Confissões de um vírus pós-moderno – Por Gisele Toassa em A Casa de Vidro

Confissões de um vírus pós-moderno

 Gisele Toassa

 

Meu nome é SARS-CoV-2, sobrenome coronavírus. Eu e meus parentes ganhamos essa alcunha por nos parecermos com lindas coroas, dotadas de majestosas pontas em estilo medieval. Não é para me gabar, mas, sob a luz do microscópio, somos garbosos como reis.

Nasci na Ásia, mas fui desterrado há pouco tempo. Vivia feliz e tranquilo com minha família, mesmo sendo meio diferentão, dentro de uma linda morceguinha amarela, nossa Jei-jei.

Ah, vocês não sabem? Em chinês, isso significa “irmã”, é um apelido que damos às nossas melhores amigas. Eu adorava voar com ela depois de passar longas horas encolhido, trombando com outros membros de nossa aglomeração, dentro da nossa caverninha comunitária, em algum ignoto lugarzinho da magistral Ásia.

Quando a noite caía, eu já me agitava todo, antecipando o amplo céu estrelado que, juntos, contemplaríamos com voos rasantes, piruetas e outras morcegagens. De ponta-cabeça, eu amava ver as luzes celestiais; ou, olhando para baixo, mirá-las refletindo-se nos lagos, ao pé da linda montanha em que morávamos. Nosso bando se aboletava nas árvores até recolher-se calmamente, quando caía o último orvalho da madrugada.

Generosa, Jei-jei volta e meia me cedia algumas de suas células, nas quais eu me reproduzia sem excessos, e tudo continuava como no tempo de nossos ancestrais. 

Mas destruíram nossa floresta. Sofri tipo um stress pós-traumático, não me recordo muito daqueles dias. O coração de Jei-jei batia descompassado, impulsionando-me a fluir em uma velocidade muito maior que o normal…  Diz-se que capturaram minha Jei-jei e me levaram para um laboratório militar em Fort Detrick, Maryland, Estados Unidos. Diz-se que nos levaram para um mercado de frutos do mar em Wuhan. Era um lugar medonho, repleto de animais, tanto vivos como mortos, dominado por violentos bípedes. 

Lá pelas tantas, fiquei aliviado ao descobrir que estava vivo, embora dentro de criaturas enormes. Um daqueles horríveis bípedes sem asas. O pânico tomou conta de mim. Cadê minha casinha? O que fizeram com Jei-jei?? Consigo sobreviver nesse corpo gigante? 

Não tive escolha. Acabei, em minhas peregrinações, ouvindo muitos homens de negócios a dizer que crise é sinônimo de oportunidade. Vale tudo na luta pela sobrevivência. Ué, então, por que não tentar algo novo? Embora a ideia seja meio louca, pensei: se eu me multiplicar por mil, dois mil, um milhão, eu consigo reencontrar Jei-jei e minha família. O mundo aqui fora não pode ser tão grande assim. E depois, a procriação é o verdadeiro sentido da vida, não é mesmo? Todos os textos sagrados dos humanos dizem isso, é o que fui aprendendo ao ocupar meus diferentes hospedeiros. Como são a espécie que domina a terra, deve ser verdade.

Viajei na primeira classe e na econômica; em porões de navios e trens-bala; ouvi centenas de línguas e me multipliquei em milhares de corpos, mas – pobre de mim! – ainda não encontrei minha Jei-jei. Essa coisa de me reproduzir já ameaça perder todo sentido. Uma verdadeira compulsão! Um prazer barato, onde a quantidade prevalece sobre a qualidade. Sou como sultão em um harém, com um fraco por essas células de pneumócitos tipo II, tão lindas e tentadoras. Tão repletas de frescor! No meio da poluição urbana na qual passei a circular, me fazem lembrar a pureza da atmosfera de Hubei. Vou te contar, nem nossa caverna era tão pobre de oxigênio como muitas cidades por onde tenho vagado! Minha tara por essas células me tornou um só ser em muitas milhares de pessoas!

Deslizar para dentro dessas pneumócitas e me reproduzir sem parar para pensar é um antídoto à minha vidinha sem-sentido. Nas andanças pelo corpo humano, conheci muitos outros vírus, alguns tranquilos e adaptados – como o da herpes – e outros barra-pesada, estilo Tropa de Elite, como o HIV. Este me disse: “Uau, meu chapa, você tá de parabéns! Uma pandemia em apenas dois meses? Demorei anos para conseguir isso! Que tal fazermos um crossing over ali no cantinho do baço? Formaríamos uma bela força-tarefa! Com o seu modo de transmissão e nossas letalidades associadas, destruiremos a espécie humana, e o futuro de todas as outras estará garantido! Vamos assegurar nosso mútuo interesse, que, afinal, é a fonte da felicidade e do bem social!”.

Essa proposta me fez pensar. Valeria a pena arriscar uma solução final para salvar a espécie de minha amada Jei-jei? Pensei muito, mas recusei. Não quero sacrificar minha popularidade fazendo joint venture com aquele sujeitinho. AIDS é tão anos oitenta! Daqui a pouco descobrem a cura e ele se acaba! Ademais, não vamos exagerar, não sou um genocida, nem quero servir de trampolim para algum oportunista da era dos mullets! Um cara que, além de tudo, contribuiu para tornar os prazeres mais inseguros e aumentar a homofobia mundo afora. Gosto de liberdade, de fragmentação, de novidade. Regulações e projetos coletivos não são para mim. Sou um indivíduo coletivo, mas ainda assim, indivíduo. No máximo, um agente do caos, como o Coringa.

O HIV, despeitado, passou a me atirar desaforos. Ridicularizou minha taxa de mortalidade, lembrando ter chegado aos 100% de óbitos em sua juventude. Vaticinou que meu sucesso será curto, que estamos em uma era de popularidade líquida. E que, daqui a pouco, serei esquecido nas prateleiras das livrarias médicas. Enquanto ele, mesmo quarentão e castrado pelos coquetéis de remédios, sobrevive sem arranhões a todas as vacinas que se metem com ele.

Talvez ele tenha razão. Não vou durar muito. Cada vez mais, encontro sabão, máscaras, álcool gel ou umas monstruosas moléculas de medicamentos, que me fazem desmaiar e até morrer.  Já percebi que os humanos pós-modernos não gostam da velha fórmula do survival of the fittest. Preferem survival of the richest, e não tenho objeção, pois os ricos são menos gente; ainda sobra muita humanidade para eu infectar. Chamam esse nosso sistema de capitalismo

Eu teria gostado de viver mais tempo na pré-história, hospedando-me nas ancestrais de Jei-jei, piruetando todas as noites pelos céus de Hubei, sem jamais ter sabido dessa tal de espécie humana, suas virtudes e seus vícios. Também estou ficando vidrado na guerra contra os que querem me matar: mais um vício humano com o qual fui infectado.

Posso não amar os Homo sapiens, mas não sou mau. Sou só um sem-teto em busca de sua verdadeira casa. Um provinciano nostálgico. Sei que às vezes me empolgo – especialmente com as células alveolares mais frágeis, onde não aparecem tantos daqueles horríveis macrófagos, uns brutamontes radicais que sempre me dão umas surras de doer. Nós nos engalfinhamos em lutas brutais, nas quais morremos em inflamações purulentas e malcheirosas que não ajudam ninguém, pois, às vezes, também mato meus novos hospedeiros. Fica chato, mas ainda estamos nos adaptando um ao outro. Talvez seja o jeito, se eu não encontrar mesmo minha Jei-jei. Cresci tanto, que agora talvez não dê para voltar para minha comunidade. Meu atual corpo tem um quê de monstruoso.

Sim, meus caros, o prazer pode passar das medidas! Pra falar a verdade, tenho uma relação de amor e ódio com os Homo sapiens. Eles são tantos! E vivem aglomerados, é tão fácil pular de corpo em corpo! Infectá-los é moleza, chego a sentir um tédio aqui na boca das minhas coroas por ser tão fácil entrar; vencer o sistema imune é que são elas. 

Fato: há dissabores em ser um sujeito antissistema.

Embora eu tenha ganhado os corpos e os flashes de bilhões dos representantes dessa espécie que dominou a Terra, ela me intriga. Tem rompantes de sadismo horrível, tipo os desses caras de branco, que me fatiam em zilhões de pedaços para, depois, olharem meus restos mortais com lentes especiais. Outros, mostram-se excepcionalmente preocupados com o bem-estar das demais criaturas vivas. Ocupei os corpos de muitos velhinhos pobres e completamente sós, que passavam seus dias a fazerem festas a seus gatos ou a alimentar os pombos. Por que eles não poderiam hospedar mais uma pequena espécie?, perguntei-me, humilde. Não tenho habilidades para ajudá-los em nada, para buscar uma simbiose com meus hospedeiros, mas se evoluir um pouco posso tentar ficar quietinho, sem causar dano. 

Foi então que conheci a extraordinária dona Gisela, e, sentados à beira dos canais de uma maravilhosa cidade da Europa, ouvi-a conversar sobre grandes óperas e boa comida. Seu corpo era cheio de endorfinas e sua mente, de pensamentos alegres e generosos. Dona Gisela era lugar em que dava gosto viver. 

Gostaria muito de que dona Gisela tivesse se tornado minha nova Jei-jei. E tentei de verdade me controlar, mas já não consigo! Nossa convivência durou pouco: dona Gisela tinha diabetes, e fomos juntos para o túmulo. 

Para resumir, é dura e sem sentido a vida de um vírus sem raízes. Um grupo de ajuda mútua seria muito bom. Mas só se for com outros coronas, não com humanos, porque, senão, cedo ao prazer barato e vou tomando o caminho mais fácil… O pior dos vícios que eu desenvolvi junto dessa civilização decadente que me desterrou da minha verdadeira casa para me usar no ancestral jogo da morte.


Gisele Toassa, doutora em Psicologia pela USP, professora da UFG, autora dos livros “Emoções e Vivências em Vigotski” (Ed. Papirus, 2011) e “Gaiolas Sob Medida” (contos, lançamento em breve pela Editora da UFG, 2020).

Obs: a autora não é especialista em vírus. Esta é uma obra de ficção vagamente inspirada em fatos reais.

 

“Emoções e Vivências em Vigotski”, de Gisele Toassa (Papirus Editora, 2011, 288 pgs) – Faça o download gratuito do ebook

#Ebook >>> “Emoções e Vivências em Lev S. Vigotski“, de Gisele Toassa (Papirus Editora, 2011, 288 pgs) – Faça o download gratuito: https://bit.ly/2CLx09g.

Desde a década de 1950 as produções do bielorrusso Lev Semionovich Vigotski (1896-1934) vêm se tornando conhecidas no debate sobre pensamento, linguagem, desenvolvimento e aprendizagem escolar. Mais recentemente viu-se crescer também o interesse por outras dimensões de sua psicologia, como o estudo das emoções e vivências humanas, conceitos explorados aqui como partes da formação da personalidade e da consciência.

Filosofia, psicologia do desenvolvimento, psicologia da arte e neurociências são alguns dos campos de pesquisa abordados, por meio de reflexões sobre a obra do autor – desde “A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca”, seu primeiro livro, até “Pensamento e linguagem”, publicado no ano de sua morte.

Buscando respeitar a diversidade e a riqueza da concepção de Vigostski, este livro de Gisele Toassa será de interesse a psicólogos, educadores, artistas, linguistas e outros simpatizantes do legado desse autor.

“DESVENDO O MUNDO” – UM DOCUMENTÁRIO SOBRE O IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL “A EDUCAÇÃO MEDICALIZADA” (SALVADOR/BA, 01 a 04 de SETEMBRO)

“Espero ser uma pessoa quase sã
Pra nunca ter que conhecer o Diazepam.”
DONA ZICA, “O Fio da Comunicação”


Aconteceu em Salvador (BA), entre 01 e 04 de Setembro de 2015, o IV Seminário Internacional “A Educação Medicalizada – Desver o Mundo, Perturbar os Sentidos”. O evento é uma realização do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade [http://medicalizacao.org.br/] e reuniu um coro de vozes de diferentes vertentes que debateram e refletiram sobre vários temas de alta relevância, dentre eles: a “medicalização da vida”, que se manifesta, no Brasil e no mundo, nos altíssimos índices de consumo de Ritalinas, Prozacs, Rivotrils e outros psicofármacos e tarjas-pretas; a Guerra às Drogas (ilícitas) e suas (des)razões; as conexões entre as lutas antiproibicionista, antimanicomial e antimedicalização; dentre outros temas. Foram quatro dias de intenso intercâmbio de ideias e A Casa de Vidro oferece por aqui, aos que lá estiveram e aos que não puderam comparecer, um vídeo-panorama sobre o evento (assista abaixo).

remedios

Esta quarta edição do Seminário contou com a participação de artistas gráficos (como Alex Frechette) e audiovisuais (como Luana Lobo, da Maria Farinha Filmes), midiativistas (como o Rafucko), médicos (Antonio Nery), militantes de várias vertentes (Maria Lucia Silva, Rui Harayama, Célia Chaves etc), pesquisadores e acadêmicos (Marcos Garcia/UFSCAR, Rossano Cabral Lima/UERJ, Lygia Viégas/UFBA), além de convidados internacionais, caso de Alain Goussot (da Universidade de Bologna, na Itália), dentre muitos outros.

O documentário Desvendo O Mundo procura fornecer, em 45 minutos de filme, um pouco do que de melhor rolou por lá, de acordo com meu próprio gosto e juízo subjetivos. Escolhi algumas das falas mais contundentes e provocativas do seminário e montei uma espécie de vídeo-coletânea, experimental e cheio de pequenas imperfeições técnicas, mas que tem a intenção de construir um mosaico ou caleidoscópio do que se passou no evento. Todo o processo de edição e montagem foi realizado um tanto às pressas, para que o filme pudesse ser lançado poucos dias após a realização do evento, com a pauta ainda “quente”. O resultado pode ser conferido no vídeo abaixo, que procura seguir o mantra midiativista celebrado por Rafucko no evento: “não odeie a mídia, torne-se a mídia”:

DESVENDO O MUNDO

(Na trilha sonora: Dona Zica, Apanhador Só, Criolo e Radiohead.)

A conferência internacional de Carl Hart (Universidade de Columbia), “Verdades e Mitos sobre os filhos do Crack – considerações da neurociência”, foi cancelada pois o palestrante não compareceu (ficamos, até agora, sem explicações mais claras dos porquês da ausência de Hart). Sua ausência, porém, gerou uma instigante discussão descentralizada, com microfone aberto, que Desvendo o Mundo também procurou registrar.

Deixo registrado meus parabéns entusiásticos aos organizadores do evento, que contribuiu imensa e intensamente para que eu soubesse e sentisse mais amplamente sobre estes temas contemporâneos de alta relevância. Pela primeira vez em Salvador, “terra-mãe” do Brasil e primeira capital federal, pude realmente desver o mundo e perturbar os sentidos, ao mesmo tempo que conheci um pouco mais da efervescência dos movimentos sociais e das pesquisas acadêmicas que estão rolando atualmente. Em futuros posts, A Casa de Vidro procurará prosseguir tematizando e discutindo muitas das questões ali levantadas.

Abaixo, reproduzo o ótimo texto de apresentação do…

selo_passarinhoIV SEMINÁRIO INTERNACIONAL
“A EDUCAÇÃO MEDICALIZADA”

“Era preciso desver o mundo
para encontrar nas palavras
novas coisas de ver.”
(Manoel de Barros – O menino do mato)

Medicalização é o processo por meio do qual as questões históricas, políticas, culturais, econômicas, sociais e afetivas da vida humana são negadas pela redução de sua complexidade a supostas doenças, transtornos ou distúrbios individuais. Em outras palavras, a medicalização envolve um tipo de racionalidade determinista que vincula características comportamentais a questões biológicas e orgânicas do sujeito, supostamente único responsável pela inadaptação às normas e padrões sociais dominantes. Nesse processo, nossas feridas históricas deixam de ser cuidadas.

No Brasil, a necessidade de criar articulações sobre o tema resultou na organização do I Seminário Internacional, em 2010, ao longo do qual foi fundado o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade Sociedade. Desde então, diversas foram as ações do Fórum, dentre as quais a realização de eventos locais, regionais e internacionais.

Dando continuidade às edições anteriores, o IV Seminário Internacional “A Educação Medicalizada” tem por objetivos: problematizar os olhares e práticas dominantes em relação às diferenças, aprofundar a construção de propostas de pesquisa/atuação profissional que operem rupturas em relação à lógica medicalizante e consolidar a articulação de profissionais, pesquisadores e ativistas no enfrentamento à medicalização da vida.

Para tanto, foi montada uma programação buscando contemplar a diversidade de áreas interessadas no tema: educação, farmácia, filosofia, fonoaudiologia, história, neurociências, psicologia, psiquiatria, comunicação e artes.

Conheça nossa programação, as normas de apresentação de trabalhos e inscreva-se! O evento é integralmente GRATUITO e emitirá certificado de participação.

DATA: 01 a 04 de setembro de 2015
LOCAL: Senai CIMATEC

Site: http://seminario.medicalizacao.org.br/

Para saber mais sobre o Fórum Sobre Medicalização da Educação e da Sociedade visite o site: http://medicalizacao.org.br/

#DesverOMundo #PertubarOsSentidos#IVSeminárioInternacional #EducaçãoMedicalizada

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ASSISTA:

DESVENDO O MUNDO

URL: https://youtu.be/WGHWrFftGQE

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ALGUMAS FOTOS:

ADRIANA MARCONDES

ADRIANA MARCONDES

ALAIN GOUSSOT (Universidade de Bologna)

ALAIN GOUSSOT (Universidade de Bologna)

CELIA2

APRESENTAÇÃO DE CÉLIA CHAVES

Desconhecida2

MICROFONE ABERTO

Lygia

LYGIA VIÉGAS

RAFUCKO

RAFUCKO E A INTÉRPRETE DE LIBRAS

Rossano Cabral Lima (UERJ)

ROSSANO CABRAL LIMA (UERJ)

RUI HARAYAMA

RUI HARAYAMA

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O PÚBLICO NO SAGUÃO DO IV SEMINÁRIO “A EDUCAÇÃO MEDICALIZADA”

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GISELE TOASSA (PROFESSORA DE PSICOLOGIA / UFG)

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UMA DAS MESAS DE DEBATE DO EVENTO

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A PLATÉIA

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MESA COM LUANA LOBO, ALEX FRECHETTE, LYGIA VIÉGAS E RAFUCKO

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“ESTAMOS CRESCENDO!” – APRESENTAÇÃO DE LYGIA VIÉGAS

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BANDEIRA: “SE NÃO POSSO BRINCAR, NÃO É MINHA LUTA!”

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P.S. – Este trabalho também foi publicado na Rede HumanizaSUS
HumanizaSUSLEIA EM: http://www.redehumanizasus.net/92223-desvendo-o-mundo-um-documentario-sobre-o-iv-seminario-internacional-a-educacao-medicalizada

“A Confissão da Leoa”, de Mia Couto – por Gisele Toassa

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MIA COUTO E O SER-LEOA

IMAGINE uma ínfima aldeia de um país muito pobre, chamada Kulumani.

IMAGINE uma mulher que passou sua vida toda nessa aldeia, Mariamar.

IMAGINE que ataques de leões estão matando apenas – e tão-somente – as mulheres nessa aldeia, fazendo da irmã de Mariamar, Silência, uma das suas vítimas.

E você terá o cenário da “A confissão da leoa”, do moçambicano Mia Couto, nosso compadre nos infortúnios da colonização portuguesa – autor único na fragrância animista do seu português. Para quem nunca teve o hábito de ler folclore, mas ama a mistura popular-erudito, esse livro é uma sólida introdução para o modo-de-vida, o modo-de-fala – e, mais do que tudo – para o cruzamento (fascinante, perigoso?) entre religião e costumes de uma nação escravizada até muito pouco tempo. Somos irmãos na opressão. Também somos irmãos na desigualdade e na linhagem da nossa América Latina que, como a África, soa para mim mais feminina do que a Europa.

“Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada.Ao inverso,quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar.” (p.15)

Das mulheres nascidas e finadas em Kulumani sobra pouco rastro, habituadas que eram ao silêncio e às sombras. “Pobre Kulumani que nunca desejou ser aldeia. Pobre de mim que nunca desejei ser nada” (p.50). Nascida em uma aldeia do interior de São Paulo que, por acaso, hoje tem 300,000 habitantes, senti em Mariamar uma verdadeira irmã espiritual. Como eu sonhava com o Príncipe Encantando, ela sonha com o caçador que, trouxera, com um olhar, a vida ao seu corpo de sombras (dei de cismar que a opressão não é preta nem branca – é apenas uma sombra que inunda nosso espírito com uma antecipação do irremovível Nada). Seu silêncio é uma percepção do feminino como infantilidade adiada, feita de esperas: espera por um homem, pelo Salvador ou por um outro ser vivo que lhe agitará o ventre, vindo por certo tempo se abrigar na sua (inviolável) sombra; três esperas tão silenciosas quanto necessárias para que a renovação dos capítulos dessa nossa trágica Comédia Humana.

Eu só faço admirar a destreza na escolha dos personagens (parece a mecânica perfeita de Ibsen); os seus nomes que rompem a fronteira do hábito para nos transportar a esse universo onde não veremos a pobreza (como falta), a doença (como atraso) ou a violência (como mal do caráter). A África de Couto é a África vivida e padecida como dores universais. Quando Arcanjo Baleiro, o caçador, junta-se ao escritor e ao administrador para matar leões em Kulumani, entra em cena também Naftalinda [!], a gorda mulher do administrador, a única que faz ouvir sua voz – tal como a Lua no céu, oprimida por astros mais significativos, mas ainda viva. Agora que aprendi a necessidade do feminismo como luta contra as pequenas e grandes guerras (desde a depilação até a ocupação da Ucrânia), posso admirar essa mulher que tenta falar pelas suas companheiras. Mia Couto é um grande feminista, por se ocupar da história dos vencidos, sejam as mulheres ou os leões: “Até que os leões inventem as suas próprias histórias,os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.” Provérbio africano – MIA COUTO, A confissão da leoa (epígrafe) – p.11.

Paralisia, mudez completa, são alguns dos sofrimentos com que a pequena Mariamar defronta-se. É um jeito de amurar-se a si mesma; sem andar ou sem falar, ela deixa de realizar atos que pouco importavam a alguém. Debaixo de sua imobilidade, há lembranças de um avô amoroso e de uma guerra sangrenta, onde os africanos foram as presas.

“Aconteceu o mesmo no tempo colonial. Os leões fazem-me lembrar os soldados do exército português. Esses portugueses tanto foram imaginados por nós que se tornaram poderosos. Os portugueses não tinham força para nos vencer. Por isso,fizeram com que as suas vítimas se matassem a si mesmas. E nós, pretos, aprendemos a nos odiar a nós mesmos.” (p.120)

Esse é um livro sobre morte-em-vida, vida Severina, mas também sobre um encarceramento sem paredes, o de ser-Colônia e não se governar. Os majestosos leões vão ficando à mercê dos homens, e os homens, presa dos outros homens, ficando as mulheres na última ponta da cadeia alimentar, onde viram comida – literal e metaforicamente – recebendo na cabeça e no corpo uma dominação multiplicada. Seus mortos nunca foram realmente enterrados. Sua revolta não tem espaço para crescer, pois se acostumou ao silêncio e à força: se não dão, lhes tomam. Mas os livros são aventura certa para além desse mundo restrito onde a tarefa vital é abrir as pernas e fechar os olhos, ou apenas levar água no balde, do poço à casa:

“Kulumani e eu estávamos enfermos. E quando, há dezasseis anos, me encantei pelo caçador, essa paixão não era mais que uma súplica. Eu apenas pedia socorro, em silêncio rogava que ele me salvasse dessa doença. Como antes a escrita me tinha salvado da loucura. Os livros entregavam-me vozes como se fossem sombras em pleno deserto.” (p.95)

Tal como nós e os moçambicanos, Mariamar mostra que silêncio e loucura não são estranhos, mas parentes próximos. É por isso que vou colocando Mia Couto na minha prateleira de autores queridos, destes que são curativo para a alma, e instrumento para a luta.

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