarro que estou fumando é um de meus apêndices e a fumaça constitui minha respiração malemolente. Você, que tem carro e passa o dia dentro dele, certamente seria classificado pelo marciano entre os terrícolas de quatro rodas.

Mas, se o forasteiro interplanetário chegar a se comunicar conosco, explicaremos a ele que está enganado, que nossas fronteiras são estabelecidas por nosso tecido celular e que – por mais que amemos nossas posses e nosso alojamento urbano – nosso eu vivente só chega até onde abrange a nossa pele. Ou seja, nosso corpo. Ao que o marciano poderia nos responder: “Tudo bem, e isso, como vocês chegaram a saber?”

Responder-lhe adequadamente não é tão óbvio como parece. Não poderíamos explicar-lhe que quando falo em corpo estou me referindo àquilo que sempre vai comigo, diferentemente de outras possessões, pois meu cabelo, minhas unhas, meus dentes, minha saliva, minha urina, meu apêndice etc. são partes do meu corpo, muito minhas, mas apenas transitoriamente. Cedo ou tarde deixam de ser eu sem que eu deixe de ser eu, tal como a serpente se desfaz na primavera da roupa velha que é sua pele usada.

Nem sequer poderíamos afirmar para o curioso interplanetário que o corpo é tudo aquilo de que não podemos prescindir para continuar vivos, uma vez que às vezes é preciso trocar meu coração por outro para eu não morrer, e certos doentes dependem dos aparelhos de diálise que substituem seus rins, para não falar no ar ou no alimento, que me são corporalmente imprescindíveis quanto os pulmões ou o estômago e no entanto não fazem parte do meu eu.

Se o extraterrestre estivesse estudando uma mulher grávida, o problema se complicaria mais ainda, pois não é facil resolver se o feto é simplesmente uma parte de seu corpo ou algo distinto dele. Quanta complicação! O perspicaz Lichtenberg, no final do século XVIII, disse em um de seus aforismos que “meu corpo é a parte do mundo que meus pensamentos podem mudar”. Uma ideia engenhosa, porque para realizar a maioria das modificações da realidade – mudar uma poltrona de lugar, fazer um carro arrancar, trocar de roupa – preciso agir através de meu corpo, ao passo que me basta desejar ou pensar para levantar o braço ou abrir a boca.

E, no entanto, não parece ser meu pensamento que me faz respirar ou digerir, tampouco minha vontade pode me devolver o cabelo e os dentes erdidos… para não falar em mudar a cor de minha pele ou meu sexo! As metamorfoses de Michael Jackson ou dos transexuais necessitam de intervenções externas para serem realizadas. Francamente, satisfazer à curiosidade do extraterrestre pode nos colocar numa situação comprometedora…

No entanto, minha convicção profunda é a de que eu começo e acabo em meu corpo, sejam quais forem os embrulhos teóricos que essa certeza me traga. Talvez, vendo meu nervosismo, o amável marciano aceite esse ponto para não me irritar mais; então, ele poderia me fazer a pergunta do milhão: “De acordo, você começa e acaba em seu corpo, mas… devo assumir que você tem um corpo ou que você é um corpo?” Uma tal interrogação poderia ser causa justificada para uma guerra interplanetária!

Provavelmente Descartes, que supunha que a alma fosse um espírito e o corpo uma espécie de máquina (segundo ele, os animais – que não têm alma – são meras máquinas… que nem sequer podem experimentar dor ou prazer!), responderia que eu – o espírito – tenho um corpo e me arranjo com ele o melhor que posso. Segundo uma certa visão popular, estamos dentro do nosso corpo à maneira de fantasmas encerrados em uma espécie de robôs que devemos dirigir e mover. Até há místicos que acham que o corpo é quase tão ruim quanto um cárcere e que sem ele nós nos moveríamos com muito maior ligeireza.

Sócrates talvez tenha se referido a isso em suas últimas palavras, conforme nos são citadas por Platão, em Fédon, quando ao notar que o efeito da cicuta estava chegando a seu coração, disse a seus discípulos: “Devemos um galo a Esculápio!”

Havia o costume de oferecer um animal como sacrifício de gratidão a Esculápio, deus da medicina, quando alguém se curava de uma doença.

Talvez Sócrates achasse que o veneno assassino estava prestes a livrá-lo da doença da alma que consiste em suportar um corpo. A verdade é que, com um sujeito tão irônico, nunca se sabe…” 

Fernando-Savater

Fernando Savater

FERNANDO SAVATER
No livro As Perguntas da Vida
Ed. Martins Fontes, 2001, pgs. 56 a 58
Disponível na biblioteca do IFG/Goiânia

A América Não Foi Descoberta! (A Invasão Européia do Novo Mundo segundo Todorov)


A AMÉRICA NÃO FOI DESCOBERTA!

Reflexões sobre “A Conquista da América – A questão do Outro”
de Tzvetan Todorov (Ed. Martins Fontes, 4ªed, 2011)

* * * * * *

 Uma das primeiras coisas que colocamos sob suspeita quando começamos a estudar mais a fundo a “Descoberta da América” é a própria denominação do evento histórico, esta curiosa expressão que batiza a ocorrência colossal – “descoberta”. Será este o termo mais adequado? Será que dizer “descobrir” não serve para mascarar e esconder todos os horrores colossais da guerra de conquista que empreenderam as potências européias contra o Novo Mundo? Não é este um eufemismo criado pelo invasor, destinado a ser engolido sem reclamo pelos cordeirinhos submissos dos colonizados?

Será que dizer que nos “descobriram” não intenta fazer com que nos esqueçamos de toda a pilhagem, todo o roubo de recursos naturais, que ocorreu por aqui (todo o ouro surrupiado de Vila Rica/Ouro Preto, toda a prata saqueada de Potosí…)? Não querem esconder debaixo de tapetes sírios todo o sangue índigena que correu sob a espada e as armas estrangeiras? Aonde, dentro da palavra “descoberta”, estão todas as vidas escravizadas, subjugadas, maltratatas, coisificadas e massacradas pelos (tsk tsk tsk…) “descobridores”? Para ficar só no exemplo do México: ora, 24 milhões de índios mexicanos assassinados merecem algo melhor do que o edulcorado conto-de-fadas da “Descoberta (idílica e doce) do Eldorado”!

 Bastante asséptica e higiênica, a palavra “descoberta” parece remeter a um processo limpo de desvelamento, um mero retirar das cobertas, algo que traz à luz o que antes estava na escuridão. “Descoberta”, termo de tonalidade positiva, parece referir-se mais a um ato de encontrar um território novo – que só é “novo”, é claro, quando enxergado a partir da perspectiva daqueles que antes o desconheciam, os europeus que aqui aportaram lá por 1.500.

 Só que as terras “descobertas” não eram desabitadas, e nelas floresciam diversas sociedades que ali haviam vivido por milênios: como lembra Pierre Clastres, “a América do Sul é um continente cuja imensa superfície, com raríssimas exceções (como o deserto do Atacama no extremo norte do Chile), era inteiramente ocupada pelos homens no momento do descobrimento da América no final do século XV – ocupação, aliás, bastante antiga, de cerca de 30 MILÊNIOS, como o atestam os estudos da pré-história” (CLASTRES, Arqueologia da Violência, p. 91).

De modo que a chegada dos europeus, longe de poder ser descrita como a chegada a uma terra virgem, representou muito mais uma invasão estrangeira em um continente previamente habitado, por milênios, por milhões de seres humanos. A palavra “descoberta”, predileta dos colonizadores e seus escritores da História Oficial, não serviria pois para esconder as chagas que se escondem por trás do impacto catastrófico da conquista européia do Novo Mundo no que isso acarretou de genocídio e etnocídio, escravização e racismo, micróbios e epidemias, dentre outros inúmeros males?

 Ora, ora! A atitude recorrente do conquistador europeu é se auto-proclamar “superior”, “civilizado”, devoto do Deus verdadeiro; ao Outro, este desconhecido, este estranho, este diferente, lança-se o rótulo fácil de inferior, bárbaro, idólatra de falsos deuses. O nome disso em ética é “arrogância” ou “presunção”; em psicologia, “narcisismo”; em antropologia, “etnocentrismo”. Quão facilmente se tornam tirânicos os que se sentem arrogantemente “superiores” ao resto, com direito a manter o outro sob seu jugo! Ou pior: os que se julgam “eleitos”, os “altamente meritórios”, os “filhos prediletos do Todo-Poderoso”, estes se permitem os massacres mais inacreditavelmente sangrentos – e tudo por “amor a Deus” e fidelidade à “boa Causa” (Stirner explica!).

 “A guerra contra os infiéis é justificada, pois abre caminho para a difusão da religião cristã e facilita o trabalho dos missionários”, diz o espanhol Sepúlveda, assecla da Coroa Real desejoso de submeter o novo continente ao Cristianismo, ainda que ele tivesse que ser imposto pela força bruta, pelos assassinatos em massa, pelo genocídio indígena. É que, conta-nos também este pio cristão a serviço do Rei, “é legítimo banir o crime abominável que consiste em comer carne humana” (TODOROV: 2011, pg. 224).

 Ora, os espanhóis, brancos e cristãos, que atravessaram o Atlântico à serviço de Vossa Majestade o Rei e Vossa Santidade O Papa, eles que faziam pose de “hiper-civilizados” e desdenhavam os costumes bárbaros dos astecas, conseguiram, em meio século, somente no México, exterminar mais de 20 milhões de seres humanos. A “descoberta” da América, como Todorov nos relata, ou seja, a partir de uma perspectiva bem mais interessante e verídica do que aquela da “história oficial”, foi uma catástrofe inimaginavelmente trágica para as populações que aqui viviam. O genocídio perpetrado na América pelos cristãos europeus, embevecidos de imperialismo evangelizador, superam em número o nosso atual “paradigma do Mal Absoluto”: o holocausto hitlerista de mais de 6 milhões de judeus. A sinistra maquinaria de massacre sistemático que os europeus impuseram aos humanos americanos, segundo Todorov, resume-se assim:

 “Em 1500, a população do globo era de aproximadamente 400 milhões, dos quais 80 milhões habitam as Américas. Em meados do século XVI, desses 80 milhões… restam 10 milhões. Se nos restringirmos somente ao México: às vésperas da conquista, sua população é de aproximadamente 25 milhões; em 1600, é de 1 milhão.” (pg. 191)

 Nós, nascidos em épocas já distanciadas por séculos da invasão das metrópoles absolutistas européias, esquecemos muito facilmente de fatos como este: entre o Popol Vuh, livro religioso dos astecas, e a Bíblia, livro-base da civilização dos conquistadores, a relação é de um livro autóctone e de um livro estrangeiro. A Bíblia é uma coisa importada, aporte dos invasores, trazida junto às caravelas dos invasores, massacradores de índios e escravizadores de negros. Na Inglaterra, outro “centro imperial da Europa”, destinado a grandes “aventuras” colonizadoras na “Nova Inglaterra”, mitos também circulavam sobre a vinda da Nova Jerusalém, sobre a responsabilidade dos cristãos de erguê-la, uma vez que a Jerusalém “oficial” estava em mãos muçulmanas. A América era vista como terra “virgem” onde edificar, erigir, monumental e sublime, um esplendoroso Reino servindo ao Império da Cristandade!

 “I will not cease from mental fight
nor shall my sword sleep in my hand
Till we have built Jerusalem
In england’s green and pleasant land.”

WILLIAM BLAKE

O fato de muitos desses assassinos, genocidas e escravocratas se declararem homens de Deus, homens de fé, servidores da santa causa do cristianismo, deveria nos bastar para começar – como recomendava Wittgeinstein – a colocar os pontos-de-interrogação bem lá no fundo, ou seja, abismando-nos na indagação perigosa e herética: o “amor a Deus”, se pôde gerar tamanha hecatombe e destruição, deve ser inocentado? A História não seria menos convulsionada por violências infindas e cabeças rolando caso a arrogância dos eleitos fosse sobrepujada pela abertura-de-espírito daquele que enxerga a Diferença e a Alteridade como oportunidade de diálogo, de aprendizado, de intercâmbio, de mescla? Em outros termos: se a História nos mostra tanto sangue derramado por puritanos e puristas, crentes em sua própria superioridade moral e religiosa, não seria mais sadio, mais sábio e mais feliz aderirmos a uma concepção das relações humanas que privilegiasse mais a mescla fecunda de diversos vetores e o júbilo de ser impuro?…

II. COLOMBO: QUIXOTE DA VIDA REAL… 

A Conquista da América é filha de “grandes esperanças de lucro” (Cristóvão Colombo, Diário, 1492, p. 11): “Os mandatários da expedição, os Reis de Espanha, não se teriam envolvido na empresa se não fosse a promessa de lucro… o ouro era uma espécie de chamariz para que os reis aceitassem financiá-la” (TODOROV: p. 11). Mas há mais: a alucinada religiosidade militante de Colombo, para quem “a expansão do cristianismo é bem mais importante que o ouro”: numa carta ao Papa, ele diz que sua próxima viagem será “para a glória da Santíssima Trindade e da santa religião cristã”; “espero em Nosso Senhor poder propagar seu santo nome e seu Evangelho no Universo” (p. 13).

Nosso aventureiro idealista, Cristóvão Colombo, era animado por ideais bem mais sublimes do que somente roubar todo o ouro e as pedras preciosas que encontrasse pelo caminho, enfiando todas as riquezas em caravelas destinadas à Espanha. Colombo, conforme a brilhante descrição de Todorov, também tinha a “ambição espiritual”, que ele mesmo deveria considerar pia e sublime, de ali espalhar a “doutrina sagrada” do Deus único, representado pelo Papa romano, ungidor dos Reis de Castela, e que exige (Deus furibundo e exclusivista…) a submissão da Terra toda à Cruz. Como sintetiza Todorov,

 “A vitória universal do cristianismo é o que anima Colombo, homem profundamente piedoso (nunca viaja aos domingos), que justamente por isso considera-se eleito, encarregado de uma missão divina, e que vê por toda parte a intervenção divina, seja no movimento das ondas ou no naufrágio de seu barco. (…) A necessidade de dinheiro e o desejo de impor o verdadeiro Deus não se excluem. Os dois estão até unidos por uma relação de subordinação: um é meio, e o outro é fim. (…) Qual um Dom Quixote atrasado de vários séculos em relação a seu tempo, Colombo queria partir em cruzada e liberar Jerusalém! (…) Espera encontrar ouro ‘em quantidades suficientes para que os Reis possam, em menos de 3 anos, preparar e empreender a conquista da Terra Santa.” (p. 13-14)

 Pobres dos povos que estavam no caminho desta sanha imperialista travestida de “missão divina”! Sabemos que Colombo trombou por engano com o “Novo Mundo” (depois batizado de América em homenagem a Vespúcio…) quando pensava estar indo saquear as Índias. Cristóvão Colombo, embevecido com a ideia de ser um eleito da Providência, destinado por decreto divino a reconquistar Jerusalém para a Cristandade e fundar o Paraíso terrestre, não enxerga nos novos continentes somente riquezas a extrair, saciando a ambição desenfreada dos nobres ibéricos, mas uma chance de ampliar as sombras que fazem sobre a Terra o símbolo supremo do messias da Cruz.

O ideal de Colombo, aquilo que o enchia de “orgulho” por uma ação grandiosa e pia, era estar expandindo a penetração global dos santos Evangelhos, “curando” os indígenas de suas cegueiras de pagãos, iniciando-os na verdadeira doutrina e na verdadeira verdade: descem das caravelas os espanhóis, a serviço dos reis de ultra-mar, com o espírito das Cruzadas medievais ainda pulsando em seus peitos fanáticos.

Colombo, delirante, quase tão quixotesco quanto o Dom Quixote de Cervantes, sai atrás das Índias, pensa estar se dirigindo à Ásia, e acaba trombando… com a América. É isso que eu chamo de errar feio o caminho, meu chapa. Colombo se assemelha a alguém que, chegando em Tóquio, perguntasse a um transeunte: “É aqui o Rio de Janeiro?” Ele aportou nas praias da Jamaica, do Haiti e de Cuba convictíssimo (e redondamente enganado…) de estar chegando lá na Conchinchina.

 Mas o mais chocante de tudo é que este Dom Quixote da vida real pôde ser um dos iniciadores de um dos maiores genocídios da História. Tudo fez em seu arrebatado afã de agradar aos reis de Castela e de contribuir para a expansão da Cristandade (“Pela vontade divina, pus deste modo um outro mundo sob a autoridade do Rei e da Rainha e assim a Espanha, que diziam ser tão pobre, tornou-se o mais rico dos reinos”, escreve Colombo em novembro de 1500 – pg. 62).

“Dom Quixote” por José Guadalupe Posada

III. EM BUSCA DE OURO E CONVERSÕES… 

Mas o que interessa mais aos conquistadores espanhóis, se são as riquezas ou as “almas a ganhar para a Cristo”, é difícil decidir: eles parecem igualmente entusiasmados por roubar o ouro e espalhar a cruz. E uma das coisas mais curiosas e bizarras da personalidade de Colombo, como diz Todorov, é que ele “age como se entre as duas ações se estabelecesse um certo equilíbrio: os espanhóis dão a religião e tomam o ouro” (pg. 62).

 Todo o ouro de Ouro Preto, toda a prata de Potosí, foram-se nas caravelas; e o que ficou da chegada “gloriosa” do Cristianismo a estas terras foi o massacre indígena e o início da escravidão neste continente antes intocado por ela. Se Colombo pôde se tornar um ardoroso defensor da ideologia escravagista, convicto de que os índios eram seres inferiores em relação aos cristãos europeus, foi também por este egocentrismo de que o livro de Todorov traz tantos exemplos. Colombo é a re-encarnação de Narciso, deslumbrado diante do espelho, embevecido com a ideia da glória, deleitando-se com os aplausos que imaginava que lhe votavam, nos palácios, o Rei, a Rainha e o Papa, os cardeais e os nobres…

 Distingue os índios do continente entre os “cristãos em potencial” e os “incuravelmente pagãos”; a estes últimos, a solução é exterminar. Para os primeiros, bem… ser cristão em potencial, vocês sabem, não é o mesmo que ser cristão por inteiro… Logo (raciocínio de toupeira!) “aqueles que ainda não são cristãos só podem ser escravos” (pg. 64).

 Cristóvão Colombo têm, pois, a “brilhante” ideia que haverá de revolucionar toda a História posterior da América, da Europa, da África – enfim, do mundo. “Imagina então que os navios que transportam rebanhos de animais de carga no sentido Europa-América sejam carregados de escravos no caminho de volta, para evitar que retornem vazios e enquanto não se acha ouro em quantidade suficiente…” (idem).

Como excelente linguista que é, Todorov tem um olhar todo especial para os fenômenos da comunicação humana. Percebe no interagir entre os homens os defeitos de comunicação, as incapacidades de ouvir e entender o outro, a dificuldade tremenda de transpor os abismos da alteridade. Ele aplica estas reflexões sobre a questão do Outro aos eventos históricos com rara lucidez, realizando uma vasta pesquisa sobre o material histórico-documental que evidencia os massacres, as chacinas, os banhos-de-sangue que impuseram os Cortezes e os Cabrais e os Colombos que invadiram o continente em fins do século XV.

 Lembra-nos, por exemplo, da origem da palavra “bárbaro” – uma curiosidade etimológica fascinante: os gregos taxavam de “bárbaros” todos os povos cujo idioma não compreendiam e que por isso pareciam só falar um incompreensível blá-blá-blá. A impossibilidade de conhecer realmente a identidade do outro, devido em parte ao abismo de idiomas radicalmente diferentes, é uma das “condições necessárias” para que a guerra e o massacre ocorressem. Uma das sensações que fica da leitura desta obra inquietante de Todorov é um certo ceticismo obstinado em relação aos que se presumem “eleitos”.

 Batalho para tentar ler nas entrelinhas, em tudo aquilo que Todorov não disse, em toda a imensidão que está escrita em elipse nesta obra fervilhante, tentando perceber que tipo de relação humana, de intercâmbio com o outro, seria digno da Humanidade. Todorov diz, por exemplo, esta verdade simples e tão veraz: “Um diálogo não é uma somatória de dois monólogos”. Chacrinha tinha razão: “quem não comunica se estrumbica”. Pior: quem se comunica mal, pode acabar… na guerra. Conflitos de força bruta podem ocorrer quando a comunicação é falha, ou quando um dos lados recusa-se a ouvir o outro, ou quando um arroga-se possuidor da verdade ou “naturalmente superior” e conclui: “nada tenho o que conversar com essa racinha, com esses selvagens, com essa ralé, com essa gentinha de estirpe degradada…”

A arrogância, a prepotência, a soberba, o narcisismo, o egocentrismo: razões para a guerra. As tragédias de Ésquilo, por exemplo, a todo momento mostram as catástrofes que decorrem do excesso de orgulho demonstrado pelos homens. A ponto dos gregos terem em seu panteão politeísta uma certa deusa Nêmesis, responsável por punir as elefantíases do orgulho humano.

 E a religião, em tudo isso? A religião, como discurso fabricado por homens a fim de que dissessem a si mesmos o que mais queriam que fosse verdade, tende quase sempre a fazer agrados ao ego, inflar a vaidade humana, contar contos-de-fada reconfortantes e otimistas, fabricar genealogias gloriosas onde estaríamos inseridos em posições de prestígio: você está entre as criaturas “eleitas” pelo Criador, você é o máximo dos máximos, você é em essência imortal e inapodrecível, você tem lugar cativo garantido no Paraíso Celestial, você é o supra-sumo da Criação, a razão pela qual tudo existe; o Sol foi ali posto para te iluminar e aquecer; os mares e oceanos, para que você neles nadasse ou os singrasse nos navios; as árvores, para que você as derrubasse e fizesse casas, móveis e papéis; e os animais, para serem comida…

Quanto mais o homem se ilude com doutrinas auto-reconfortantes, agradáveis ao seu narcisismo, mais fechado se torna ao verdadeiro encontro com o Outro. “A ideia que os europeus fazem dos índios, segundo a qual estes lhes são inferiores, ou seja, estão a meio caminho entre os homens e os animais, é a premissa essencial, sem a qual a destruição não poderia ter ocorrido” (p. 211). Quanto mais, em sua vaidade, um povo pretende ser o eleito, o maioral, o predileto dos deuses, mais arreganha os dentes e empunha a espada para exterminar aqueles que julga os não-eleitos, os idólatras, os que adoram falsos deuses, os que não crêem nas “verdades sagradas” (“Quem pode negar que usar pólvora contra os pagãos é oferecer incenso a Nosso Senhor?”, escreve Oviedo [p. 219], “fonte rica de julgamentos xenófobos e racistas”).

 Quanto mais uma civilização é dominada por este narcisismo dos povos a que os antropólogos dão o nome de “etnocentrismo”, mais choques e guerras ocorrem: é sempre antipático para um povo ouvir seu vizinho dizer: “eu sou o tal, Deus me escolheu, somos os donos da verdade, temos o direito de imperar sobre o mundo e espalhar a nossa doutrina…”.

 As “raízes psicológicas” que estariam por trás da imensa tragédia histórica seriam, portanto, esta neurose comuníssima que consiste em, no encontro entre culturas e pessoas, julgar sempre que a diferença e a alteridade implica uma relação de superioridade/inferioridade. Os europeus, egocêntricos e narcísicos, justificaram todos os horrores que perpetraram com o argumento de que eles, europeus, eram superiores, já que andavam vestidos, conheciam a Bíblia e tinham fé no únido deus verdadeiro, enquanto os índios pelados eram quase animais, certamente sem alma, idolatradores de falsas divindades, cuja escravização e extermínio agradava ao Papai-do-Céu, que certamente tem imensa predileção por branquelos ambiciosos famintos por ouro.

 O saldo negativo, não só em milhões de vidas perdidas, mas em culturas inteiras dizimadas, chega a ser inimaginável de tão imenso: “os espanhóis queimarão os livros dos mexicanos para apagar a religião deles; destruirão os monumentos, para fazer desaparecer qualquer lembrança de uma grandeza antiga….” (p. 83) (…) “Quando Cortez deve dar sua opinião acerca da escravização dos índios, encara o problema de um único ponto de vista: o da rentabilidade do negócio…” (p. 189). Quanto às doenças trazidas pelos europeus, e que foram uma das causas maiores de mortes massivas de índios, os espanhóis assim pensavam: “por que combater uma doença, se ela foi enviada por Deus para punir os descrentes?” Revoltante!

 Todorov, pensador audaz que não se intimida diante do horror (seu livro sobre os campos de concentração, Em Face do Extremo, é outro excelente estudo sobre as raízes do Mal…), escreveu em A Conquista da América uma obra acabrunhante, assustadora, que revela os sórdidos submundos da História Real deste que foi, talvez, o maior genocídio de que se tem notícia no caminhar de nossa espécie:

 “Lembraremos que em 1500 a população do globo deve ser da ordem de 400 milhões, dos quais 80 milhões habitam as Américas. (…) Se a palavra genocídio foi alguma vez aplicada com precisão a um caso, então é esse. É um recorde, parece-me, não somente em termos relativos (uma destruição da ordem de 90% ou mais), mas também absolutos, já que estamos falando de uma diminuição da população [nativa] estimada em 70 milhões de seres humanos. Nenhum dos grandes massacres do século XX pode comparar-se a esta hecatombe.” (p. 192)

 Destes horrores repelentes e chocantes, fica somente a aspiração por um outro mundo possível (“um pouco de possível, ou então sufoco!”) onde haja convivência e coexistência da diferença, pleno respeito à alteridade, diálogo fecundo e aberto com o Outro, sem que jamais o fato da diversidade degenere em presunções de superioridade/inferioridade. Em prol, enfim, do júbilo de ser impuro, da alegria expansiva do diálogo mutuamente iluminador, de um cosmopolitismo que nos enxergue não como cindidos em etnias e nacionalidades, mas como passageiros do mesmo barco, conviventes no mesmo planeta rodopiante que viaja pela galáxia…

(por Eduardo Carli de Moraes
Mestrando em Filosofia/UFG
Goiânia, Setembro de 2012)

A Libertação da Pluralidade: Nietzsche por Gianni Vattimo

“Nietzsche é um pensador decisivo para o nosso presente
e ainda repleto de futuro.”

Gianni Vattimo
,
Diálogo Com Nietzsche
 (Ed. Martins Fontes, 2010)

* * * * *

INEXAURÍVEL MINA DE DINAMIETZCHE

 A radicalidade, a iconoclastia e a rebeldia do pensamento de Nietzsche talvez expliquem seu status de perpétuo outsider da Civilização Ocidental: ele prossegue uma figura maldita, sempre reprimida e reduzida ao silêncio pelos defensores da religião e da moral, mas cuja obra poderosa e inquietante resiste e persiste, inspirando todos aqueles que concordam com este sinistro diagnóstico: “o homem como existiu até agora tem em si todos os defeitos e as neuroses de um cachorro envelhecido na corrente” (Vattimo: 2010, pg. 236). Se Nietzsche ainda está tão vivo e prossegue “repleto de futuro”, como diz Vattimo, é pois existe nele um apelo intenso à libertação e muitas pistas que indicam o caminho para ela.

 “A totalidade desse pensamento”, aponta Vattimo, “entra em choque com nossos modos de pensar mais arraigados, questionando-os violentamente” (pg. 50) O que explica a impressionante repercussão do pensamento de Nietzsche, que ecoou por todo o século 20 e prossegue seu trabalho de dinamite em nosso jovem século 21, além do talento literário exorbitante de Nietzsche como escritor, talvez seja a imensa força libertária desta filosofia. Ela seduz todos os que querem romper as cadeias psíquicas, quebrar os feitiços da submissão, libertar-se de mistificações mentirosas, despertar de todas as farsas culturais, ideológicas, religiosas ou políticas que foram e continuam sendo inculcadas nos humanos rebanhos.

 Foi ele, Nietzsche, quem “exercitou mais do que qualquer outro pensador moderno a desmitificação” (p. 64), alega Vattimo, apontando que há, neste sentido, uma afinidade entre o nietzschianismo e “duas linhas de pensamento de nossa época: o marxismo e a psicanálise”. “O que aproxima esses fenômenos, para além das muitas diferenças, é a vontade desmitificante que os domina.” (p. 112)

 Mas Vattimo adiciona uma ressalva importante: Nietzsche não somente quer expor as mentiras mitificadoras, mostrando “a verdadeira face que se esconde atrás de sua máscara” (pg. 64). Acreditar em uma Verdade que se esconderia por detrás das mitificações: eis algo que Nietzsche problematiza, questiona e põe em dúvida. A ponto de Vattimo dizer que “o mito que Nietzsche mais intensamente se dedicou a destruir é precisamente a crença na verdade.” (p. 115) Para compreender o que isso quer dizer, creio que é preciso relembrar da batalha feroz que Nietzsche empreende contra seu inimigo maior: a filosofia socrática/platônica e o cristianismo que nela baseou-se (este não passaria, vocês se lembram bem, de “platonismo para o povo”).

 Por causa de seu rompimento radical com a tradição platônica-cristã, Nietzsche não acredita mais na contraposição ou no contraste entre um Mundo Sensível (que é tido como meramente aparente, ilusório, insubstancial…) e um Mundo Verdadeiro (onde residiriam as “coisas em si”, as ideias eternas, tudo aquilo que goza da imortalidade negada aos fenômenos…).

* * * * *

CRISTIANISMO: UMA FORMA DE NIILISMO

Se Nietzsche tanto critica a “decadência” da humanidade, é pois está sempre imbuído de uma intensa nostalgia pela Grécia gloriosa dos pré-socráticos, dos trágicos, dos líricos. A Civilização Cristã, em comparação com a Grécia, parece-lhe medíocre, doente, neurótica. Eis uma longuíssima ladeira abaixo, portanto, esta que estivemos descendo por uns 2.000 mil anos, à sombra da cruz e seguindo ovelhisticamente o cajado ascético dos pastores!

“Decadência, para Nietzsche, é a ciência que se desenvolve a partir do racionalismo socrático, e que se harmoniza perfeitamente com a moral cristã, para a qual o mundo real com que temos de lidar todos os dias é apenas provisório e aparente (como eram as coisas sensíveis para Platão, apenas imagens das ideias eternas), e tem sua autêntica verdade no mundo do além, prometido aos fiéis após a morte. A decadência da civilização europeia é um efeito da atitude ascética imposta tanto pelo racionalismo socrático-platônico quanto pelo cristianismo…” (304)

Nietzsche é ao mesmo tempo inimigo do niilismo e do cristianismo. Não é à toa: o cristianismo é justamente uma das formas do niilismo, uma doutrina que desvaloriza o mundo real, que calunia a natureza, que lança o valor para um “outro mundo” de conto-de-fadas. Vattimo: “Cristianismo, moral e metafísica são os componentes essenciais do niilismo; e eles são dominados pelo instinto da vingança.” (p. 35) Como aprende-se na Genealogia da Moral, o cristianismo é uma religião nascida do ressentimento dos escravos que, pisoteados pelo Império Romano, inventaram em sua impotência uma doutrina que lhes garante a vitória sobre os opressores. Estes oprimidos e desvalidos que, na origem, inventam e disseminam o cristianismo, ao mesmo tempo “criam uma tábua de imperativos em que dominam as virtudes do rebanho e da passividade.” (p. 37) Blessed are the meek. O nietzschianismo em uma pílula: “Os falsos caminhos que o homem do passado tomou para elevar-se acima de si mesmo são todos fundados na oposição de um mundo eterno ao mundo do devir. (…) Mas a fé na transcendência impede uma plena reconciliação com o mundo como ele é.” (p. 317)

 A morte de Deus, ou a perda da fé, não equivale a uma perda real: perde-se um fantasma, mas ganha-se com isso um aumento da responsabilidade humana. Deixar de crer em Deus, portanto, é uma libertação para a plena tomada do leme da barcola da vida em nossas próprias mãos:toda responsabilidade recai sobre nós. A morte de Deus, que Zaratustra anuncia, não é outra coisa que o fim das garantias de que o homem da metafísica tradicional se rodeara para se livrar da responsabilidade plena por seus atos. O homem novo que Nietzsche projeta e para o qual quer preparar o caminho com seu pensamento é o homem capaz de assumir plenamente suas próprias responsabilidades.” (p. 69)

 Compreende-se melhor, pois, que Nietzsche tenha tentado demolir também a crença na Verdade, ou seja, numa Verdade que está em Outro Mundo, ou em Deus, ou que fosse algum fundamento metafísico para os valores. Sobre este assunto, Vattimo explica:

 “O sujeito pensante que sai em busca dos ‘verdadeiros’ fundamentos dos valores em que se baseia nossa civilização, e em geral de tudo o que de humano e de digno existe no mundo, descobre ao final que até mesmo seu impulso para a verdade, sua fé na existência de uma verdade como fundo estável e certo, é ainda, por sua vez, mentira, produto cultural, meio para prolongar a grande festa teatral da existência. (…) A crítica da ideologia realizada apenas do ponto de vista da busca de uma verdade mais fundamental para apoiar os pés sempre levou, até agora, à reconstituição de castas mais ou menos sacerdotais: comitês centrais, sociedades de psicanalistas ‘autorizados’, mestres de vida e gurus de todos os tipos.” (p. 278-280)

 NIETZSCHE NÃO É SÓ DINAMITE…

 Qualquer um que se aventure a ler Nietzsche a fundo logo percebe: este iconoclasta e desmitificador, que dizia filosofar a golpes de martelo e ser menos um homem do que uma banana de dinamite, não é somente um destruidor. Ele não quer reduzir tudo a escombros e nada mais: “a desmitificação é um aspecto vinculado necessariamente à criação de novos mitos” (66). A ambição de Nietzsche não é somente lançar por terra e reduzir a pó a mitologia judaico-cristã, mas sugerir ideais alternativos, estilos-de-vida que ele julga mais dignos do futuro da humanidade do que a ancestral adoração do Crucificado. Por que não adoraríamos Dionísio ao invés de Cristo?

 Na obra de Nietzsche, portanto, mesclam-se as diatribes de um misantropo, que dá vazão a todo o seu fel e amargor contra seus medíocres contemporâneos, e as profecias poéticas de um messias de tempos novos. Diz Zaratustra (II: “Da Redenção”): “O presente e o passado aqui embaixo, meus amigos, me são insuportáveis, e eu não seria capaz de viver se não fosse um adivinho do que está por vir.” Em outro momento (III: “Do Grande Anelo”): “quem conhece como tu a volúpia das coisas por vir? Despojei-te da obediência, das genuflexões, das senilidades…”. Resta perguntar se não é possível estar de joelhos diante do futuro, obediente ao ideal dos amanhãs cantantes, e se o porvir glorioso não faz às vezes de um ópio substitutivo para aqueles que descriram dos ópios comuns…

 O Übbermensch – Super-Homem ou Além-do-Homem – é este mito novo que Nietzsche sugere como substituto para o antigo. Vattimo recomenda que convêm “não exorcizar sua carga subversiva reduzindo-o à proporção de um mito literário” (172): mais que um mero personagem literário ou ficção poética, o Além-do-Homem nietzschiano é uma sugestão de uma nova via para a humanidade:

“o super-homem de Nietzsche deve ser entendido como o anúncio de uma humanidade essencialmente diferente daquela que conhecemos e vivemos até agora; o super-homem é o homem capaz de não experimentar mais o valor como objeto separado, encarnando-o, ao contrário, totalmente na própria existência. (…) A esse enfoque se ligam outros temas interpretativos, como o da recuperação do homem total contra a fragmentação (e a divisão do trabalho), que mais diretamente sublinham a proximidade do super-homem nietzschiano com o projeto revolucionário marxista” (p. 166).

Aí se encontra uma das originalidades maiores da leitura de Vattimo: ele discorda veementemente de todas as apropriações nazi-fascistas da obra de Nietzsche e, como bom comunistão, chama Nietzsche para o time dos pensadores revolucionários, com os quais o proletariado teria muito a aprender em sua jornada rumo à libertação. Na opinião de Vattimo, encontra-se em Nietzsche “um projeto humano alternativo que, por ser mais atento às dimensões individuais, psicológicas e pulsionais da existência, pode oferecer ao movimento revolucionário do proletariado indicações válidas para a busca dos conteúdos morais alternativos que ele, por razões históricas e pelas próprias condições de exploração e de opressão, não foi capaz de elaborar.” (173)


O MUNDO DO ALÉM-DO-HOMEM É O MUNDO DA PLURALIDADE LIBERTA

Não parece despropositado nem absurdo à Vattimo falar em uma sabedoria nietzschiana. “Imaginamos espontaneamente o sábio como um velho, que no rosto encovado e nas rugas, no olhar distante e no discurso lento e solene, mostra os sinais de muitas experiências que o modificaram, ensinando-lhe, quase sempre por meio do sofrimento dos fracassos e do esforço das realizações, o verdadeiro sentido da vida. O velho lema da tragédia grega, aprende sofrendo, parece indelevelmente impresso na imagem comum da sabedoria.” (228)

 Será que o fato de Nietzsche ter morrido relativamente jovem, ou seja, de não ter atingido esta “idade das rugas” de que fala Vattimo, é o que basta para que recusemos a ele, sem mais reflexão, a qualificação de sábio? Tendo vivido uma existência profundamente sofredora, e tendo se dedicado tão visceralmente a meditar sobre a vida no próprio epicentro do furacão, não será Nietzsche um dos exemplos supremos, na filosofia dos últimos séculos, deste homem trágico que aprende sofrendo? Não é nesta direção que vai também a interessantíssima análise de Nietzsche que empreende Léon Chestov?

 Vattimo parece defender ao menos a possibilidade de que haja sabedoria em Nietzsche, contra aqueles críticos que fazem do “enlouquecimento de Nietzsche um sinal da justa punição que espera quem deseja ir muito acima, além do bem e do mal, e pretende superar os limites humanos em nome do ideal do super-homem.” (229) Ou seja: o naufrágio na loucura não prova que Nietzsche fosse insensato, mas denota que, além das causas propriamente fisiológicas que o atacaram, havia nele uma “radical impossibilidade de pertencer ao mundo a que pertencemos.” (p. 51)

 Onde estaria, pois, esta “sabedoria” que Vattimo (e tantos outros leitores e intérpretes!) julgam encontrar em profusão na obra nietzschiana? Sabe-se dos veementes protestos de Nietzsche contra o que ele chamava de “resignacionismo”, uma das razões que teve para romper com seu mestre de juventude, Schopenhauer. O ideal de Nietzsche, pois, não poderia estar na mera adaptação resignada e fatalista ao mundo. Como diz Vattimo, “o super-homem é aquele que institui com o mundo uma relação que não é o puro e simples reconhecimento da realidade como ela é, e tampouco uma ação moral referente apenas ao sujeito, mas uma verdadeira relação de recriação do próprio mundo, redimido do acaso e da brutalidade do evento numa criação poética em que vigora uma nova necessidade.” (11)

 O ideal de vida nietzschiano, portanto, varre para longe aquilo que foi entronado como virtude pela tradição judaico-cristã, e mesmo por filósofos como Platão e Schopenhauer: a ascese ascética e a resignação fatalista. “No lugar da ascese, entra um temperamento bom, uma alma segura, branda e no fundo alegre, que não tem nada do tom de resmungo e teimosia – essas características notórias e desagradáveis de cães e homens velhos que ficaram muito tempo acorrentados.” (271)

 Como um dos mais importantes filósofos a terem empreendido uma vasta e radical “crítica da cultura”, Nietzsche nos legou um trabalho sobre tudo aquilo que “marca profundamente a psicologia individual do homem moderno. Uma das características do homem contemporâneo em que Nietzsche mais insiste é a incapacidade de sair do imediato, de desejar em relação com o eterno, a restrição do desejo à esfera egoísta dos pequenos interesses… Perdida a fé em uma ordem providencial e imerso no fluxo irrefreável das coisas, o homem vive sua vida psíquica segundo um tempo que musicalmente seria possível definir como prestíssimo…”

 Estamos em território familiar: o homem individualista, consumista, mesquinho, faminto de prazeres imediatos, que não conhece seu passado e não se preocupa com seu futuro, “tipo” de que nossas metrópoles ocidentais estão repletas, é justamente o “homem” que precisa ser superado: ir além dele já é caminhar sobre este fio sobre o abismo que conduz ao Além-do-Homem. Vattimo sabe, como Nietzsche também sabia, que as civilizações são mutantes, que a roda da História não pára e que não há nada de mais insensato do que apostar que o futuro será idêntico ao presente. Estamos numa época de acelerada mutação e mudança. E Nietzsche, filósofo autenticamente heraclitiano, é um guia essencial para nós que descemos a correnteza destes tempos.

 “A vida não tem mais a estabilidade que tinha nas sociedades de desenvolvimento lento que deixamos para trás. O caso extremo das novas possibilidades que a pesquisa recente abriu para a manipulação genética, que nos coloca diante do inusitado desafio de uma modificação dos “códigos” da vida, talvez seja apenas o exemplo mais emblemático da nova condição com que nossa arte de viver tem de lidar.” (p. 229)

 Vattimo refere-se a um processo de “efetiva pluralização dos mundos” decorrente do “fim do colonialismo” e do “encontro de culturas” (234). Se Nietzsche é um pensador ainda com tanto futuro, é também pois ele nos auxilia, em plena era da globalização e da Aldeia Global, a encontrar uma sabedoria no próprio seio do multi-culturalismo. “Trata-se de um ideal de vida e de sabedoria que acaba por indicar como meta do aperfeiçoamento moral um sujeito ‘plural’ capaz de viver a própria interpretação do mundo sem necessidade de acreditar que ela seja ‘verdadeira’ no sentido metafísico da palavra, no sentido de alicerçar-se em um fundamento certo e inabalável.” (p. 235)

 O “super-homem” seria, comenta Vattimo, dotado de uma “abertura fundamental para a pluralidade das interpretações” (238) e portanto estaria nos antípodas do “fundamentalista” dogmático:

 “O fundamento último que sempre justificou os mais impiedosos fanatismos da história da violência humana não é substituído pela vontade de um eu assumido como último e indiscutível absoluto”, aponta Vattimo, involuntariamente pontuando o abismo que separa Nietzsche, por exemplo, do Marquês de Sade – este, que alça as arbitrariedades do eu ao status de um absoluto tirânico. Para Nietzsche, o ideal seria um “eu que é um centro de hospitalidade e de escuta de vozes múltiplas, um mutável arco-íris de símbolos e chamados que está tão mais próximo do ideal quanto menos se deixa encerrar em uma forma dada de uma vez por todas.” (p. 239)

[por Eduardo Carli, Goiânia, Agosto ’12]

“O Capitalismo é moral?”, de André Comte-Sponville (Ed. Martins Fontes, 2005, trad. Eduardo Brandão)

ANDRÉ COMTE-SPONVILLE
“O CAPITALISMO É MORAL?”
ED. MARTINS FONTES

“Faço parte da chamada Geração 68, e se isso não me dá nem orgulho nem vergonha, guardo desse pertencimento algumas das minhas mais belas lembranças. […] A moda, naqueles anos, era o imoralismo, a libertação geral e irrestrita. Os mais filosóficos dentre nós reivindicavam Nietzsche: queríamos viver além do bem e do mal. Quanto aos que não eram filosóficos, contentavam-se em pichar os muros da faculdade os belos lemas de então: “É proibido proibir!” ou “Vivamos sem tempos mortos, fruamos sem limites!”

O apoliticismo, então, era quase inimaginável. O engajamento, quase uma evidência. Naqueles anos de 60-70, tudo era política. […] Uma boa política nos parecia ser a única moral necessária. Uma ação nos parecia moralmente válida se fosse, como dizíamos, politicamente justa. Moral de militante, cheia de boa consciência e entusiasmo.

Meu melhor amigo daqueles anos… não faria mal a uma mosca (a não ser, talvez, a uma mosca de extrema direita). Mas a moral lhe parecia uma ilusão inútil e nefasta. Ele era ao mesmo tempo nietzschiano e marxista, como muitos de nós. […] A moral? Ideologia servil e judaico-cristã. O dever? Idealismo pequeno-burguês. Disparávamos flechas incendiárias contra o estado-maior da consciência. Abaixo a MORALINA!, como dizia Nietzsche, viva a Revolução e a liberdade!”

Da geração de 68 – “geração do tudo política” – à geração atual ocorreu uma “crise considerável da política. É na medida em que os jovens de hoje têm cada vez menos a sensação de poder influir coletivamente sobre seu destino comum – o que é a verdadeira função da política – que eles tendem a encerrar-se no terreno dos valores morais. […] De um lado, não podemos deixar de nos felicitar com o fato de que os jovens empreendam uma espécie de retorno a uma forma de exigência moral ou humanista; de outro lado, que o façam em tamanho detrimento de toda e qualquer ação propriamente política é algo que não pode deixar de nos preocupar.

O “TRIUNFO DO CAPITALISMO”?

A expressão “o triunfo do capitalismo” me deixa um tanto perplexo. Não que eu conteste o desmoronamento do bloco soviético, no final dos anos 80. Mas, quando dois sistemas estão em concorrência um com o outro, nada prova que o desmoronamento de um seja o triunfo do outro. Os dois poderiam ruir: a coisa não é nem logicamente, nem historicamente inconcebível. O fracasso de Spartacus não bastou para salvar o Império Romano…

O capitalismo, apesar de seus desacertos, apesar das suas injustiças, que são incontáveis, desfruta de uma espécie de quase monopólio ideológico. Surge a desconfiança de que ele venceu seu adversário histórico (o comunismo) por nada. Para que vencer, quando não se sabe por que viver? […] O Ocidente tem ainda alguma coisa a propor ao mundo? Acredita o bastante em seus próprios valores para defendê-los? Ou, incapaz de praticá-los, não sabe fazer outra coisa que produzir e consumir – que fazer negócios, à espera da morte? […]”

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A MORTE DE DEUS

A chamada “morte de Deus” é um processo que se estendeu por vários séculos. Começou na Renascença, acelerou-se no século XVIII, em torno do chamado Iluminismo, e continuou ao longo dos séculos XIX e XX inteiros. Constatamos hoje, na França, seu quase acabamento. Esse processo é um processo de laicização, de secularização, de descristianização.

Era esse processo que Nietzsche diagnosticava, já no fim do século XIX, ao falar da morte de Deus. É esse mesmo processo que o sociólogo Max Weber analisava a seu modo ao falar de “desencantamento do mundo”. […] Falar da morte de Deus não quer dizer que hoje seria impossível acreditar em Deus. Claro que continua sendo possível! […] Mas a fé, hoje em dia, pertence unicamente à esfera privada, como dizem os sociólogos: continuamos podendo , individualmente, acreditar em Deus; mas não podemos mais, socialmente, comungar nele… nossa sociedade não pode mais basear nele sua coesão.

O que hoje nos ameaça é o que chamarei de uma era da negligência generalizada, isto é, uma dissolução da ligação, do vínculo social, de tal sorte que nossos concidadãos, tornando-se incapazes de comungar no que quer que seja, não podem mais fazer outra coisa senão cultivar sua estreita esfera privada – o que os sociólogos chamam de TRIUNFO DO INDIVIDUALISMO, ou, no franglês costumeiro deles, de COCOONING. […] O individualismo, o cocooning, dá ótimos consumidores…

Minha inquietação é que essa morte social de Deus, em nossos países, seja ao mesmo tempo o desaparecimento, pelo menos no Ocidente, de toda vida espiritual digna desse nome. A tal ponto que, com o esvaziamento das igrejas, só saibamos preencher nossa manhã de domingo com o supermercado… Seria um erro rejubilar-se com isso. Permitam que o ateu que sou lhes diga que este, o supermercado, não substitui aquela, a igreja.”

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Durante 20 séculos de Ocidente cristão, no fundo era Deus que respondia à pergunta “O QUE DEVO FAZER?” – que é a questão moral – por seus mandamentos, seus sacerdotes, sua Igreja. […] Mas eis que à pergunta “que devo fazer?”, Deus não responde mais. Ou, mais exatamente, eis que suas respostas se tornam socialmente cada vez menos audíveis… Todas as pesquisas confirmam que uma maioria de cristãos praticantes não se sente mais obrigada pelas injunções morais da Igreja ou do papa – basta pensar nos problemas da contracepção ou da sexualidade fora do casamento. Quantos cristãos que aclamaram João Paulo II fazem verdadeiramente questão de se casar virgens? Quantos renunciaram definitivamente à pílula e à camisinha?

Muito ingênuos eram os que acreditavam que o ateísmo suprimia a questão moral. “Se Deus não existe”, dizia um personagem de Dostoiévski, “tudo é permitido”. Eu diria o contrário: se Deus existisse, poderíamos a rigor nos permitir tudo, em outras palavras, entregar nas mãos dele o problema. Necessitamos tanto mais de moral quanto menos temos religião – porque temos de responder à questão “que devo fazer?” quando Deus não responde mais.

Necessitamos de moral, hoje, sem dúvida muito mais que em qualquer outra época conhecida da humanidade civilizada. Porque nunca, desde há trinta séculos, conheceu-se uma sociedade a tal ponto laicizada; nunca, desde há trinta séculos, conheceu-se uma sociedade tão pouco religiosa, em suas profundezas, quanto a nossa.

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Imagine um indivíduo perfeitamente respeitoso da legalidade do país em que vive, que faria sempre o que a lei impõe, que nunca faria o que a lei veda – o legalista perfeito. Mas que se ateria unicamente a essa determinação. Ora, nenhuma lei veda a mentira. Nenhuma lei veda o egoísmo. Nenhuma lei veda o desprezo. Nenhuma lei veda o ódio. Nenhuma lei veda – vejam só – a maldade.

De modo que nosso indivíduo perfeitamente legalista poderá, em plena conformidade com a legalidade republicana, ser mentiroso, egoísta, cheio de ódio e desprezo. O que ele seria, então, senão um canalha legalista?

[…] Na Sorbonne, costumo propor a meus alunos o seguinte tema: “O povo tem todos os direitos?” Corrijo os trabalhos e descubro que a quase totalidade dos nossos alunos, com uma boa consciência democrática um tanto inquietante, me respondia que sim, claro, o povo tem todos os direitos: é assim que tem de ser, é o que se chama democracia.

Devolvo os trabalhos… Digo a eles: “Tudo bem, o povo tem todos os direitos. Logo… tem o direito de oprimir esta ou aquela minoria, por exemplo, votando leis antijudaicas; logo… tem o direito de praticar o assassinato legal, por exemplo, abrir campos de concentração; logo… tem o direito de deflagrar guerras de agressão… O que então – perguntei a eles – vocês criticam em Hitler, que por sinal foi nomeado chanceler em 1933 de uma forma mais ou menos democrática?”

A democracia, e na Europa estamos bem situados para sabê-lo, não é de forma alguma uma garantia, nem mesmo contra o pior. […] De modo que se quisermos escapar, coletivamente desta vez, desse espectro do povo que teria todos os direitos, inclusive do pior, somos também obrigados a limitar essa ordem jurídico-política. Temos duas razões para querer limitá-la: uma razão individual, para escapar do espectro do canalha legalista, e uma razão coletiva, para escapar do espectro do povo que teria todos os direitos, inclusive de fazer o pior.

[…] Há coisas que a lei autoriza e que no entanto devemos nos vedar, outras que a lei não impõe, que no entanto devemos nos impor. Um projeto de lei racista, mesmo se a Constituição o possibilitasse, seria moralmente imperativo rejeitá-lo. […] O amor à liberdade não está submetido à democracia: uma maioria totalitária nunca impedirá que os espíritos livres amem a liberdade.

O amor infinito não tem por que ser temido. Por duas razões: a primeira é que não se poderia desejar nada melhor que o amor infinito; a segunda é que, cá entre nós, não é o amor infinito propriamente o que nos ameaça… “A única medida do amor”, dizia Agostinho, “é amar desmedidamente”. Estamos longe disso, quase todos, quase sempre. O amor, no mais das vezes, só brilha por sua ausência. O amor, para quase todos, é o valor supremo. […] Todos, crentes ou descrentes, devem habitar neste mundo a finitude do amor, logo (já que ele se pretende infinito) sua incompletude também; é o que se chama ética, e que a torna necessária.”

O CAPITALISMO É MORAL?

É sabido desde Rabelais: “Ciência sem consciência é ruína da alma”. […] Minha tese é radical: nessa primeira ordem, a ordem econômica tecnocientífica, nada nunca é moral. […] Só as criancinhas pequenas é que acreditam que a chuva é boazinha, ao fazer as flores e as verduras crescerem, e malvada, ao produzir inundações ou não as deixar jogar bola…. Nós sabemos muito bem, no entanto, que a chuva nunca é nem boazinha nem malvada, nem moral nem imoral: ela está submetida a leis, a causas, a uma racionalidade imanente, que não tem nada a ver com nossos juízos de valor.

A mesma coisa vale para as cotações do petróleo e do euro: elas não dependem de maneira nenhuma da moral, mas sim do andamento geral da economia, das relações de forças (inclusive de forças políticas: a potência dos EUA, por exemplo…) na escala do mundo, enfim da lei da oferta e da procura. […] Não é a moral que determina os preços; é a lei da oferta e da procura. […] O capitalismo não é moral; mas também não é imoral; ele é – e é total, radical, definitivamente – AMORAL.

O objetivo de Marx, no fundo, era moralizar a economia. Ele queria que a ordem econômica fosse enfim submetida à ordem moral. É o que se joga, na sua obra, em torno das noções de alienação e exploração. […] Marx queria acabar com a injustiça, não por uma simples política de redistribuição, mas… inventando outro sistema econômico que tornaria enfim os seres humanos economicamente iguais. […] É aí que encontramos a dimensão utópica do marxismo. Para que o comunismo, tal como Marx o concebeu, tivesse uma chance de triunfar, era necessário pelo menos uma coisa: que os homens parassem de ser egoístas e pusessem enfim o interesse geral acima do seu interesse particular.

[…] A jogada genial do capitalismo, ao contrário, está em não pedir aos indivíduos nada além de serem exatamente o que são: “Sejam egoístas, cuidem do seu interesse, e não é que tudo correrá às mil maravilhas no melhor dos mundos possíveis…”

A análise que faz Marx do capitalismo continua sendo, son muitos aspectos, uma das mais esclarecedoras. […] O capitalismo é um sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção e de troca, na liberdade do mercado e no trabalho assalariado. […] Os que possuem a empresa (os acionistas) vão portanto fazer trabalhar – com base num contrato voluntário e em troca de um salário – os que não a possuem (os assalariados). Os acionistas só tem interesse em firmá-lo porque os trabalhadores produzem mais valor do que recebem: é o que Marx chama de mais-valia. […] A única maneira de satisfazer o acionista é, evidentemente, satisfazer o cliente… inclusive vendendo-lhe, se a este aprouver, produtos que lhe fazem mal: fumo, álcool, programas de TV idiotizantes…

O capitalismo serve para produzir, com riqueza, mais riqueza. Estou apenas retomando uma das definições canônicas do que é um capital: riqueza criadora de riqueza. […] Alguns enriquecem sem trabalhar, outros se esgotam no trabalho e continuam pobres. Vocês acham isso moral? Vão responder que um rico pode se arruinar, que um pobre pode fazer fortuna… Às vezes acontece, mas… a melhor maneira de morrer rico, num país capitalista (mas também era assim num país feudal!) ainda é nascer rico. […] Isso não é motivo para nos pormos de joelhos diante dele. […] Se o mercado virasse uma religião, seria a pior de todas, a do bezerro de ouro. E a mais ridícula das tiranias, a da riqueza.

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A coisa se torna inquietante quando, de tanto repetir que o Estado é grande demais, acaba nascendo a tentação de que não tem de haver mais Estado algum, ou só tem de haver um Estado mínimo, que deixaria funcionar os célebres mecanismos auto-reguladores do mercado. O único problema é que, nesse caso, não é mais o povo que é soberano: são os capitais ou os que os possuem. Portanto não se está mais numa democracia. Barbárie liberal: tirania do mercado.

Conhecemos pelo menos um caso… é o Chile de Pinochet. Você toma o poder com um golpe de Estado militar (o povo, esses incompetentes que elegeram Allende, fica assim fora de jogo por vários anos), assassina um pouco, tortura muito, mas gestão não é sua especialidade: essa tarefa você confia a alguns especialistas, muitas vezes saídos das melhores universidades americanas, dentre os quais vários alunos ou colegas (os “Chicago boys”, dizia-se então) do liberalíssimo e futuro prêmio Nobel, Milton Friedman… A política econômica é marcada por privatizações, supressão do controle dos preços, abertura para a concorrência internacional… Ou seja, você retira o máximo possível de poder do Estado e dos sindicatos, dá o máximo possível de poder ao mercado e aos empresários… Ora, o Chile de Pinochet não é uma democracia. […] Numa democracia, o povo é que é soberano, o que exclui que os mercados o sejam. […] O povo é que é soberano, o que exclui ou deve excluir (se os democratas derem mostra de vigilância) que Wall Street o seja. […] O mercado e as empresas não são muito bons para criar justiça; somente os Estados têm uma chance de criá-la, mais ou menos.

O integrismo religioso – ou “angelismo” – quer que a religião diga o bem e o mal, o legal e o ilegal, o verdadeiro e o falso. Mas se Deus é soberano, como o povo poderia sê-lo? Por exemplo: essas seitas protestantes que pretendem proibir, nos EUA, o ensino do darwinismo nas escolas, a pretexto de que é contrário aos ensinamentos do Gênesa, na Bíblia… É o momento de recordar, com Rilke, que “todo anjo é assustador”. O angelismo não é menos perigoso que a barbárie, às vezes é até mais. É quase sempre em nome do Bem que se autoriza o pior. […] Se Bush e Bin Laden não estivessem tão convencidos de representar o Bem, ou Deus mesmo, poderíamos temer menos a política deles…

O mais grave, na guerra americana contra o Iraque, não é que ela tenha sido decidida para defender os interesses dos EUA; é que ela os defenda mal (o balanço global, mesmo de um ponto de vista americano, corre o risco de ser terrivelmente negativo), desdenhando o direito internacional e fazendo pouco-caso dos milhares de mortos que ia acarretar.

Ora, por que essa guerra? Por medo das armas de destruição em massa? Para assegurar a segurança do povo americano? Para barrar o terrorismo? Pelo petróleo? Todorov mostra que nenhuma dessas explicações se sustenta. Essa guerra também se fez, e quem sabe se fez sobretudo, em nome do Bem e da Liberdade, digamos em nome dos valores da democracia liberal. Isso, longe de justificá-la, só a torna mais inquietante. Porque, onde é que se vai parar? Quem decidirá o que é o Bem e o que é o Mal? Fazer a guerra em nome de um Bem absoluto é o princípio das cruzadas, e não conheço princípio mais pernicioso. É angelismo moralizador (se não teológico, quando invoca o nome de Deus), bastante comparável, quanto ao fundo, ao de Bin Laden.

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Alguém que põe o dinheiro acima do amor é o que chamamos de um pobre coitado. […] O crescimento, em princípio indefinido, da economia (sempre é possível, teoricamente, acrescentar riqueza à riqueza) vem se chocar, cada vez mais, contra os limites, estritamente finitos, da ecologia. […] Se os 7 bilhões de seres humanos vivessem como vivem os ocidentais (com o mesmo consumo de água potável, de proteínas animais e de energias não renováveis), o planeta não aguentaria dez anos. A situação planetária é dramática… pois a elevação ou a manutenção do nível de vida se choca cada vez mais com os limites do planeta. Daqui 30 anos, diziam-me alguns peritos, não haverá mais petróleo e a água potável terá se tornado um artigo raro. […] A humanidade, que fez progressos tão consideráveis nos últimos dez mil anos, saberá controlar as consequências desse progresso?”

Comte-Sponville

Max Stirner e o fim do Império dos Ideais (Abaixo as fantasias febris da função fabulatriz!)

Publicada em 1844, O Único e sua Propriedade, dinamite em formato de livro do “provocador filosófico” Max Stirner, causou “grande alvoroço” na Alemanha de seu tempo. “Por sua radicalidade anarquista individualista foi rejeitado oficialmente como escandaloso ou absurdo pelo meio filosófico acadêmico” (SAFRANSKI: 113). Apesar de ter sido proscrito do mundo intelectual “sério” e tratado como um pária pelos doutores em suas togas, Stirner fascinou e instigou grandes espíritos de sua época, de Karl Marx (“que foi levado a escrever uma crítica dessa obra, mais ampla do que o livro criticado, e que mesmo assim não publicou”) a Feuerbach (que “escreveu a seu irmão que Stirner era o ‘escritor mais genial e livre que conheci’).

Outra das mais poderosas mentes do século XIX, Friedrich Nietzsche, muito provavelmente sofreu o impacto do pensamento stirneriano. Segundo o biógrafo Rüdiger Safranski, logo depois do colapso de Nietzsche em Turim, “desencadeou-se na Alemanha uma disputa acirrada sobre se Nietzsche teria conhecido Stirner e se deixara estimular por ele” (113) – e houve até aqueles que acusaram o autor do Zaratustra de ter plagiado idéias stirnerianas. Algumas pessoas que conheceram Nietzsche, inclusive alguns de seus alunos, garantem que El Bigodón citava Stirner como um pensador em quem reconhecia uma espécie de parentesco espiritual e uma semelhança de diagnósticos e objetivos filosóficos.

 O Único e sua Propriedade, principal obra de Stirner, é uma crítica radical de todas aquelas causas sagradas e missões celestiais que algumas doutrinas querem sugerir que é dever do homem honrar com submissão e sacrifício. “Há tanta coisa a querer ser minha causa! A começar pela boa causa, depois a causa de Deus, a causa da humanidade… para além disso, a causa do meu povo, do meu príncipe, da minha pátria e, finalmente, até a causa do espírito e milhares de outras. A única coisa que não está prevista é que a minha causa seja a causa de mim  mesmo!”(9) Ateu convicto, Stirner é um crítico profundo de todo idealismo e toda superstição: “No cerne do ser humano”, escreve Safranski, “ele descobre uma força criadora que produz fantasmas, para depois deixar-se oprimir pelos próprios produtos” (SAFRANSKI: p. 115).

A pretensão dos detentores do poder pastoral de serem peritos em matéria de causas que estaríamos destinados a servir por imposição de forças transcendentes é “desmontado” pela acidez do pensamento de Stirner até que se revele como um jogo espectral de fantasmagorias e tapeações. “Os homens em geral não são levados em consideração quando se crê no mandamento ‘é preciso obedecer mais a Deus do que aos homens’ (alusão às palavras de Pedro e dos apóstolos, Atos 5, 29). A partir deste ponto de vista elevado, tudo o que é ‘terreno’ é remetido para a distância e desprezado – porque o ponto de vista agora é o celestial.” (27)

O advento do Cristianismo é descrito por Stirner, tal qual em Nietzsche, como uma “indesmentível inversão de valores” (25) em relação ao que vigia no século de Péricles, auge da cultura dita “sofista”. Descrito como “inovador revolucionário” e “herdeiro desrespeitador” em relação ao judaísmo, o Cristianismo “dessacralizou o sábado dos pais para consagrar o seu domingo e interrompeu o curso do tempo para dar início a uma nova contagem sua.” (24) Evidência clara de que ainda não nos libertamos disto é o fato de ainda estarmos presos a uma contagem de anos e de séculos que tomam como referência primeira o nascimento de Cristo: dizemos que estamos em 2012 d.C., e não, como seria plenamente justificável caso outra tendência cultural tivesse triunfado, 2.509 depois de Sófocles ou 448 depois de Shakespeare…

O cristão que acredita que a morte lhe abrirá as portas para que adentre a pátria celeste, a Jerusalém lá de cima, tenderá a postular que o mundo terreno é vão, corrupto e sem valor, sentindo-se estrangeiro sobre esta Terra pecaminosa, já que aspira imaginariamente à perfeição da morada dos Céus. Esta idealização de um Além perfeito, onde o devoto imagina que um dia habitará, gera, no presente, uma aguçada batalha contra o sensível e um encarniçado desprezo do mundo, do corpo e dos desejos carnais.

Mas não são somente os cristãos que aderiram a uma perspectiva como esta, é claro, e Stirner reconhece alguns “predecessores” desta atitude nos estóicos, nos céticos e nos místicos orientais hindus (que procuram “alcançar um grau de insensibilização terrena que apenas tolera o ciciar monótono da palavra Brahma” – 33). O Cristianismo seria, portanto, uma dentre muitas doutrinas que pregaria o distanciamento em relação à realidade terrena e faria da apatia, da impassibilidade e da imperturbabilidade em relação ao sensório e ao carnal… virtudes santas.

“O cristão ama apenas o espírito – mas onde está o indivíduo que realmente seja espírito e nada mais?” (37) O cristão, segundo Stirner, devido ao ideal que possui do que um homem deveria ser, não cessa de condenar os homens de carne-e-osso por não serem a encarnação deste ideal espectral que ele imaginariamente lhes impõe. “Os homens só existem para serem criticados, ridicularizados, profundamente desprezados: eles são, não menos que para o padre fanático, apenas ‘esterco’…” (37).

O cristianismo, que também segundo Nietzsche depositou sobre os ombros da humanidade o pesado fardo da culpa e tentou inculcar a noção de que somos todos pecadores, lança seu anátema e acende suas fogueiras contra os homens que julga não fazerem jus ao seu ideal. E uma das figuras mais anatemizadas é, segundo Stirner, a do “egoísta”:

“…quem é para ti o egoísta? Um ser humano que, em vez de viver para uma idéia, ou seja, uma causa espiritual, sacrificando a ela seus interesses pessoais, serve a estes últimos.” (42) Pode-se dizer, por exemplo, que o egoísta, numa situação de guerra, é aquele que recusa-se a fazer como o “bom patriota que sacrifica-se no altar da pátria”. “É por isso que tu desprezas o egoísta: porque ele remete para segundo plano o espiritual para privilegiar o pessoal e pensa em si mesmo quando tu esperarias vê-lo agir por amor a uma idéia… amaldiçoas todos aqueles que não vêem no interesse espiritual seu verdadeiro e supremo objetivo” (43)

 Mas não se trata somente de estigmatizar e perseguir aqueles que recusam-se a se sacrificar por um ideal transcendente: o próprio crente, como Nietzsche aponta em seus estudos sobre a “má consciência” e a “crueldade interiorizada”, acaba vendo em si mesmo um inimigo. É o que Stirner também diagnostica: “Tu és um fanático contra tudo o que não é espírito, e por isso te insurges contra ti próprio por não conseguires livrar-te de um resto de matéria não espiritual.” (44)

 Manifesta-se aí o que Nietzsche chamava de uma “moralidade como anti-Natureza”: “o puro renuncia à sua relação natural com o mundo para seguir apenas o ‘anelo ideal’ que o domina” (79). A renúncia a si mesmo é travestida de virtude e chamada de altruísmo. A tentativa de aniquilação da vontade própria e o esforço constante para ser obediente e servil a um ser supremo acaba gerando fraqueza e apatia: “o hábito da renúncia arrefece o calor de teu desejo”, escreve Stirner, “e as rosas de tua juventude empalidecem na… anemia de tua beatitude.” (82)

Já que o corpo e a realidade terrena foram estigmatizados como ímpios e pecaminosos, o devoto passa a viver possuído pela crença de que só no esforço na direção do sagrado é que será… consagrado. Só atingirá a bem-aventurança eterna e o descanso celestial junto ao coro dos anjos aquele que servir à “causa de Deus”, à “causa do espírito”. E aí se escancara que os devotos, que tanto atacam o “egoísmo” dos pecadores”, possuem em seu desejo de redenção e salvação um… interesse altamente egoísta!

Já que sonham com um “céu que é o fim da renúncia e lugar da livre fruição” (90), os fiéis não passam de egoístas que não se confessam como tais, hedonistas que adiam para o além-túmulo a grande festa de prazeres infindos que desejam… Os devotos que desejam que sua alma viva eternamente em meio às mais deleitosas delícias paradisíacas, que realizam atos de altruísmo e filantropia sempre tendo em vista a recompensa celestial que lhes será dada, são justamente aqueles que… condenam com selvageria o “egoísmo dos ímpios”!

“O sagrado só existe para o egoísta que não se reconhece, para o egoísta involuntário, para aquele que se coloca sempre em primeiro lugar sem, no entanto, se considerar o ser supremo, que só serve a si próprio e ao mesmo tempo pensa servir a um ser superior… em suma, para o egoísta que não quer ser egoísta e se rebaixa, ou seja, combate seu egoísmo, mas ao mesmo tempo só se rebaixa ‘parar poder ser elevado’, que é o mesmo que dizer: para satisfazer seu egoísmo. Como quer deixar de ser egoísta, procura no céu e na terra seres superiores a quem servir e a quem se sacrificar; mas por mais que se sacuda e se mortifique, ao cabo de tudo, o que faz o faz tão-somente por interesse pessoal, e seu famigerado egoísmo nunca o abandona.” (50)

Stirner critica a religião por povoar o mundo de espectros e assombrações que são criações humanas… demasiado humanas. Os devotos, que têm o costume de dizer que seus inimigos são “possessos”, na verdade são eles mesmos vítimas de uma possessão por idéias fixas: “obcecados pelo bem, pela virtude, pela moralidade”, eles “se fixam em suas opiniões” e concebem que o sagrado não é nada mais do que aquilo que merece o entusiasmo mais fanático. Tal como Nietzsche, que dizia que “convicções são prisões”, Stirner não vê com bons olhos estes que se aferram a perspectivas que querem imutáveis em seu “interesse fanático pelo sagrado” (60).

O sagrado é também aquilo que justifica os maiores sacrifícios. E aqueles que mais sacrificam são aqueles que mais pretendem ser abnegados e altruístas, acusando de egoístas, frios e calculistas aqueles que recusam a auto-imolação nos altares de Deus, do Espírito, da Pátria, da Humanidade… Stirner coloca em questão: “não serão interesseiros e egoístas estes homens que tudo sacrificam? Como têm apenas uma paixão, buscam uma única satisfação, mas de forma tanto mais fanática: todo o sentido da sua vida se esgota nela. (…) Uma ‘grande idéia’, uma ‘boa causa’, são, por ex., a honra de Deus, pela qual milhões encontraram a morte;  o cristianismo, que encontrou seus mártires voluntários; a Igreja, única via da salvação, que se alimentou avidamente do sacrifício dos hereges; a liberdade e a igualdade, que estiveram a serviço de sangrentas guilhotinas…” (99) “Encontramos aqui a velha ilusão do mundo que ainda não aprendeu a se libertar do clericalismo que lhe diz que a vocação do homem é viver e trabalhar por uma idéia e que seu valor humano se mede pela fidelidade em sua realização.” (100)

O desprezo pelo terreno e a “negação da sensualidade e da naturalidade” (93) é o preço deste fanatismo pelo sagrado. O homem de carne-e-osso é imolado em nome do homem ideal ou do “espírito”. A voz da carne é considerada como diabólica e forçada a se silenciar, e como subprodutos desta repressão emergem muitas neuroses, já que “só quando se dá conta da voz da carne é que um ser humano se dá conta completamente de si, e só quando se dá conta completamente de si é que ele é um ser verdadeiramente perceptivo e racional. O cristão não percebe a miséria de sua natureza amordaçada…” (84). Contra isto, Stirner faz alusão a uma tarefa ainda por realizar: a de “dissolver o espírito em seu nada… fazer o espírito descer ao nível da nulidade…” (93). Pois o espírito não passa de uma produção humana, um espectro inventado pelo cérebro, uma fantasia febril da função fabulatriz. Somos seres de carne-e-osso que sonharam que eram espíritos… e acreditaram em sua própria lorota. É hora de despertar!

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DEPOIS DO IMPÉRIO DE DEUS… O IMPÉRIO DA MORALIDADE.

Mesmo aqueles que julgam ter “rejeitado o cristianismo como coisa do passado” podem continuar sob o jugo cristão se prosseguirem aferrados à crença na sacralidade da moralidade (61), atitude que Stirner reconhece em Proudhon e Feuerbach: “A fé moral é tão fanática como a fé religiosa!” (62) “Nenhuma pretensão de vitória total pode se fundar na expulsão de Deus do seu céu e da transcendência se com isso apenas o empurramos para o coração humano e lhe oferecemos uma imanência indelével. Agora diremos: o divino é o que há de mais verdadeiramente humano! As mesmas pessoas que recusam o cristianismo como o alicerce do Estado, isto é, o chamado Estado cristão, não se cansam de repetir que ‘a moralidade é o pilar fundamental da vida social e do Estado’. Como se o poder da moralidade não correspondesse a uma total dominação do sagrado…” (65)

Stirner lembra-nos que as crianças são apresentadas à religião e à moralidade através do doutrinamento, do catecismo, da imposição pelos mais velhos de supostas verdades atemporais. Esta pedagogia que exige das crianças a veneração e a submissão, enquanto são dogmaticamente “educados”, acaba por inculcar-lhes idéias que jamais produziriam se fosse mais respeitada a reflexão própria e a autonomia de pensamento.


“Abarrotados assim de sentimentos impostos, apresentamo-nos no tribunal da maioridade e somos declarados ‘adultos e responsáveis’. Nosso equipamento para a viagem consiste em ‘sentimentos edificantes, pensamentos sublimes, máximas inspiradoras, princípios eternos’. Os jovens são dados como adultos quando papagueiam os mais velhos; na escola, enchem-lhes os ouvidos com a velha ladainha e, uma vez assimilada esta, concede-se-lhes acesso à maioridade.” (87)

“A eficácia dos espíritos clericais caracteriza-se sobretudo por aquilo a que vulgarmente se chama a ‘influência moral’. E essa influência moral começa onde principia a humilhação… que quebra e faz vergar a coragem, reduzindo-a à humildade… espera-se que um indivíduo concreto se vergue ante a vocação do homem, que seja obediente e humilde, que renuncie à sua vontade em favor de uma outra que lhe é estranha e quer valer como mandamento e lei. Ele deve, então, se humilhar perante algo superior: auto-humilhação. ‘Aquele que se humilhar será exaltado’ (Mateus 23, 12). Pois é, as crianças têm de ser educadas a tempo no sentido da devoção, da religiosidade e da honradez; um indivíduo de boa educação é aquele a quem os ‘bons princípios’ foram ensinados e inculcados, metidos na cabeça à força pela sova e pela doutrina.” (107)

Stirner sonha com uma rebelião de espíritos livres que chacoalhem esta ladainha que lhes é inculcada e que “não vão querer herdar vossa estupidez como vós a herdastes de vossos pais; vão eliminar de vez o pecado que herdaram, o pecado original. Quando lhes ordenares: ‘Curva-te perante o Altíssimo!’, eles vão responder: ‘Se Ele nos quer fazer vergar, que venha cá e o faça, que nós não o faremos de livre vontade’. E quando os ameaçardes com Sua ira e Seu castigo, ele vão reagir como se o ameaçásseis com o Bicho Papão. E se não conseguirdes meter-lhes medo com fantasmas, isso é sinal de que chegou ao fim o domínio dos fantasmas e de que as histórias da carochinha já não encontram quem nelas tenha… fé.” (108)

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…a ser continuado…

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OBRAS CITADAS

SAFRANSKI, Rüdiger. Nietzsche: Biografia de uma Tragédia. Tradução de Lya Luft. Ed. Geração Editorial.
STIRNER, Max. O Único e sua Propriedade. Trad. João Barrento. Ed. Martins Fontes. 2009.