Da angústia solitária à revolta solidária: sobre a filosofia de Albert Camus || A Casa de Vidro

por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

“Se deveras existe um pecado contra a vida, talvez não seja tanto o de desesperar com ela, mas o de esperar por outra vida, furtando-se assim à implacável grandeza desta.”
ALBERT CAMUS em “Núpcias” [1]

CAPÍTULO 1: A Indesejada das Gentes

Confinados na implacável finitude da vida, nós, os mortais, temos acesso a poucas certezas inabaláveis, dignas do estatuto de verdades absolutas. A mais irrecusável das certezas, para cada um e todos, é a de que todos nós um dia vamos morrer – como diz o provérbio: morte certa, hora incerta.

Por ser aquilo que nos é comum, não importa em que latitude e longitude vivamos, nossa finitude nos une. No entanto, sermos finitos não é simplesmente algo aceito e acolhido como um fato bruto, mas sim algo que é “vestido” pela consciência humana com as mais variadas roupas, embalado nas vestes de crenças multiformes. O único bicho que sabe que vai morrer é também o animal simbólico, faminto por sentido. A vivência do perceber- se mortal é de extrema diversidade conforme as crenças (ou ausência destas) que a pessoa nutra (ou que tenha destroçado em si).

Além disso, é variável o grau de realização da morte [2], ou seja, o sujeito considera como real tal condição num gradiente que vai da negação de quem finge que a morte nunca virá, à obsessão mórbida de quem pensa-se como “cadáver adiado” (Fernando Pessoa) [3] a todo momento de todos os dias. As dinâmicas psíquicas do recalque / repressão desta consciência de nossa radical limitação espaço-temporal, socialmente consolidadas em ideologias destinadas ao negacionismo da finitude, são tema do clássico A Negação da Morte (The Denial of Death) de Ernest Becker [4].  

O fato de sermos mortais, ao mesmo tempo que nos une na mesma condição que nos é comum, também nos separa radicalmente: assim como “ninguém vive por mim” (cantou lindamente Sérgio Sampaio) [5], também podemos dizer a qualquer um: ninguém vai morrer no teu lugar, a tua própria morte é algo que você vai ter que encarar, cedo ou tarde, querendo ou não. Cada um encara o processo de morrer num estado onde a solidão se manifesta de modo mais extremo do que em outras vivências humanas. Pode ser que o poeta chileno Nicanor Parra tenha razão ao propor que “a morte é um hábito coletivo” [6], mas cada sujeito a vivencia de maneira singular. E arrasta para o túmulo e seu eterno silêncio o segredo incomunicável do que se passou por dentro naqueles últimos momentos vitais antes do fatal ponto-final.

Pedra irremovível no caminho do desejo de imortalidade que muitas vezes os humanos nutrem, a morte existe sobretudo como horizonte. Está presente por sua iminência. O que nos condena à angústia como parte integrante da condição humana. Costuma-se dizer que somos os únicos animais no planeta Terra que sabem que vão morrer, mas talvez fosse mais preciso dizer que o sentimos mais que sabemos. A angústia é este afeto em nós que atesta a nossa finitude.

Na história da filosofia, a reflexão sobre o futuro estado de esqueleto de cada um de nós já foi alvo de muitas reflexões: a sabedoria Epicurista pretendia curar o medo da morte e dos deuses, causadores de intranquilidades da alma que impedem a sábia ataraxia, com uma argumentação que a Carta a Meneceu (Sobre a Felicidade) sintetiza assim: “Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações.” [7] Quase dois milênios depois, Michel de Montaigne, em um de seus mais célebres ensaios, exploraria a noção de que “filosofar é aprender a morrer” [8].

É preciso aprender que, querendo ou não, a morte é nosso quinhão e que dar sentido a uma vida que acaba é nossa perpétua tarefa. A sensação de absurdo que às vezes se espraia pela existência tem a ver com o fato de que a foice às vezes pode arrasar com um vivente em momento inoportuno, em hora precoce, quando ele ou ela ainda estava cheio de sonhos, planos e forças.

Por isso, raros são aqueles que enfrentam a vida sem medo algum: a possibilidade da morte, sobretudo injusta, súbita, dolorida, tira-nos o sossego. Talvez nunca tenha nascido e completado sua trajetória finita entre os vivos nenhum animal humano que possa dizer, do berço ao túmulo: “atravessei o tempo sem nunca temer a morte”. Para o poeta Manuel Bandeira, a morte é “a indesejada das gentes”, a “iniludível” (aquela que não se pode burlar ou enganar) [9]:

Consoada

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

BANDEIRA, M., Libertinagem, 1930.

Pintura de Arnold Boecklin


CAPÍTULO 2: A CLARIVIDÊNCIA, IMPRESCINDÍVEL VIRTUDE CAMUSIANA 

Para Albert Camus (1913 – 1960), não há escapatória: “a angústia é o ambiente perpétuo do homem lúcido” – e a questão das questões, como o príncipe Hamlet sabia, consiste em escolher entre o sim à vida (ainda que angustiada) ou o não à ela (o caminho do suicídio) [10]. Quem vê claro, nesta vida, não escapa de sentir o fardo de afetos angustiantes. O que importa é que a angústia não nos paralise, que possa inclusive servir à nossa ação e ao nosso Combat – nome do jornal com o qual Camus colaborou, crucial na cobertura de eventos históricos como a Resistência à ocupação nazista da França, a Guerra de Independência da Argélia e o Maio de 1968.

Neste livro (Folio, 2013, 784 pgs), estão reunidos 165 artigos publicados por Camus no jornal Combat, onde ele atuou como editor chefe entre agosto de 1944 e junho de 1947. Saiba mais.

Publicado em 1947 pela Editora Gallimard, o romance “A Peste” expressa a atitude existencialista Camusiana diante dos flagelos que parecem querer soterrar a humanidade sob os escombros de um sentido arruinado. Diante da irrupção do absurdo coletivo que é a peste, esta máquina mortífera que ceifa vidas de animais humanos como se estes fossem moscas, o que propõe o artista-filósofo franco-argelino?

Para começo de conversa, o absurdo, para Camus, é um ponto de partida e não de chegada. Não se deve ficar estagnado diante do absurdo, como se ele fosse uma barreira intraponível que deveria nos fazer desistir de qualquer ação, abandonando-nos à passividade. A percepção do absurdo deve conduzir à revolta solidária dos humanos em luta contra os males de seu destino. Se, de fato, a revolta e a solidariedade são valores basilares do ethos camusiano, é preciso destacar ainda o posição de destaque que a virtude da clarividência ocupa no universo temático de Camus.

Isto que a língua francesa chama de clairvoyance tem um sentido próximo ao de lucidez. A lúcida clarividência está fortemente presente em A Peste, como se Camus quisesse ensinar que é preciso ver claro em meio ao horror se não queremos aumentá-lo ou colaborar com ele. Perder a lucidez, deixar ir pelo ralo a clarividência, em nada ajuda a frear a expansão das epidemias, nem auxilia a vencer as infestações do fascismo. O médico Bernard Rieux, narrador do romance, trabalha arduamente em meio à proliferação da doença, ainda que sinta seu cotidiano de combatente anti-peste como um trabalho de Sísifo, repleto de “intermináveis derrotas”.

É preciso compreender que Bernard Rieux é uma espécie de Sísifo em tempos de flagelo coletivo, numa época em que há a irrupção do absurdo em escala massiva. O rochedo que ele tenta arrastar montanha acima é a saúde de seus pacientes. Muitos de seus esforços médicos são em vão: a peste vence frequentemente e o paciente morre. Mas a batalha perdida não finda a guerra. Novos infectados não param de chegar aos hospitais, como novos rochedos a tentar empurrar montanha acima rumo à saúde sempre precária.

Rieux jamais desiste da luta, por mais que seja muitas vezes derrotado em seu intento de curar os adoentados ou de diminuir o sofrimento dos agonizantes. Rieux, apesar do tom afetivo que o domina ser o de um pessimismo de homem ateu, não cai nunca no derrotismo ou na resignação imóvel. Rieux é um trabalhador: não fica de braços cruzados diante dos males concretos que afligem os corpos de seus concidadãos. Não espera ou pede nenhum auxílio divino ou sobrenatural. Por isso, apesar de tantas derrotas diante da peste mortífera, o Doutor Rieux não se torna nunca um derrotado no sentido que dá a esta palavra o ex-presidente uruguaio José Pepe Mujica, para quem “os únicos derrotados são os que baixam a cabeça, que se resignam com a derrota.  A vida é uma luta permanente, com avanços e retrocessos”. [11]

Imaginem se Mujica, em algum momento de angústia extrema, durante o período de 12 anos em que esteve confinado nos cárceres da Ditadura Militar uruguaia, tivesse desistido da luta. Se tivesse gasto até a última fibra de sua coragem e resiliência de tupamaro, se tivesse utilizado a saída do suicídio para escapar dos horrores de estar entre os vivos em tais condições horríficas, aí sim teria sido um derrotado – e não o futuro presidente do Uruguai e um ícone das esquerdas latinoamericanas. Por isso, no poster do filme Uma Noite de 12 Anos, de Alvaro Brechner, que retrata as vivências de Mujica e outros dois prisioneiros, destaca-se a frase: “los únicos derrotados son los que bajan los brazos”. [12]

História semelhante se poderia contar sobre Nelson Mandela, Oscar Wilde, Antonio Gramsci ou Luiz Inácio Lula da Silva: na prisão, eles não abaixaram a cabeça, não se renderam à opressão deixando a resiliência cair estilhaçada ao solo, seguiram determinados em sua luta, clarividentes e revoltados em face de absurdos insultantes. Atravessando a noite que parece interminável. Nunca aderindo à preguiça dos passivos ou à inação dos resignados.


CAPÍTULO 3: A LITERATURA DAS ENCRUZILHADAS

Vários debates filosóficos atravessam o romance de Camus: A Peste é um romance repleto de difíceis encruzilhadas em que os personagens tentam escolher entra as alternativas que o destino lhes impõe. O jornalista Rambert, por exemplo, está separado da mulher que ama, preso na Oran empesteada, de onde as autoridades não permitem que ninguém entre ou saia. Tomando medidas para pagar por uma fuga, Rambert entra em negociações com contrabandistas, mas os acordos não avançam muito bem. Retido na cidade em quarentena, Rambert decide-se a trabalhar junto com o Dr. Rieux enquanto aguarda ocasião mais oportuna de escapar dali para se re-encontrar com sua amada.

Depois de muito refletir, quando enfim se apresenta a ocasião da fuga, Rambert prefere ficar ao invés de partir. Explica que “se partisse sentiria vergonha”. Ao que Rieux responde com firmeza que isto é uma “estupidez” e que “não há vergonha em preferir a felicidade”. Ou seja, em meio à desgraça toda, os personagens debatem sobre o hedonismo enquanto doutrina ética, a noção de que uma prazeirosa felicidade é o fim último (télos) da existência humana.

Rambert, nesta sua encruzilhada ética, sopesa as alternativas: fugir em direção à mulher de quem sente saudades é sua tentação mais forte, sua vontade quase irreprimível, pois é este o caminho que lhe aponta sua ânsia de felicidade, sua fome relacional, seu ímpeto de gozo afetivo, sexual, de estima carnal. Porém, o outro caminho que se desenha na encruzilhada é o de ficar na cidade para trabalhar, junto com os outros, em prol de uma melhoria da condição de todos. Rambert prefere ficar, argumentando, contra Rieux e seu hedonismo, que pode sim ser motivo de vergonha “querer ser feliz sozinho” (être heureux tout seul) [13].

Em contexto de flagelo coletivo, Rambert acaba por concluir que não tem direito à fuga na direção de sua felicidade individual. Terceira voz neste diálogo, Tarrou percebe bem que a natureza da escolha na qual Rambert se debate envolve um desejo de empatia para com os que sofrem durante a peste. Porém, esta empatia pode mergulhar o sujeito numa tal maré de compaixão que ameaça destruir completamente sua possibilidade de vivenciar afetos alegres e vivificantes. Para Tarrou, se Rambert “quisesse partilhar da infelicidade dos homens, não haveria jamais tempo para a felicidade. Era preciso escolher.”

Rambert, apesar do sofrimento da separação, que às vezes o conduz a gritar a plenos pulmões (op cit, item 13, p. 185) em montes desertos da cidade, acaba por decidir-se que não quer suportar a vergonha de fugir tentando ser feliz alhures, argumentando que “essa história nos concerne a todos”. Sua atitude tem pontos de contato com Sócrates tal como descrito no diálogo platônico Crítono filósofo se recusa a fugir da prisão de Atenas onde está condenado a morrer pela cicuta, argumentando que ser vítima de uma injusta é preferível a ser injusto violando as leis da pólis.

O Dr. Rieux, de maneira similar ao jornalista Rambert, está separado de sua esposa, com quem se comunica por cartas e telegramas, mas nunca lhe ocorre a tentação de escapar: ele chega a trabalhar 20 horas por dias nos meses de auge da peste, como heróico médico que vê sua fadiga e exaustão crescerem até os extremos, sem nunca desistir de seus deveres ou “amarelar” diante do fardo de sua responsabilidade.


CAPÍTULO 4: CAMUS E NIETZSCHE: UM DIÁLOGO FECUNDO

Ganhador do Nobel de Literatura de 1957, Camus devotou muitos esforços a um diálogo fecundo e crítico com a obra de Nietzsche (1844-1900): “o filósofo alemão agiu como um álcool forte sobre Camus”, defende Michel Onfray [14].

No Brasil, um livro brilhante de Marcelo Alves, pesquisador graduado em Filosofia e Mestre em Teoria Literária pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), explora com maestria o tema: Camus: Entre o Sim e o Não a Nietzsche (um livro que nasce de sua tese de mestrado disponível na íntegra) [15].

Unidos na “fidelidade à terra”, como dizia Zaratustra, Nietzsche e Camus estão sintonizados no interesse que compartilham pelo amor fati, o amor ao destino. O ethos do espírito livre consiste em amar a vida  exatamente como ela é, sem exclusão de tudo que existe nela de contraditório, problemático, horrendo e assustador. Camus fala assim das “núpcias” do homem com a natureza:

“Aprendo que não existe felicidade sobre-humana, nem eternidade fora da curva dos dias. Esses bens irrisórios e essenciais, essas verdades relativas são as únicas que me comovem. (…) Não encontro sentido na felicidade dos anjos. Só sei que este céu durará mais do que eu. E o que chamaria de eternidade, senão o que continuará após minha morte?

A imortalidade da alma, é verdade, preocupa a muitos bons espíritos. Mas isso porque eles recusam, antes de lhe esgotar a seiva, a única verdade que lhes é oferecida: o corpo. Pois o corpo não lhes coloca problemas ou, ao menos, eles conhecem a única solução que ele propõe: é uma verdade que deve apodrecer e que por isso se reveste de uma amargura e de uma nobreza que eles não ousam encarar de frente.” (CAMUS) [16]

Alves comenta:

“O corpo é a medida do homem lúcido diante da sua condição. Amar a natureza é reconhecê-la, antes de tudo, enquanto limite e possibilidade da vida humana. Amor trágico esse, na medida em que se ama o que por fim nos aniquila. Muitos homens, no entanto, preferem recusar essa sabedoria trágica e transformar o seu medo da morte na esperança de outra vida… Mas custa caro desprezar a verdade do corpo, ser infiel à terra, deixar-se iludir por uma esperança, isto custa o preço da própria vida, ‘porque se há um pecado contra a vida, talvez não seja tanto o de se desesperar com ela, mas o de esperar por uma outra vida e se esquivar da implacável grandeza desta’, como escreve Camus. (…) Fidelidade à terra é justamente o que Zaratustra não cessa de pedir encarecidamente a seus discípulos, alertando-os ao mesmo tempo sobre a ‘enfermidade’ característica dos ‘desprezadores do corpo’, dos ‘transmundanos’ e dos ‘pregadores da morte’.” (M. ALVES) [17]

Esta valorização do corpo, da vida encarnada, das verdades relativas, da sensorialidade palpável, nada tem a ver com uma idealização do corpo que apagasse tudo que há nele de problemático e trágico: Camus chama o corpo de “uma verdade que apodrece” e não cessa de refletir sobre a revolta humana diante da morte, ou seja, da finitude deste corpo matável e adoecível. Camus quer manter-se fiel à Terra e à virtude da lucidez, o que exige vivenciar nossa condição corpórea em tudo que ela comporta de delícia e de tragédia: é com o corpo que se pode entrar no êxtase das núpcias dionisíacas com a natureza, mas é com o corpo que se pode também sofrer os horrores da angústia e as indizíveis dores da agonia.

“Para Camus ser fiel à terra inclui ser fiel aos homens de carne e osso que conosco compartilham, aqui e agora, a experiência de viver. (…) A solidariedade assim praticada é uma chance ao possível, uma chance àquilo que só através dos homens em luta comum contra sua condição pode vir à existência: a liberdade, a justiça, a felicidade e o amor.” (ALVES, op cit., p. 90-91) [18]

Ao analisar “A Peste”, Marcelo Alves destaca que Camus está ali “trabalhando literariamente as críticas formuladas nas Cartas sobre o nazismo” (em especial a Carta a Um Amigo Alemão), de modo que “é preciso tomar o mal como o símbolo maior do romance: o mal que o nazismo produziu e o mal a que o homem está condenado a sofrer por sua própria condição. Trata-se do mal no sentido trágico, do mal que se expressa através do sofrimento físico e moral daquele que vive sob o peso inexorável da mortalidade. É nesse sentido que Camus pode afirmar que a peste é a mais concreta das forças.” (op cit, p. 97) [19]

Escrevendo sobre o tema, o autor português Hélder Ribeiro aponta outras similaridades e sintonias entre Camus e Nietzsche:

“A origem da ética de Albert Camus está na monstruosidade que consiste em sacrificar os corpos às ideias. Encontramos talvez aqui o segredo do laço que une as concepções de Camus e de Nietzsche. Se Nietzsche empreende uma genealogia da moral cristã, para compreender como esta veio a produzir a negação da própria vida, e isto no contexto da sociedade burguesa do século XIX, Camus empreende uma genealogia da moral política do século XX, para compreender como esta veio a produzir a negação hitlerista e estalinista da vida.

Como na Genealogia da Moral, Camus pensa que a cultura e a moral do Ocidente chegaram a um envenenamento inexorável da vida e trata-se de tirar a máscara. (…) Que deve Camus a Nietzsche? Mais do que afirmações, o clima do seu pensamento, e acima de tudo a recusa global da ficção platônico-cristã dos dois mundos. Não há Além que repare a decepção multiforme de cá-de-baixo e que nos conduza ao Uno. Quando Camus suspira pela unidade, não a refere à ideia platônica que supõe o ultrapassar das aparências. As aparências são a única verdade. O Uno deve descobrir-se na própria dispersão do sensível e a tentação mística só pode ser naturalista.

“Todo o meu reino é deste mundo”, escreve Camus. É a fórmula mais flagrante desta convicção. O corolário é a exaltação do corpo e das verdades que o corpo pode tocar. A verdade do corpo ultrapassa a verdade do espírito. Ora, o mais alto poder do corpo é a arte, que opera uma transmutação do sensível sem o recusar.

O niilismo de Nietzsche, procedendo de uma experiência extrema do desespero, quebrando todos os ídolos do progresso com o mesmo cuidado com que recusava a sombra de Deus, chega, no entanto, a um consentimento radioso, dionisíaco, ao Todo do ser real do mundo, na sua totalidade e em cada realidade particular. O consentimento que dorme na revolta de Camus e lhe dá um sentido, esse “amor fati” que no sim à vida inclui a própria morte, de modo que chega a chamá-la de “morte feliz”, provém em parte de Nietzsche…”. (RIBEIRO, H.) [20]


CAPÍTULO 5: RELEVÂNCIA DE CAMUS NA ATUALIDADE PANDÊMICA

Diante da pandemia de covid-2019 que assola o mundo em 2020, “A Peste” teve uma notável re-ascensão e tornou-se um dos livros mais procurados na Europa, como relata a reportagem da BBC Brasil [21]. Seu status de best-seller na conjuntura deste evento traumático do séc. 21 é prova inconteste não só da atualidade da literatura Camusiana, mas também do brilhantismo com que seu autor sobre tratar dos flagelos da doença somados aos horrores da política. Pois se sabe que a obra nasce sob a influência da Ocupação Nazifascista de Paris, onde Camus escrevia no jornal libertário Combat e participava da Resistência contra a extrema-direita alemã.

O paralelo com o Brasil de 2020 é extremamente possível: a “peste” da covid-19 já é uma lástima terrível por si só, mas a ela se soma o fato de estarmos sob o desgoverno neofascista da seita obscurantista do Bolsonarismo. O chefe da seita, durante toda a pandemia, foi criminosamente irresponsável, acarretando milhares de infecções e mortes ao negar a gravidade do problema, boicotar medidas de isolamento e dar preferência a CNPJs e não a CPFs – ou seja, preferindo agradar empresários, banqueiros e rentistas, aderindo ao “matar ou deixar morrer” no que diz respeito aos trabalhadores empobrecidos pela crise. Além disso, o ocupante do Palácio da Planalto notabilizou-se globalmente por ser o líder do negacionismo do coronavírus, desdenhando de uma doença que em Maio de 2020 já havia ceifado mais de 300.000 vidas, mas que segundo Seu Jair não passa de um “resfriadinho” que não deve preocupar ninguém que tenha “histórico de atleta” e que não deve fazer parar as rodas da economia.

No romance de Camus, o fenômeno do negacionismo da peste, típico do Bolsonarismo na atualidade, também dá as caras. Alves escreve: “A primeira dificuldade dos homens diante da peste é a de reconhecer a sua existência. Por todos os meios procuram negá-la. Muitas vezes simplesmente dando-lhes as costas, outras encarando-a como uma abstração. Primeiro, a administração pública hesita em tomar as providências para não alarmar a população…. Depois, mesmo diante dos sintomas, muitos recusam-se a admiti-la: ‘Mas certamente isso não é contagioso.’, diz um personagem. Por fim, mesmo após o reconhecimento oficial do flagelo e do isolamento importo à cidade, os habitantes ainda resistem a aceitar o fato…” (ALVES, M. p. 98) [22]

A seita necrofílica dos Bolsonaristas tornou-se mundialmente famigerada justamente por este tipo de funesta e macabra irresponsabilidade das ações negacionistas.  Ao seguirem como ovelhas obedientes os ditames do Grande Líder, muitos cidadãos Bolsominions acabaram sabotando medidas de contenção, aglomerando-se para manifestações golpistas, fazendo coro à pregação de Jair de que algumas milhares de mortes eram preferíveis à diminuição dos lucros empresariais. Tudo isso tornou Bolsonaro uma figura internacionalmente repudiada como um dos piores presidentes do mundo em seu trato com a peste, tendo sido denunciado por genocídio e crimes contra a humanidade em tribunais penais internacionais.

Neste contexto, a leitura de Camus torna-se ainda mais relevante ao grifar sempre a importância crucial de transcendermos a angústia solitária e isolada, rumo à solidariedade na revolta:

“A vitória sobre a peste só acontece quando o homem reconhece que se trata de uma tragédia coletiva e, no lugar do isolamento individual, faz da sua cumplicidade trágica com os outros homens um só grito de revolta e lucidamente dá início à sua tarefa de Sísifo: ‘colocar tanta ordem quanto possa em uma condição que não a possui’. É verdade que nesse caso a vitória é sempre provisória, jamais definitiva, mas é a única vitória possível e desejável para aqueles que procuram nada negar nem excluir: nem a condição humana, nem a dor do homem. O médico Rieux, personagem e narrador do romance, encarnará o homem camusiano que vive entre o sim e o não: aquele que não se esquiva da condição humana, mas não se resigna às suas misérias; aquele que aceita o peso da existência, aceita rolar a sua pedra, que é o espelho opaco da sua virtude, mas se recusa a aumentar o mal, tanto através da ação quanto da omissão.” (ALVES, M., op cit, p. 101) [23]

O Dr. Bernard Rieux, encarnação da lucidez e da solidariedade, age em A Peste com um ethos de Zaratustriana fidelidade à terra e a seus viventes. Mesmo que na época em que o romance se passa a cidade argelina de Orã esteja empestada, mergulhada nos flagelos da doença e do sofrimento, Rieux permanece aferrado a este princípio: “O essencial era impedir o maior número possível de mortes e de separações definitivas. E o único meio para isto era combater a peste. Esta verdade não era admirável, era apenas consequente.” (CAMUS, A Peste, I, 1327) [24]

Na verdade, Bernard Rieux não é um Übbermensch super-heróico, mas um médico de carne-e-osso, sujeito à fadiga e ao desespero, mas que decide suportar o peso de sua lucidez e agir incansavelmente com base na sua ética da solidariedade, da empatia e da revolta contra a peste. Esta peste é tanto doença em si quanto, de maneira metafórica, a política fascista, aquilo que chamaríamos hoje, a partir de conceito proposto pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, de necropolítica [25].


CAPÍTULO 6: A AGONIA DE UMA CRIANÇA DIANTE DE UM MÉDICO E UM PADRE

No enredo, o médico Rieux também aparece como o antípoda do padre Paneloux. Onde o cristianismo prega oração e resignação, o médico ateu defende a ação coletiva solidária e obstinada contra o mal. Alves comenta: “Rieux combate ídolos, contesta abstrações, não a marteladas, mas através de sua obstinação em cuidar dos corpos… O médico é aquele que sabe dos limites da condição humana, mas não se submete a eles; sabe que não salvará tudo ou a todos, mas decide agir segundo as suas forças para salvar o que pode ser salvo: alguns corpos, por algum tempo.” (Alves, p. 106) [26]

No destino do Padre Paneloux, Camus nos fornece um memorável memento do que significa o desprezo pela Ciência em tempos de peste. Em meio à Orã transtornada pela epidemia, o padre Paneloux fazia sermões pregando que o flagelo era uma punição divina pelos pecados de alguns de seus concidadãos. Daí saltava para a idéia de que a vontade divina utilizava-se da peste como seu instrumento. E daí foi só um passo até que passasse à noção de que seria heresia ir contra a vontade de Deus: a atitude de um autêntico cristão consistiria na aceitação plena dos decretos do Céu.

No capítulo 3 da parte IV, uma cena-chave de A Peste se desenrola: uma criança gravemente enferma será cobaia para um teste de uma vacina (sérum), uma das esperanças de conter a epidemia. O sofrimento horrendo desta criança dá ensejo para que os personagens reflitam a fundo sobre a condição humana, os males do mundo e as injustiças de que nossa situação existencial está repleta. A tentativa de curar a criança não é bem sucedida e após uma longa agonia, extremamente sofrida, o menino morre. Ao redor do leito, Dr. Rieux, padre Paneloux, Tarrou realizam um debate crucial nesta situação excruciante.

O que está em questão, em última análise, é a dor infligida aos inocentes, em todo seu escândalo. A agonia de uma criança parece causar o desmoronamento da argumentação teológica exposta no primeiro sermão do Padre Paneloux (cap. 3, parte II), segundo o qual a infelicidade (malheur) seria sempre merecida, pois toda peste é punição contra pecadores, um purgativo enviado por Deus (p. 91). Caso aceitássemos o argumento do padre, Orã seria similar a Sodoma e Gomorra e “a peste teria origem divina e caráter punitivo” (p. 95). Daí decorre que o padre recomende a seus concidadãos que se ajoelhem, se arrependem e orem aos céus por misericórdia. Com fé, Deus os ouvirá e salvará. Seu discurso traz o dedo em riste, acusatório, lançando sobre os pecadores a culpa pelo flagelo vivido pela cidade. Assim, inventa-se um sentido como antídoto para o absurdo num procedimento que Slavoj Zizek chama de “the temptation of meaning” [27].

Esta cena d’A Peste em que a agonia da criança é sentida diferencialmente pelo médico e pelo padre está entre as obras-primas da dramaturgia Camusiana e aí também se jogam os lances decisivos para a apreciação plena do que pensa o autor sobre a fé. O sofrimento horrendo de uma criança que agoniza põe em crise o discurso do padre Paneloux, sua noção de que os afligidos pela peste eram pecadores: para manter tal ideologia, seria preciso dizer que a criança era culpada, ou mesmo que nasceu com a culpa provinda do princípio dos tempos, ou seja, do Pecado Original de Adão e Eva. É assim que a fé judaico-cristã pretende nos convencer que é merecido o sofrimento na infância?

O Dr. Rieux opõe-se a esta ideologia religiosa que culpabiliza para que possa manter a fé, ainda que num Deus abjeto e que se sirva da agonia infantil como um de seus perversos instrumentos de vingança contra os pecadores. O Dr. Rieux é muito mais ateu e a vivência da peste só aprofunda seu ateísmo. O suplício e a agonia de uma criança lhe parecem um escândalo injustificável, uma absurdidade que estilhaça a possibilidade de crer em Deus.  Porta-voz do ateísmo Camusiano, o Dr. Rieux se recusa em amar uma criação onde crianças são torturadas, ou seja, recusa a própria noção de um Criador que pudesse ter aceito, como parte do mundo criado, a agonia injusta de pequenas pessoas que vieram ao mundo recentemente e que acabam por ser expulsas dele em meio a um absurdo sofrer.

Na história da filosofia contemporânea, o filósofo Marcel Conche inspirou-se em argumentos muito próximos aos Camusianos para formular suas provas da inexistência de Deus com que abre sua obra Orientação Filosófica. [28]

O ateísmo, em Camus, parece ser a decorrência necessária da lucidez daqueles que não escamoteiam o absurdo da existência e que, através da revolta, alçam-se do “eu sou” ao “nós somos”: superando o racionalismo idealista de René Descartes e seu cogito (“penso, logo existo”), Albert Camus propôs o cogito existencialista-ateu, digno de virar bandeira de todos nós que nos solidarizamos na revolta contra os males de que o mundo terrestre está repleto: “eu me revolto, logo somos”.

Ao adoecer, o padre Paneloux recusa-se terminantemente a chamar um médico – ainda que soubesse que o Doutor Rieux estaria a postos, prestativo, para atendê-lo, sem poupar esforços para salvá-lo. Para o padre Paneloux, há uma contradição insolúvel entre a fé e a ciência: para manter-se crente, ele precisa recusar a medicina. No extremo do delírio desta fé auto-destrutiva, prefere fechar as portas ao socorro que poderia lhe vir dos terráqueos, permanecendo aberto apenas ao socorro que lhe viria do divino. Agarra-se ao crucifixo, recusando hospitais e remédios.

A desastrosa escolha de Paneloux o conduz a uma agonia horrorosa, sem analgésicos nem morfina, em que ele decide imolar a saúde num altar imaginário onde pensava estar encontrando a salvação. Encontrou apenas a morte absurda dos que desdenham daquilo que o ser humano pôde inventar, neste mundo, em prol do auxílio mútuo e da solidariedade concreta.

No livro de George Minois sobre A História do Ateísmo, Camus aparece como um artista-pensador que jamais recomenda que percamos tempo de vida com a ânsia de ascensão a um Paraíso transcendente, prometido aos “eleitos”, aos que tenham sido dóceis e obedientes nesta vida. Camus convoca para que trabalhemos juntos neste mundo para torná-lo menos opressivo e mais amável, o que exige que possamos assumir nossas responsabilidades. Não aquela responsabilidade de “servir a um ser imortal”, mas sim a de livrar-se desta subserviência para assim “assumir todas as consequências de uma dolorosa independência”. (MINOIS: p. 671) [29]

Como diz Marcelo Alves, na obra A Peste está ilustrado que “o pessimismo de Camus, longe de ser resignado ou valorar negativamente a vida, pretende, através da revolta diante da peste, culminar num lúcido sim à vida.” (ALVES, M. Pg 98) [30] De modo que a lucidez é uma das virtudes que Camus celebra entre as supremas. Não a lucidez derrotista, resignada ou solitária, mas a lucidez clarividente, a capacidade de enxergar com clareza, inclusive e sobretudo os males concretos que nos afligem e aos quais só a solidariedade das revoltas pode fazer frente.


 

CAPÍTULO 7: A CONCRETUDE EM CARNE-E-OSSO DE NOSSA CONDIÇÃO

A tarefa de ver claro torna-se mais difícil diante dos flagelos da peste, da pandemia, da guerra, pois enxergá-los em toda sua horrífica realidade é perturbador para a psiquê humana, que vê-se em apuros para “digerir” tais experiências. Preferimos então recusar a concretude dos sofrimentos das pessoas de carne-e-osso para olhar o problema através do prisma de pálidas abstrações e estatísticas. Pode-se ler em livros de História que umas 30 pestes que o mundo conheceu fizeram cerca de 100 milhões de mortos, mas quem nunca viu nem conheceu sequer um desses vivos transformados em cadáveres pode se ver tentado a deixar-se esse número torna-se uma fumaça na imaginação, sem carne e sem sangue.

Por isso a literatura é tão crucial e imprescindível: ao ler uma obra como A Morte de Ivan Ilítch, de Tolstói, podemos ter acesso a uma morte concreta e individualiza, que nos comove pelo que tem tanto de idiossincrática quanto de expressiva da condição humana geral. A Peste de Camus também funciona maravilhosamente como um dispositivo literário de concretização, um livro destinado a nos ensinar como os seres humanos de carne-e-osso lidam com o flagelo pestífero. A certo ponto, o Doutor Rieux relembra da peste de Constantinopla, que em seu pico fazia 10.000 vítimas fatais por dia, e pede que imaginemos o público de 5 grandes cinemas sendo assassinado na saída do filme (pg. 42).

Dar concretude às estatísticas, fornecer carnalidade aos números, fazer-nos sentir visceralmente aquilo que se esconde por trás de relatórios burocráticos ou meditações abstratas, é uma das funções essenciais da literatura. Rieux está impedido por seu ofício de médico de “abstrair” em meio à peste pois é obrigado a lidar com a concretude de doentes e mortos, de tosses e catarros, de agonias e cadáveres. Sua lucidez é trágica! E a única salvação que concebe é a união solidária de pessoas que trabalham juntas contra o flagelo. Pois isolar-se, fechar-se na mônada e no monólogo, não é nenhuma solução contra o absurdo. Separação e isolamento nunca serão panacéias.

O ator William Hurt, que interpreta o médico Rieux na adaptação cinematográfica do romance de Camus realizada por L. Puenzo em 1992

Rieux recusa a resignação, a prece, a passividade. Tampouco deseja fazer pose de herói. Sua humildade lúcida está em saber que não salvará todo mundo, apenas alguns corpos por algum tempo. Este médico sabe que suas vitórias são sempre provisórias mas que esta não é uma razão para cessar de lutar. Trata-se sempre de adiar a morte para mais tarde, pois restabelecer a saúde de alguém jamais significa livrá-lo da incontornável finitude.

– Já que a ordem do mundo é regrada pela morte, talvez convenha a Deus que não se creia nele e que se lute com todas as forças contra a morte, sem levantar os olhos para o céu onde ele se esconde. (ALVES, op cit, p. 106) [31]

Este ateísmo Camusiano, que se manifesta em Rieux, tem a ver com uma crítica que o autor de O Homem Revoltado faz ao processo de sacrifício de pessoas concretas em nome de um ideal, um valor absoluto, uma abstração descarnada. Até mesmo Marx e Nietzsche são denunciados por Camus por terem instituído uma espécie nova de idealismo em que a sociedade sem classes do futuro comunismo ou os espíritos livres e Übermensch do porvir serviriam como ideais laicizados. Assim, substituem a noção religiosa de outra vida, acessível pela morte, por uma outra vida a ser construída e concretizada mais tarde – trocam o além pelo mais tarde. Chamo isto de uma oposição entre uma transcendência vertical (as pessoas que crêem numa ascensão ao céu, após a vida terrena) e a transcendência horizontal (as pessoas que crêem numa transfiguração desta vida terrena nos amanhãs cantantes de um futuro que está no horizonte). 

Se o entendo bem, Camus propõe uma imersão na imanência em que possamos celebrar as núpcias com a vida e a natureza, nas quais devemos amorosamente nadar como peixes deleitando-se na imensidão do mar. É óbvio que este mar está repleto de tubarões, que há predação e peste, sofrimento e finitude, injustiça e opressão, mas também extremas belezas e deleites, uma grandeza implacável que devemos aceitar e abraçar com toda lucidez e clarividência que pudermos. Viver é mergulhar no absurdo mas não deixar-se afogar aí. Este banho de absurdo só pode ser redimido pela cumplicidade revoltado dos solidários, dos justos, dos que trabalham juntos em prol de uma realidade menos absurda. A medicina, para Rieux, é um trabalho de Sísifo ateu – e é preciso imaginá-lo feliz, empurrando pedregulhos montanha acima, no aprendizado perene com todos os esforços e tombos.

Em O Mito de Sísifo, Camus escreveu: “Se Deus existe, tudo depende dele e nada podemos contra sua vontade. Se ele não existe, tudo depende de nós.” [32] A fé em Deus desempodera o ser humano, coloca-nos na dependência de uma vontade alheia e de uma autoridade transcendente, condenando-nos à “minoridade” tutelada de uma criança que não ousa fazer uso pleno da força de sua razão [33]. Já o ateísmo nos liberta para as difíceis tarefas da responsabilidade, da solidariedade, das construções coletivas de sentido que façam frente aos absurdos que sempre ameaçam nos submergir.

Confinados na finitude de uma vida que fatalmente terminará, condenados à angústia que é o ambiente perene do ser humano lúcido, temos somente esta vida, este mundo, este espaço, este tempo, para celebrar nossas fenecíveis núpcias com o real. Quem não se revolta contra as injustiças e opressões que impedem estas núpcias, quem não se solidariza diante dos males que nos afligem em comum, este é um semi-vivo ou um zumbi, sempre necessitado de ser despertado pelas amargas mas salutares verdades que a arte e a filosofia podem conceder.

Sem além nem deus, espíritos livres Camusianos plenamente fiéis à terra, sejamos Sísifos felizes! Estejamos aqui-e-agora solidários, lúcidos, clarividentes e reunidos na revolta. Somando forças, alentos, beijos, amplexos, vozes e obras que permitem nossas núpcias com a vida, a natureza e os outros. Sem nunca esquecer que a angústia solitária precisa ser transcendida por uma revolta solidária que seja o emblema em ação de nossa “insurreição humana” – aquela que, como escreve Camus em O Homem Revoltado, “em suas formas elevadas e trágicas não é nem pode ser senão um longo protesto contra a morte, uma acusação veemente a esta condição regida pela pena de morte generalizada.” [34]

Por Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro [www.acasadevidro.com]
Goiânia, Maio de 2020

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REFERÊNCIAS E NOTAS BIBLIOGRÁFICAS, CINEMATOGRÁFICAS E FONOGRÁFICAS

[1] CAMUS, Albert. Núpcias  / O Verão. Editora Círculo do Livro, 1985.

[2] THE FLAMING LIPS. Ao usar a expressão “grau de realização da mortalidade”, penso sobretudo nos versos de uma canção da banda estadunidense de rock alternativo The Flaming Lips, chamada “Do You Realize?” (também interpretada por Sharon Von Etten), presente no álbum Yoshimi Battles The Pink Robots, em que o ouvinte é interpelado pela questão: “você realmente percebe que todo mundo que você conhece um dia vai morrer?” The Fearless Freaks é um excelente documentário sobre a trajetória da banda.

“Do you realize that everyone you know someday will die?
And instead of saying all of your goodbyes, let them know
You realize that life goes fast
It’s hard to make the good things last
You realize the sun doesn’t go down
It’s just an illusion caused by the world spinning round…”

[3] PESSOA, Fernando. Mensagem. O trecho completo diz: “Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?”. A mesma expressão aparece nas Odes de Ricardo Reis:

NADA FICA de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.
Leis feitas, estátuas feitas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A quem um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

— Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa), in “Odes”.

[4] BECKER, Ernest. A Negação da Morte (The Denial Of Death). Vencedor do prêmio Pulitzer, o livro também inspira o documentário The Flight From Death (2005), que compartilhamos na íntegra a seguir:



[5] SAMPAIO, Sérgio. Canção “Ninguém Vive Por Mim”. Em: Tem Que Acontecer. Saiba mais neste artigo em A Casa de Vidro.
[6] PARRA, Nicanor. O poeta chileno que viveu 103 anos (1914 – 2018), irmão da lendária cantora, compositora e folclorista Violeta Parra, escreveu muitas profundas reflexões sobre a morte.
[7] EPICURO. Carta Sobre a Felicidade (a Meneceu). Sobre o tema, acesse em A Razão Inadequada o artigo Epicuro e a Morte da Morte.
[8] MONTAIGNE, Michel. Ensaios. Capítulo XX. Em: Os Pensadores, Abril Cultural.
[9] BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. Publicado originalmente em 1930.
[10] CAMUS, AlbertO Mito de Sísifo. Ed Record, 2004.
[11] MUJICA, José. Em: Rede Brasil Atual.
[12] BRECHNER, Alvaro. La Noche de 12 Años (2018), filme uruguaio que retrata ações do militantes Tupamaros, que lutavam contra a ditadura militar, e suas vivências na cadeia.
[13] CAMUS, ALa Peste. Folio: 1999, Pg. 191.
[14] ONFRAY, Michel. A Ordem Libertária – A Vida Filosófica de Albert Camus. Flammarion, 595 págs. Citado a partir de artigo na Revista Cult.
[15] ALVES, MarceloCamus: Entre o Sim e o Não a Nietzsche. Florianópolis, 2001, Ed. Letras Contemporâneas.
[16] CAMUS. Essais, Paris: Gallirmard, 1993, 75 – 80.
[17] [18] [19] ALVES, M. op cit, idem nota 15.
[20] RIBEIRO, Hélder. Do Absurdo à Solidariedade: A Visão de Mundo de Albert Camus. Lisboa: Editorial Estampa, 1996. Pg. 89-90.
[21] BBC News Brasil. ‘A Peste’, de Albert Camus, vira best-seller em meio à pandemia de coronavírus.
[22] [23] ALVES, M. op cit, idem nota 15.
[24] CAMUS, A. La Peste. Op cit.
[25] MBEMBE, AchilleNecropolítica. Saiba mais em A Casa de Vidro.
[26] ALVES, M. op cit, idem nota 15.
[27] SLAVOJ ZIZEK fala em “the temptation of meaning” ao responder as questões de Astra Taylor, realizadora do filme documental Examined Life: “Meaning allows us to create fantasies which defend ourselves from the awful truth that we’re bags of meat who can never escape death. That is, the turn towards subjectivity is itself a defense mechanism against the fact that the universe doesn’t care. God, whether He be loving or vengeful, is a way of turning this utter indifference into a fantasy of mattering.”

[28] CONCHE, Marcel. Orientação Filosófica. Ed. Martins Fontes. Coleção Mesmo Que O Céu Não Exista.
[29] MINOIS, George. História do Ateísmo. Ed. Unesp, pg. 671.
[30] [31] ALVES, M. op cit, idem nota 15.
[32] CAMUS, A. O Mito de Sísifo. Citado em: MINOIS, op cit, idem item 29.
[33] A conclusão atéia não condiz com as apostas kantianas na necessidade de Deus como “apêndice” da razão prática, mas aqui penso no auxílio salutar que o ateísmo concede ao sapere aude tal como descrito por Immanuel Kant em seu texto sobre o Iluminismo / Esclarecimento.
[34] CAMUS, A. O Homem Revoltado. Capítulo: “Niilismo e História”. Ed. Record, 2003, p. 125.

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APRECIE TAMBÉM:

Um combate contra o Absurdo | Albert Camus (documentário completo e legendado)

Filosofia e Eco-Anarquia em Tempos de Pandemia (Webdebate: A Casa de Vidro e Monstro dos Mares)

No dia 08 de Maio de 2020, sexta-feira, A Casa de Vidro, em parceria com a Editora Monstro dos Mares e o Grupo de Estudos em Complexidade, realizaram o webdebate “Filosofia e Eco-Anarquia em Tempos de Pandemia” – com Janos Biro Marques Leite, Pedro Tabio, Renato Costa e Eduardo Carli de Moraes. Assista na íntegra (2h36min):


Introdução

Combinando a crítica anarquista ao Estado e ao Capital com uma perspectiva ecocêntrica vinda do veganismo, do primitivismo, da crítica à sociedade industrial ou da ecologia profunda, a filosofia eco-anarquista tem se mostrado uma fonte valiosa de reflexões e provocações para o contínuo desenvolvimento das teorias e práticas anarquistas, desafiando os paradigmas das escolas de pensamento mais tradicionais.

São consideradas como ligadas ao eco-anarquismo as seguintes tendências: o anarco-naturismo (inspirado por Thoreau, Tolstoi e Élisée Reclus), a ecologia social (que não se limita ao movimento iniciado por Bookchin), o anarcoprimitivismo (representado por John Zerzan e os autores da revista Green Anarchy) e o veganarquismo (movimento anarquista e vegano).

O anarcoprimitivismo e o veganarquismo se destacam em tempos de pandemia pela crítica que já faziam há muito tempo à sociedade de massas e à domesticação de animais como fatores da produção de pandemias e novas doenças. (Janos Biro)

CONHEÇA OS DEBATEDORES:

PEDRO TABIO é urbanista, bioconstrutor, agricultor, inpermacultor libertário, eco-anarquista e editor na Monstro dos Mares.

JANOS BIRO é formado em filosofia pela UFG e membro do coletivo eco-anarquista Contra a civilização (contraciv.noblogs.org). Criador do site Contrafatual (contrafatual.com).

RENATO COSTA é chef vegano e estudante de jornalismo na UFG.

EDUARDO CARLI é jornalista, filósofo, mestre em Ética e Filosofia Política pela UFG, professor do IFG, fundador d’A Casa de Vidro, onde atua como agitador cultural.

ASSISTA:

Youtube

Vimeo


PAUTA TEMÁTICA

I) E O LOCKDOWN, ANARQUISTAS? Se observarmos as crises econômicas e políticas, os alertas climáticos, e agora a crise epidemiológica, muito do que um suposto alarmismo radical anunciava vem se concretizando. Hoje os bolsonaristas acusam a pauta do isolamento de alarmismo. Entretanto subjaz o problema da condução das medidas de isolamento por parte do Estado, amparado pelas recomendações dos organismos internacionais de saúde. Na visão de vocês, a possibilidade de isolamento total, obrigatório, conhecido como lockdown, contraria o princípio libertário defendido pelo anarquismo? O fator de controle sanitário, e consequentemente, a necessidade compulsória de isolamento legitimado pela ciência, em “defesa de vida”, contrariam as liberdades individuais e os princípios da auto-gestão coletiva? Quero dizer, o lockdown atenta, por princípio, contra a organização autônoma das comunidades? Ou seria manipulável apenas em caso de qualquer tipo de autoritarismo se valer da pandemia como álibi da repressão, no oportunismo da condução da crise em favor do Estado e do Capital?


II) TECNOFOBIA vs TECNOFILIA

Os ativistas eco-anarquistas, no que diz respeito às táticas de enfrentamento das forças sociais que causam as catástrofes ecológicas, aceitam de bom grado o uso das tecnologias digitais e das mídias sociais como ferramentas de mobilização? Percebem pautas em comum com movimentos como o Software Livre e certas vertentes do circuito hacker? Ou vocês consideram que a anarquia verde aproxima-se mais do anarco-primitivismo, da recusa diante de um cenário cibernético dominado por empresas como Facebook, Google, Apple etc.? Digo isso pois uma publicação do Comitê Invisível, Foda-se o Google (faccaoficticia.noblog.org), coloca em foco a diferença entre movimentos caracterizados por tecnofilia ou por tecnofobia, arriscando também a seguinte caracterização:

“O grosso dos marxistas e pós-marxistas juntam à sua propensão atávica para a hegemonia um certo vínculo à técnica-que-liberta-o-homem, enquanto uma boa parte dos anarquistas e pós-anarquistas se acomodam sem dificuldade numa confortável posição de minoria, ou mesmo de minoria oprimida, acantonando-se geralmente em posições hostis à ‘técnica’. Cada tendência dispõe até da sua caricatura: aos partidários negristas do ciborgue, da revolução eletrônica pela multidão conectada, respondem os anti-industriais que fizeram da crítica do progresso e do ‘desastre da civilização tecnicista’ um gênero literário bem rentável, feitas as contas, e uma ideologia de nicho onde nos mantemos quentes e aconchegados, à falta de entrever uma qualquer possibilidade revolucionária. Tecnofilia e tecnofobia formam um par diabólico unido por essa mentira central: que uma coisa como a técnica existe.” (Cap. 4)

w.capaGOOGLE-web.cleanedFoda-se o Google [Baixar PDF]

Fragmento do livro Aos Nossos Amigos do Comitê Invisível que trata da expansão tecnológica e política sobre as formas de governo e controle social. “Uma empresa que mapeia todo o planeta, enviando equipes para fotografar cada rua de cada cidade não pode ter interesses apenas comerciais. Ninguém mapeia um território sem intenções de dominá-lo. ‘Don ́t be evil’”.

1. Não existem “Revoluções de Facebook” mas uma nova “Ciência de Governo”, a Cibernética. 2. Guerra a tudo que for Smart! 3. Miséria cibernética. 4. Técnicas contra tecnologia.


III) INTEGRAÇÃO COMUNITÁRIA EM TEMPOS DE CONSUMISMO PREDATÓRIO

Considerando mais especificamente o sujeito político contemporâneo, em relação com a coletividade massificada pelas formas de consumo predatórias, estimuladas em grande parte pela hegemonia neoliberal do culto ao mercado, quais seriam as dinâmicas entre o papel do indivíduo e sua integração comunitária para fixarmos uma agenda de transformações ambientais e sócio históricas, desejáveis no futuro próximo? Mais especificamente ainda, de acordo com os aspectos sociais da atual crise do Coronavírus, interpretados pelo crítica eco-anarquista ao capitalismo em geral, quais as estratégias eco-anarquistas que permitiriam a cada um e cada uma de nós influir numa conjuntura de luta contra as opressões coletivas e a degradação ambiental? Ou seja, minha pergunta vai no sentido de buscar saber como equacionar indivíduo e sociedade, do ponto de vista da filosofia anarquista, no contexto da crise ecológica e sanitária!


IV) A BADERNA ORGANIZADA?

A coleção de livros Baderna, originalmente publicada pela ed. Conrad, depois relançada pela Veneta, trouxe ao público brasileiro a oportunidade de conhecer mais sobre grupos anarquistas e similares, como Luther Blissett, organizados mundo afora, além de propiciar contato com pensadores como Hakim Bey e Raoul Vaneigem. Qual seria, para vocês, a importância de organizações coletivas de ativistas eco-anarquistas? Quais os exemplos destas que vocês poderiam citar? O que pensam sobre certas experiências no mundo atual, citadas por Camila Jourdan e Acácio Augusto, de regiões “liberadas” onde princípios anarquistas estão presentes na prática? Os autores se referem sobretudo “À experiência zapatista no México, cujos territórios autônomos se organizam de maneira federalista libertária, sem Estado e de modo comunal, e o confederalismo libertário de Rojava, no território de ocupação majoritariamente curdo que derrotou o Daesh (Estado Islâmico) e hoje está sob ameaça militar do Estado turco.” (pg. 9)


V) CARNISMO INFECCIOSO – UMA OUTRA ALIMENTAÇÃO ANARCOVEGANA É POSSÍVEL? Em relatório da OMS, Ben Embarek, especialista em segurança alimentar, atesta-se que o novo coronavírus veio do morcego, provavelmente mediado por um outro animal “criado para fornecer alimento”. Além disso, confirmou o que Manuais Epidemiológicos chineses já atestavam: a doença pode circular entre gatos, furões e cachorros. Estes fatos colocam em destaque o risco sanitário envolvido no consumo de carne e no morticínio de animais. O Vegan-arquismo vem denunciando há muito o abandono e a domesticação dos animais – uma sendo condicionante da outra. Pergunto: como vocês trata dessas urgências éticas e ecológicas, a exemplo da necessidade de se adotar uma dieta vegetariana, ou de se representar o veganismo como orientação ao consumo, e também como filosofia em si? Como vocês vêem o papel do veganismo na crise ecológica e na crise sanitária?


VI) A ABOLIÇÃO DO ESTADO: AINDA É O CENTRO DA PROPOSTA ANARCO?

Em Marx Selvagem, Jean Tible busca um “diálogo entre as concepções marxiana de abolição do Estado” com a noção de Pierre Clastres de uma “sociedade contra o Estado”. Sabemos que Marx polemizou com grandes anarquistas de sua época – Bakunin, Proudhon e Max Stirner – a respeito do processo de abolição do estado, visto como fim tanto pelo anarquismo quanto pelo comunismo. A diferença essencial estaria na reivindicação anarquista de extinção súbita do Estado em contraste com um processo mais gradual no âmbito do marxismo que prevê uma transição – a ditadura do proletariado servindo-se do Estado como “instituição transitória, da qual nos servimos na luta durante a revolução para reprimir à força os adversários” (ENGELS, citado por Tible, pg. 192). Para Lênin, o Estado burguês é sucedido pelo Estado proletário no pós-revolução de modo a “reprimir a resistência dos exploradores” (ou seja, combater a reação contra-revolucionária) mas também para “dirigir a grande massa da população na efetivação da economia socialista” (Lenin, 1918, citado por Tible, p. 194). Como compreendem os eco-anarquistas esta questão? É preciso abolir o Estado imediatamente ou gradualmente? De que modo a preocupação com as questões ambientais, ecológicas, de sustentabilidade, justifica práticas e movimentos que visam esmagar o Estado? E como ficam os Mercados e Corporações nesta luta, considerando-se que os Estados neoliberais atuais são basicamente lacaios das mega-empresas e seus financiadores, seus banqueiros, a classe rentista?


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O DIABO VESTE VERDE-E-AMARELO || A Casa de Vidro

O Inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.” 
WILLIAM SHAKESPEARE, A Tempestade

Os “suicidadãos” e “patriotários” [1] que lambem as botas da familícia Bolsonaro são uma lástima tão nefasta para as populações que habitam este território chamado Brasil quanto a pandemia do coronavírus. São desastres que se somam.

Millôr Fernandes dizia que “o patriotismo é o último refúgio do canalha. No Brasil, é o primeiro” [2]. Hoje em dia, muitos Bolsominions consideram-se patriotas mas seguem cegamente a um Coiso que faz continência para a bandeira dos U.S.A., parece uma cheerleader de Donald Trump e fala “e daí?” para 5.000 brasileiros mortos pela doença que ele poderia ter agido no sentido de combater, minimizando seus impactos. Preferiu, como de praxe, ser o disseminador de fake news, desinformação, ódio cego, fanatismo anti-científico: Bolsonaro, parceiraço da foice da Morte que hoje nos ceifa, impiedosa.

Qualquer chefe de Estado digno de seu cargo trataria de cuidar, com todas as suas forças, de evitar vidas perdidas. Só que não: ao invés do cuidado com a saúde do povo, Jair decidiu ser aliado do vírus e do extermínio. De suas mãos e de sua boca pinga um profuso sangue – e muitos de seus seguidores-zumbi bebem este sangue como se fosse vinho. E tornam-se ainda mais raivosos e sanguinários. Urram em prol de um “novo-AI5”, querem o fechamento do Congresso Nacional e do STF, como se o Grande Líder deles já não tivesse poderes o suficiente e precisasse se tornar um autocrata, um tsar, um ditador, com plenos poderes para mandar, desmandar e abusar.

Quando aglomeram-se em grandes rebanhos para gozar do prazer duvidoso de estar nas proximidades de seu “Mito”, estes suicidadãos não estão apenas colocando suas saúdes e vidas em risco – estão atentando contra todos nós ao se tornarem possíveis vetores de transmissão da covid19. A estupidez deles é um flagelo coletivo que só agrava os impactos já gravíssimos daquele “resfriadinho”, desdenhado pelo presifake, que já matou 250.000 vidas humanas. Ao sabotar as medidas de isolamento social, ao desdenhar da profilaxia coletiva que intenta salvar nosso sistema de saúde do colapso, Bolsonaro e seus minions agem como Bestas do Apocalipse.

Só nos EUA, a “gripezinha” já ocasionou mais óbitos do que o número total de soldados estadunidenses que tombaram sem vida durante os 20 anos de invasão imperial do Vietnã (como mostrou a reportagem do The Intercept Brasil) [3]. Ciente disso, seu Jair continua atuando como um atentado ambulante à saúde coletiva, pisoteando as recomendações da OMS, sendo criminosamente irresponsável feito um serial killler, tuo isso diante de instituições acovardadas e de uma população impedida de insurreição pela falta de condições sanitárias para ações de massa.

O empoderamento dos idiotas tornou-se no Brasil algo mais do que um farto manancial para os humoristas fazerem graça com nossa tragicomédia sem fim: a imbecilização viral, de que o Bolsonarismo é o mais grave dos sintomas, é hoje uma maré mortífera que espalha os poderes de Tânatos em um país que atravessa uma hecatombe anunciada.

Diante de uma pilha com mais de 10.000 cadáveres evitáveis, ainda havia no início de Maio de 2020 – pasmem, historiadores do futuro! – quem ainda se aglomerasse diante do pseudo-Messias. Não foram ensinados a desconfiar, com senso crítico vigilante, de energúmenos cheios de ganância e ambição que usam de demagogia barata para tratar seres humanos como gado-de-manobra: o Capetão adora citar a Bíblia, e tem quem engula esta instrumentalização do “sagrado” para fins demagógicos sem nem suspeitar que o Diabo, se existisse, saberia citar as Escrituras.

Diante do estarrecimento que esta patologia social do Bolsonarismo traz àqueles brasileiros que conservaram a lucidez, o senso crítico e o amor à liberdade, resta-nos recusar o inadmissível – e seguir na revolta que pudermos diante desta avalanche de absurdos.

No futuro, os historiadores honestos desta época, olhando para trás a partir de um prisma mais distanciado, quando o homem Jair não passar de ossos enterrados em um túmulo que precisará de soldados o defendendo para que não seja pixado, depredado e profanado, estes historiadores talvez escrevam sobre nosso presente-tornado-passado como uma época passageira de transe lunático que felizmente passou e foi superada. Como diz Frei Betto, tenhamos este fiapo de otimismo e “deixemos o pessimismo para dias melhores”.

Bolsonaro, em alguns anos estará morto e decomposto – e será difícil encontrar algum Minion que o defenda quando os tribunais penais o classificarem como um criminoso do naipe de Pinochet ou Himmler.

Mas que nunca nos esqueçamos! Em meio à pandemia, o Brasil ainda era a terra do apartheid, o último refúgio do escravismo, a última nação a abolir oficialmente o tráfico de seres humanos, o país dos mais de 60.000 homicídios anuais, o líder global na violência homofóbica, o local onde mais são assassinados ativistas ambientais e dos direitos humanos, o distópico lócus de um aprisionamento em massa e de uma Guerra às Drogas conexos à persistência do racismo estrutural e do terrorismo de Estado. Etc. etc. etc. pois não quero saturar o leitor com nossa montanha de horrores. E diante de tudo isso haviam muitos dentre nós, brasileiros, que se sentiam representados e empoderados pelo Seu Jair, com todo aquele anacrônico e abominável racismo, machismo e elitismo vomitado constantemente por sua boca-de-esgoto, faminta por hecatombes, fanática por ditadura, adoradora sádica da tortura.

Ele pode ser rico e famoso, mas Bolsonaro é um ser humano profundamente fracassado, incapaz de aprendizado, estagnado numa cultura do ódio, fóssil vivo de uma mentalidade retrógrada e assassina. Apesar dos poderes que usurpou, representa o fracasso da humanidade, o triunfo de nossas piores perversidades, o egoísmo mais mesquinho e mais vil, a incapacidade de amar a diversidade e de respeitar o humano em todas as suas formas. Ele representa o ser humano decaído a um estado cada vez mais bestial, apesar das máscaras que veste de cidadão-de-bem e homem-de-família, pois monstruosamente prega a seus seguidores-ovelha o extermínio de indígenas, quilombolas, petistas, ribeirinhos, comunistas, afrobrasileiros, idosos… O negócio do Bolsonarismo é o extermínio lucrativo. Eles são o capitalismo exacerbado, em estado de necrose.

O problema não está somente no indivíduo Jair Bolsonaro, um ser humano nojento e desprezível, campeão do desrespeito, nota zero em ética, que em 30 anos de vida como político nunca fez nada que prestasse em prol do bem comum. O problema está nas ovelhas raivosas que seguem este pseudo-Messias, que o consideram um “cidadão-de-bem” mesmo quando ele ensina crianças de colo a fazerem arminhas. Diante disso, o silêncio seria cumplicidade com a barbárie. Precisamos falar como se isto fizesse diferença, como se nossas palavras pudessem acordar nossos concidadãos infectados pelo Bolsonavírus, como se fosse possível a disseminação da luz da lucidez a partir do fogo aceso de milhares de críticas que se fazem unânimes na recusa, ainda que polifônicas nas propostas de alternativas e horizontes.

#ForaBolsonaro

REFERÊNCIAS

[1] Neologismos criados pelo poeta e tradutor José Paulo Paes, presentes em poema do livro “Poesia Completa” (Cia das Letras). Saiba mais: https://wp.me/pNVMz-4P.

[2] Millôr Fernandes citado por Xico Sá no artigo da Folha De São Paulo, “O patriotismo como refúgio dos canalhas”.

https://xicosa.blogfolha.uol.com.br/…/o-pat…/comment-page-1/

[3] The Intercept – Em poucos meses, o coronavírus já matou mais americanos que os 20 anos da Guerra do Vietnã. https://theintercept.com/…/28/coronavirus-eua-mortes-vietna/

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“Saúde Psíquica e Convivências Familiares na Era do Coronavírus” (LIVE @ A Casa de Vidro, 02/05/2020, 15h)

A Casa de Vidro (www.acasadevidro.com) realizou no Sábado (02/05/2020), às 15h, o webdebate “Saúde Psíquica e Convivências Familiares na Era do Coronavírus”. Nossas convidadas foram Beatriz de Paula Souza e Francine Rebelo. Mediação: Eduardo Carli de Moraes. Assista à live no canal do Youtube d’A Casa de Vidro Ponto de Cultura ou pelo site www.acasadevidro.com. Conheça as debatedoras:

FRANCINE REBELO é Cientista Social e Antropóloga, atualmente doutoranda em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina. É professora, militante por uma educação gratuita e de qualidade, feminista e mãe do Raul.

BEATRIZ DE PAULA SOUZA é Psicóloga e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – IPUSP, onde coordena o Serviço de Orientação à Queixa Escolar, do Laboratório Interinstitucional de Estudos e Pesquisas em Psicologia Escolar – LIEPPE. Organizadora das coletâneas “Orientação à Queixa Escolar, Medicalização de Crianças e Adolescentes” e autora do livro “Histórias de Educação”, além de artigos e capítulos de livros de Psicologia na interface com a Educação. Uma das fundadoras do GIQE (Grupo Interintitucional Queixa Escolarhttps://www.queixaescolargiqe.com/) e do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, associada à Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional – ABRAPEE.

EDUARDO CARLI DE MORAES é jornalista formado pela UNESP e filósofo formado pela USP; mestre em Ética e Filosofia Política pela UFG, atua como professor do Instituto Federal de Goiás (IFG), câmpus Anápolis. Criador e coordenador d’A Casa de Vidro – Ponto de Cultura e Centro de Mídia Independente (www.acasadevidro.com), em atividade na Internet desde Novembro de 2010.

* * * * *

Assista no Canal do Youtube d’A Casa de Vidro:
https://www.youtube.com/channel/UCrs5xa4CQkJob9A78rnq6rA

1º BLOCO

Veja gravação na íntegra sem edições:

ACESSE ROTEIRO NORTEADOR DO DEBATE

Obs: A ilustração utilizada na criação do poster é de autoria de Agata Nowicka / publicada originalmente em BuzzFeed News.


PAUTA TEMÁTICA – ROTEIRO

1) Quais seriam os principais efeitos do confinamento sobre a psiquê humana? E, em específico, o que significa para as crianças estarem confinadas no espaço doméstico, sem escola nem parquinho? Livros como “Desemparedamento da Infância” e sites como criançaenatureza.org apontam a importância, para o desenvolvimento são das crianças, dos espaços abertos, das brincadeiras na natureza, da exploração do território mais amplo etc. Em suma: na perspectiva da psicologia e da antropologia, quão importantes são o movimento e a ação no aprendizado vital infantil? Que autores vcs conhecem que refletiram sobre isso? (Winnicott? Pediatras da S.B.P.?) 

2) Sofrer é inerente à vida e oportunidade de aprendizado. Porem vivemos um período onde o adoecimento psíquico e tende a aumentar a busca por amparo e tratamento, com a ascensão de condições de transtorno de ansiedade, depressão, tendências suicidas, melancolia vinculada à falta de sentido da vida etc. Ao mesmo tempo, vivemos em uma época altamente farmacológica – desnudada por autores como Paul Beatriz Preciado (Testo Junkie) ou Robert Whitaker (Anatomia de Uma Epidemia).

Diante do sofrimento psíquico, tendemos a apelar para os remédios psicotrópicos. O que vcs pensam disso? É aceitável, no contexto, o uso massivo e o incremento na comercialização de soníferos, ansiolíticos, antidepressivos? Ou vcs ainda preferem e recomendar psicoterapias como a Psicanálise (cura pela fala), Logoterapia (proposta por Viktor Frankl), Gestalt, Cognitiva-Comportamental, Corporal (Wilhelm Reichiana), meditação e yoga etc.?

3) Outra complicação que o isolamento social imposto pela pandemia traz, como apontam muitos pesquisadores e já foi relatado em várias reportagens, é a dificuldade nas convivências familiares – os índices de violência doméstica, sobretudo feminicídios, estupros, episódios de homofobia, filhos maltratados por agressões de parentes. A jornalista Eliane Brum recentemente pesquisou e escreveu sobre suicídios juvenis em alta na cidade mais violenta do país, Altamira (Pará). Francine, como estudiosa da obra de pensadoras como Silvia Federici, o que você pensa sobre a condição feminina, o trabalho não remunerado, a opressão de gênero e a masculinidade tóxica neste contexto? Precisamos de feminismo, interseccionalidade e descolonização em tempos pandêmicos?

4) O contexto pandêmico implicou a suspensão das atividades escolares: isto faz com que os pais valorizem mais o trabalho de educadores que cuidam, instruem e favorecem o desenvolvimento psíquico e cognitivo de seus filhos? Como vocês prevêem que será a volta às aulas? Beatriz leu em vídeo prévio um texto interessante que reivindica para as crianças o direito a “uma semana de anarquia”, em que pudessem correr, pular, dançar, cantar, rolar na grama, sem que os educadores impunham “conteúdos” para “correr atrás do prejuízo”. O que vcs recomendariam aos educadores para que possam lidar com as crianças que estão saindo do período de isolamento? Que traumas e confusões crianças e adolescentes podem trazer para o contexto de volta às aulas que não existiam antes da interrupção pandêmica das atividades escolares?

5) Em belo seriado televisivo recente, “Kidding” (estrelado por Jim Carrey), surge uma questão pertinente: o protagonista é um âncora de TV que tem uma alta audiência com seu programa infantil de marionetes (puppet time), porém sofre um trauma familiar severo: seu filho criança morre em um acidente de trânsito. Boa parte da série lida com os traumas desta família dilacerada pela perda, mas também pelo dilema: como é possível conversar sinceramente com as crianças sobre aspectos da condição humana como a morte, a doença, o luto, a perda de alguém amado que não retornará? Como os mais velhos podem dialogar com as crianças e jovens no sentido de dizer a verdade sobre isto, e o quanto devem omitir ou “dourar a pílula” com a intenção de proteger o outro do sofrimento excessivo?

6) Por fim, gostaria de saber como vocês reagem a uma frase de um místico indiano chamado Krishnamurti: ele diz que “não é sinal de saúde estar bem-adaptado a uma sociedade doente.” Também no mesmo espírito: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: Vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas ajuizadas. É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade…”, diz Nise da Silveira. Neste sentido, como diz Ailton Krenak, não devemos desejar um “retorno à normalidade”, pois ela era o problema, estar conformado àquilo era um modo de estar neurótico. Diante disso, vocês acham que precisamos aprender sobre saúde mental com outros povos e outras culturas, com indígenas, quilombolas, ribeirinhos? Com os orientais, os budistas, os taoístas, os yoguis? É verdade que nossa sanidade psíquica e nossas convivências familiares serão melhores quanto mais formos inconformados diante da sociedade atual, quanto mais estivermos mais mal-adaptados a esta sociedade adoecida?  


 

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OUTRAS LEITURAS RECOMENDADAS:

“E DAÍ?” – A Necropolítica do Neofascismo Bolsonarista escancara seu desprezo pelas vidas humanas

“Infeliz a época em que os cegos se deixam guiar pelos idiotas”.
William Shakespeare, “Rei Lear”

“E daí?”, disse Seu Jair no dia em que o Brasil ultrapassou a China em número de óbitos por Covid19 – ao fim de Abril de 2020, já eram mais de 5.000 brasileiros mortos de acordo com os dados oficiais (altamente suspeitos de subnotificação). Disse também que “é Messias mas não pode fazer milagre”. O que isso nos diz sobre a estatura moral e a estrutura psíquica do sujeito que profere tais frases em tal contexto?

Primeiro, choca a indiferença pelas milhares de pessoas que estão de luto, chorando pelos familiares e amigos perdidos, e que o presifake não sabe nem mesmo consolar com um gesto de gentileza e de compaixão protocolares: não tem “meus pêsames, lamento muito por sua perda”, não tem “que o tempo possa ajudar a curar a terrível ferida de perder um ente amado”, não! Seu Jair cospe na cara dos enlutados e das lágrimas convulsivas que agora derrubam com este “e daí?”, expressão que usamos para o que é ínfimo e insignificante.

Ademais, o que poderia ser uma admissão de impotência e vulnerabilidade, “não posso fazer milagre”, contrasta com a extrema arrogância de quem tem agido como se pudesse tudo e como se nada pudesse para-lo: os gregos chamavam isso de hybris, a desmedida, e sabiam que os exageros e overdoses comportamentais sempre recebiam da Nêmesis cósmica sua trágica vingança. O Coiso não pode fazer milagre, é fato, mas arriga-se o direito de sabotar todas as medidas de isolamento social, desrespeitar diretrizes da OMS e ir apertar as mãos de seus apoiadores que urram por um novo AI-5.

Já sabemos que não é milagreiro, mas arroga-se o direito de voltar dos EUA numa comitiva com mais de 20 pessoas infectadas pelo coronavírus e decreta sigilo e esconder o resultado de seu próprio exame, enquanto continua tossindo como um condenado nas aglomerações que causa.

Nenhum milagre ele já realizou em toda sua medíocre vidinha, mas arrogou-se o direito de demitir o Ministro da Saúde em meio à pandemia pois preferia alguém que fosse mais seu capacho, manifestando seu ímpeto de estar rodeado por pessoas que sejam mais subservientes a seus ímpetos de ditador e autocrata.

Jairzinho que não é milagreiro arroga-se o direito de promover deliberadamente uma política de subnotificações de casos e óbitos da doença, ocultando a verdade sobre o número de cadáveres que a pandemia está causando no país. E também acha que pode enfiar a fórceps na PF um amiguinho da família que vá garantir impunidade aos Bolsonaros pelos crimes cometidos, seja as fake news, as fraudes eleitorais, a participação na execução de Marielle Franco, o racismo, a destruição ambiental, o destroçamento dos direitos trabalhistas etc.

Ninguém legitimamente tem o direito, já que o Estado é laico e Deus nem existe, de exigir que um governante faça milhages, mas ninguém entre os cidadãos deve suportar calado quando este governante manifesta uma abominável indiferença pelo sofrimento humano e se mostra como um psicopata empedernido que, diante de vidas perdidas e valas abertas, diz “e daí?”

Não conte com nossa amnésia, Seu Jair. Não conte com nossa covardia ou nossa cegueira voluntária. Aqui não! Todos os horrores e atrocidades que você produz, todas as frases cruéis que profere, estão sendo registradas e irão contigo para os únicos lugares onde mereces estar: na lata de lixo da História, afastado de todo e qualquer cargo público, no banco dos réus em Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade.

Porque, seu Jair, ninguém te pede milagres, só que sejas humano, e nisso você tem fracassado miseravelmente, sendo um jato contínuo de desumanidades atrozes.e arrogâncias prepotentes. A gente olha para a vida de Jair e sente vergonha de um ser humano ser capaz de descer tão baixo a ponto de queimar as pontes de empatia que o poderiam conectar aos outros humanos, tornando-se esta caricatura de Calígula, este “projetinho de Hitler tropical” (Mário Magalhães), este frio e desumano sociopata. Ele pode ser rico e poderoso, mas eu nunca gostaria de estar na pele de Jair: como deve ser horrível viver dentro de um sujeito tão cruel, tão arroz, tão sectário e tão ignorante!

Ele vê a cataclismica tragédia que sua inépcia e irresponsabilidade ajudaram a causar e só sabe dar de ombros, incapaz de assumir responsabilidade, inepto para refletir mais a fundo sobre a condição humana, gélido como um monstro, observando corpos sem vida e vidas afogadas em lágrimas, e com sua boca-de-esgoto proferindo: “e daí? E daí? E daí?”

E daí que jamais aceitaremos que você nos representa e sempre nos recusaremos a esquecer os horrores que você perpetra. Não conte com nosso silêncio nem com nossa subserviência. Aqui não! Aqui não somos da turma dos que enxergam o sofrimento coletivo pelo prisma elitista e mesquinho dos “e daí?” palacianos.

Você pergunta “e daí?” com sua costumeira idiotia. E daí que você não presta nem dura. E haverá festa popular imensa quando você (e isso não tarda) não estiver mais aqui, tiranizando e desgraçando um povo sempre sedento de uma liberdade e de uma justiça e de uma verdade que você e os seus teimam em negar-nos.

Carli, A Casa de Vidro.
Goiânia, 29/04/2020


LANTERNINHA DA TESTAGEM: OUTRA VERGONHA NACIONAL

A inépcia e a irresponsabilidade do desgoverno fascista de Bolsonaro não se mostram apenas na minimização da gravidade da pandemia (segundo o führer dos imbecis, só um “resfriadinho” que não deve preocupar ninguém que tenha “histórico de atleta”), na subnotificação de casos e óbitos (semelhante à tática do avestruz que esconde a cabeça debaixo da terra, aderindo à crença de que o que não se vê e não se reconhece não existe), mas também no fracasso deliberado em testar a população: dos 15 países mais afetados pela covid-19, estamos disparados na vergonhosa posição de lanterninha da testagem.

E assim avançamos na semi-cegueira, sem termos a real dimensão do contágio, indo no rumo da catástrofe e da barbárie. No comando do “leme” desta nau dos insensatos está um facínora mortífero que está mais preocupado em garantir a impunidade para os crimes de corrupção e violência de sua familícia do que em cuidar da saúde coletiva. Tragédia anunciada – e esta porra de nossa indignação moral internética está se mostrando ineficaz para extrair do poder o cancro Bolsonarista.

Eis um dos maiores dilemas da nossa geração e da atual encruzilhada histórica: como se derruba um governo de extrema-direita, de práticas genocidas, que atenta contra as vidas de seu povo, quando não há condições sanitárias para manifestações de massa, ocupações de praças e prédios públicos, assembléias de rua? Vocês realmente acham que algum tirano, feito nosso “projetinho de Hitler tropical”, já caiu por força de cidadãos que estavam confinados dentro de suas casas? Vamos derrubar Bolsonaro pelo Twitter? Ou a maré insurrecional – aquilo a que estamos impedidos pela pandemia e seus perigos – ainda é a única força concreta capaz de derrubar um governo por ação do povo ao qual ele deveria servir?


ESCONDENDO OS CORPOS

O facínora fascista que ascendeu ao poder presidencial através da fraude eleitoral de 2018 “se acha capaz de esconder os corpos”, como disse Safatle em entrevista à Pública. Como esperar algo diferente deste Coiso, de caráter profundamente perverso e sádico, que é fã de carteirinha de Ustras e Médicis? Este sujeito não tem estatura ética nem para ser síndico de condomínio (aliás, no Vivendas da Barra tinham guarida junto à familícia os executores do homicídio contra Marielle Franco). Alçado à posição suprema do Executivo Federal no Brasil pós-democrático que emergiu do Golpe de 2016, o Capetão não é explicitamente um adorador da ditadura militar, aquela que ocultou tantos cadáveres de opositores políticos massacrados pela repressão? Não trata como seus “ídolos” ditadores latino-americanos, alguns já condenados por crimes contra a humanidade em tribunais penais internacionais, como Pinochet e Stroessner?

Vocês se lembram do que o deputado de extrema-direita, na época apenas uma aberração extremista no Congresso, membro do “baixo clero” de parlamentares aderidos os velhos tempos dos “anos-de-chumbo”, falou sobre os familiares que buscavam os restos mortais de seus parentes assassinados pela Ditadura quando esta massacrou a Guerrilha do Araguaia? “Quem procura osso é cachorro”.

Isto é Bolsonaro – e quem quer que tenha feito parte das hordas odientas, irracionalizadas por um antipetismo feroz, que apertou 17 nas urnas, tinham plenas condições de saber o que estavam fazendo. A irresponsabilidade de milhões nas urnas, somada à covardia das instituições, a exemplo do TSE que passou pano pra chapa fascista-militarista ao invés de punir por cassação seus inúmeros crimes eleitorais, trouxeram-nos a esta crise humanitária gravíssima.

Estou convicto de que a tragédia coletiva em que estamos imersos expressa, em um concentrado macabro, todo o horror em que o Brasil se atirou de cabeça quando permitiu o triunfo da Aliança Golpista que depôs Dilma Rousseff em 2016 – instalando, na sequência, a hecatombe nos investimentos públicos em Saúde e Educação representada por aquela “PEC do Fim do Mundo” ou “PEC da Morte” que aprovou-se no fim daquele ano. Muito “cidadão-de-bem” aplaudiu quando a Tropa de Choque da PM nos massacrou debaixo da repressão, em Novembro e Dezembro de 2016, em Brasília, quando protestávamos contra os descalabros impostos pelo desgoverno Temer e o Congresso golpista. Estávamos lá defendendo o SUS, a Educação Pública, os serviços públicos essenciais ao bem comum, e não éramos poucos – como testemunham os documentários “A Babilônia Vai Cair” e “Ponte Para o Abismo”, que realizei na época. Mas o cidadão-de-bem ficou com a bunda no sofá, diante da Globo, feliz pela polícia estar descendo o cacete em “vândalos” e vagabundos. Agora aguenta a pandemia de Covid-19 depois de mais de R$20 bilhões terem sido excluídos do SUS e o Mais Médicos ter sido desmontado!

Precisamos urgentemente de cidadãos com senso histórico e capacidade crítica que não sigam cegamente pseudo-mitos do necro-capitalismo. Caso contrário, esta tragédia se repetirá com as pandemias e catástrofes climáticas de que nosso futuro está repleto.


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AS VALAS ABERTAS E O “FORA BOLSONARO!” – Para evitar o pior será preciso enterrar o fascismo

por Renato Costa para A Casa de Vidro

Diante das valas abertas, manter-se consciente do tamanho da crise e mobilizado(a) para enfrentar suas consequências imediatas é uma tarefa que exige, certamente, muito estômago. De São Paulo a Manaus, passando por Nova York e Madri, é certo que tais medidas são, infelizmente, necessárias para as muitas mortes decorrentes da emergência sanitária [1]. Mas essas valas são, antes de mais nada, a evidência irrefutável da incompetência do estado burguês neoliberal, ao mesmo tempo em que dão testemunho do rigor mórbido e do descaso total com a vida humana no mundo capitalista contemporâneo, seja em países desenvolvidos, ou no Brasil recolonizado.

Ilha de Hart Island, perto do Bronx: Nova York abre valas comuns para enterrar mortos por coronavírus. Em 22 de Abril de 2020, a prefeitura da cidade já registrava 9.944 óbitos por covid-19 em NYC.

Um neomalthusianismo de ocasião se espraia [2] entre pessoas enclausuradas pelos governos liberais dos centros capitalistas, ainda que sob estado de sítio permanente elas mantém a todo custo opiniões racializadas relativas ao controle de populações migrantes. Vindos aos montes dos países emergentes, eles poderiam ser detidos através do asséptico “acesso à imunização em países pobres”. Países e regiões, estes, recentemente destituídos de suas soberanias e poder real de autodeterminação e, obviamente, de fiscalização, mais suscetíveis a “erros médicos” de grande proporção. Eles poderão render bons exemplos, aclamados por grandes corporações, que prometem vacina humanitária, rápida e vitalícia como propõe Gavi Alliance (Microsoft), em colaboração com a identidade digital globalista, a ID2020 [3], mas sem garantir deliberação democrática ou eventual responsabilização corporativa.

Saiba mais: Gavi Alliance

Projetada pelas mesma Organização Mundial da Saúde (OMS), envolvendo governos e instituições financeiras, a iniciativa da vacina digital nega apenas o alarmismo “conspiratório”, no jargão da CIA, sem ao menos, por necessidade publicitária, desmentir seus reais propósitos [4].

Tudo elaborado, imagine-se, a partir dos países centrais do capitalismo financeiro, em rápida mutação ao capitalismo de vigilância [5], que a todos submetem. Em meio a isso, a postura das autoridades governantes de extrema-direita, como o executivo brasileiro, é, tanto mais, um escárnio de vulto histórico, pela dimensão de suas consequências desastrosas e deliberadamente assassinas. Se anuncia um projeto repressivo de biopoder [6] através de um “deixar morrer à margem”, típica do liberalismo econômico e do autoritarismo polítco, com alto teor sarcástico, em que medidas diversionistas dão o tom do novo !Abajo la Inteligencia, Viva La Muerte! [7], revivido através da condução nefasta de uma crise inevitável.

O interesse do conjunto da burguesia, representada pelos governadores de extrema-direita e amparada por Bolsonaro, em esconder o real estado de coisas [8] e anunciar a flexibilização da quarentena com o jargão da abertura “lenta e gradual” [9], provoca ainda mais insegurança e anuncia os horrores do colapso do sistema de saúde brasileiro. Depois que os médicos e enfermeiros estiverem completamente extenuados pelas jornadas intermináveis, o exército não terá pudor em abrir quantas valas comuns forem necessárias [10], e ainda ocultarão os registros dos cadáveres, como sugere o histórico recente, e pretérito, das ditaduras brasileiras.

Ainda que se queira apenas acompanhar os rumos da crise do novo corona vírus no Brasil, a distância, já será exigido bastante empenho. Entre os afazeres domésticos de uns, e as jornadas de sobre-exposição de outros, os dados oficias  de dimensionamento do tamanho da pandemia são duvidosos: os critérios são múltiplos, as rotinas de registro e reportagem limitadas, os atestados de óbito são inibidos por protocolos médicos [11]. Se até o momento em que se publica este artigo, a 22 dias do mês de abril de 2020, quase 2 milhões e seiscentos mil casos eram registrados pelo painel da Johns Hopkins University Coronavírus Resoucers [12] e racionalizados pela palavra “Confirmado”, o número de 43.592 casos e 2.769 mortes reportados no Brasil poderia chegar a ser, apenas, na melhor das hipóteses, o indicativo mais próximo, e insuficiente, do imenso número de subnotificações e danos colaterais do surto de infectados no país e no mundo todo.

Entretanto, se é preciso trabalhar com números atualizados para se dimensionar a Covid-19 como um fenômeno epidemiológico e não apenas como uma doença, isto não significa esquecer da necessidade de continuamente se realizar um trabalho de registro, processamento e interpretação de dados no longo prazo. Uma forma mais ampla e segura de se chegar a um número de mortos em decorrência da doença é garantir os registros totais e, descontados a média de mortes anuais, futuramente contrastar o número de 2020 com os dos anos anteriores e subsequentes [13].

Para tanto, seria necessário rigor censitário, critério científico para os obituários, além de segurança institucional, mobilização popular e respeito à Constituição, tantas das coisas em falta no horizonte do Brasil em tempos de corona vírus. Aliás, a quantas andam o Censo 2020? [14] Adiado para 2021! E as Eleições¿ Já saberemos! Mais urgente é sabermos qual será o futuro das políticas de estado, em seu conjunto, diante da ascensão do cesarismo bolsonarista. Uma vaga incerteza a se perpetuar sobre onde deve parar o declínio da confiança nas instituições e sobre as possibilidades de transparência das mesmas.

Enquanto nos EUA, o Senado aprova um repasse de 480 bilhões de dólares a programas econômicos de assistência [15] a pequenas e médias empresas, de socorro aos hospitais e de incentivo à produção de testes de covid-19, no Brasil, por motivos de cadastro, a crise do auxílio emergencial pode deixar 5 milhões de pessoas sem sacar os 600 reais estabelecidos, justamente, como emergenciais, pelo Congresso. Ao mesmo tempo em que Trump sinaliza se afundar no particularismo estadunidense e para a emissão de Green Card, denotando avanço da política anti migrante, apoia a xenofobia ao falar em reparação da China [16], responsabilizada pela pandemia.

Com estratégia diversionista e com vistas à flexibilização da quarentena, Trump, assim como Bolsonaro, convoca apoiadores a saírem às ruas das principais cidades do país [17], em carro, pedir que os trabalhadores se dirijam aos seus postos de trabalho! Ato seguido, alguns governadores estadunidenses suspendem a quarentena, na última terça-feira, 21. No Brasil, Espanha, e outros países fortemente atingidos, governantes falam em levantar as medidas até o 10 de maio[18].

Em números absolutos, os países mais afetados na América Latina são Brasil e México; em números relativos, Equador e Panamá, com três vezes mais casos que o Brasil [19], em relação proporcional ao número de habitantes. Em São Paulo, Dória lançou o chamado “planejamento de reabertura gradual” [20] nesta quarta-feira 22/04. A quarentena estado mais atingido do Brasil, iniciada em 24 de março, completará um mês nos próximos dias. O estado registra 1.037 mortes e 14 mil casos de covid-19.

Após reunião com o governador de Brasília, Ibanes Rocha, Bolsonaro fala em reabertura de colégios militares de Brasília na próxima segunda-feira, 27/04 [21].  No início de abril, Ibanes havia decretado suspensas as aulas em escolas e universidades até 31 de maio. No mesmo dia, Bolsonaro anuncia que determinará a Sérgio Moro a reabertura a Academia Nacional da Polícia Federal na mesma semana. Em meio à crise entre Executivo e Legislativo, governadores esboçam aliança com o congresso comandado pelo DEM, ao mesmo tempo em que falam em flexibilização da quarentena e sinalizam apoio à retomada das atividades econômicas frente aos riscos à saúde pública, defendida por Bolsonaro. “Será referência para todo o país”, teria afirmado o médico e Governador de Goiás, Ronaldo Caiado [22].

Até o momento, a quarentena no Brasil contou com uma política não-restritiva [23], que apenas recomenda que se fique em casa. Apesar do baixo controle da circulação de pessoas no país e mais de 50% da população de São Paulo se movimentando diariamente [24], alguns municípios, isolados e autonomizados pelo parecer do STF que garante suas competências e responsabilidades no combate da efetivo da pandemia, policializaram a saúde pública e arbitrariamente reprimiram seus habitantes [25], sem nenhum nível de mediação jurídica ou coordenação sanitária. Caberia ao executivo federal garantir condições de suporte econômico, estabilidade política e viabilizar uma estratégia comum de controle do surto, e assim facilitar o tratamento aos infectados.

Em reunião não agenda com Nelson Teich, transcorrida na última segunda-feira [26], Bolsonaro teria levantado dados sobre a pandemia e disse que vai se posicionar sobre o isolamento social. Qualquer que seja a postura anunciada por um executivo ilegítimo, herdeiro de um golpe parlamentar que afastou uma presidenta legitimamente eleita, a leniência diante da pandemia e a notória participação do presidente em atos que atentam contra a constituição [27] – e por isso configuram graves crimes de responsabilidade – estão se configurando em uma verdadeira catástrofe política e humanitária. As perspectivas são as de uma crise entre negacionistas de toda ordem sob o mando da sobre-exposição dos trabalhadores, a mando dos patrões e a desobediência civil, eventualmente apoiada por entes federados insubordinados à condução irresponsável da crise de saúde por parte do executivo nacional.

Os governadores mais lúcidos deverão se negar a flexibilizar a quarentena antes do fim de maio, e ainda terão o dever de fecharem as fronteiras a circulação de pessoas vindas de estados alinhados à lógica da morte e ao imperativo da retomada da economia, antes da retomada da vida. Prejudicados pelo trânsito de pessoas infectadas vindas de regiões sem restrições de circulação, os prefeitos e suas bases poderão insuflar a indignação radical contra as medidas de exposição das populações mais vulneráveis e a favor do enfrentamento decisivo pelo #ForaBolsonaro, como ato pedagógico, contra os que atentam a contra a democracia, e pelo enterro do verdadeiro problema, o neofascismo brasileiro e sua estratégia de matar ou deixar morrer.

Renato Costa

REFERÊNCIAS

  1. https://oglobo.globo.com/mundo/nova-york-abre-valas-comuns-para-enterrar-mortos-por-coronavirus-24364067
  2. https://forbes.com.br/colunas/2019/09/bill-gates-diz-que-planejamento-familiar-e-essencial-para-o-futuro-da-africa/
  3. https://www.gavi.org/our-alliance/about
  4. https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/vacina-do-coronavirus-nao-tera-microchip-para-rastrear-a-populacao/
  5. https://diplomatique.org.br/um-capitalismo-de-vigilancia/
  6. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672018000400003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt
  7. http://www.jsfaro.net/2018/08/abajo-la-inteligencia-viva-la-muerte.html
  8. https://www.ovale.com.br/_conteudo/nossa_regiao/2020/04/102062-sp-tera-isolamento-heterogeneo-da-quarentena–area-de-risco–vale-deve-ter-flexibilizacao-mais-lenta.html
  9. https://www.poder360.com.br/governo/bolsonaro-discursa-em-ato-com-pauta-a-favor-do-ai-5-e-contra-o-congresso/
  10. https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/04/17/interna-brasil,845574/exercito-pede-informacoes-prefeituras-rio-sobre-sepultamento-em-massa.shtml
  11. https://brasil.elpais.com/brasil/2020-04-07/748-mortes-ligadas-ao-coronavirus-registradas-em-cartorios-no-brasil-mais-um-indice-da-defasagem-nas-estatisticas-oficiais.html
  12. https://coronavirus.jhu.edu/
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  14. https://censo2020.ibge.gov.br/
  15. https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2020/04/21/senado-eua-aprova-us-480-bi-a-pequenas-e-medias-empresas-e-luta-contra-a-covid-19.htm
  16. http://www.defesanet.com.br/pw/noticia/36522/Virus-Chines–Trump-adverte-Pequim-sobre-possiveis–consequencias–devido-a-pandemia/
  17. https://www.washingtonpost.com/outlook/2020/04/17/liberate-michigan-trump-constitution/
  18. http://www.rfi.fr/br/europa/20200422-espanha-volta-a-ter-uma-leve-alta-de-mortes-por-coronav%C3%ADrus-mas-prepara-fim-do-isolamento
  19. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52144605
  20. https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2020-04/covid-10-sp-vai-anunciar-na-proxima-quarta-feira-reabertura-gradual
  21. https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2020/04/20/interna_cidadesdf,846613/bolsonaro-e-ibaneis-tratam-de-reabertura-de-escolas-militares-no-df.shtml
  22. https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/sera-referencia-para-todo-o-pais-afirma-caiado-sobre-decreto-que-flexibiliza-quarentena-249165/
  23. https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2020/04/15/coronavirus-mapa-mostra-os-diferentes-tipos-de-quarentena-na-america-latina.htm
  24. https://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/isolamento-social-em-sp-e-de-50-aponta-sistema-de-monitoramento-inteligente-2/
  25. https://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2020/04/13/mulher-morde-guarda-municipal-ao-ser-detida-por-caminhar-em-praca-de-araraquara.ghtml
  26. https://www.terra.com.br/noticias/coronavirus/bolsonaro-recebe-teich-no-planalto-em-reuniao-nao-agendada,f78b6e06747a532656294718b5c05fefhb90169j.html
  27. https://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/CON1988_05.10.1988/art_85_.asp

O Xadrez do Coronavírus: Geopolítica da Pandemia – Live: Segunda-feira, 20/04/20, 18h às 20h || A Casa de Vidro

Nesta segunda-feira, 20 de abril, A Casa de Vidro e o Grupo de Estudos em Complexidade promoveram o debate “Xadrez do Coronavírus: Geopolíticas da Pandemia“. Com David Maciel (Doutor em História, Professor da UFG, saiba mais abaixo), Eduardo Carli de Moraes (Jornalista, Mestre em Filosofia, Professor do IFG) e Renato Costa (Jornalista e Ativista). A proposta é analisar coletivamente os impactos da Covid-19 nas diferentes sociedades nacionais, levando em conta interesses políticos-estratégicos dos principais países atingidos em suas diferentes respostas diante da crise epidemiológica causada pelo novo Coronavírus: as diferentes versões para a origem da pandemia, os níveis de eficácia na contenção dos surtos e os possíveis cenários socioeconômicos daí resultantes. Acompanhe as nossas transmissões! Dê aquela força pra mídia independente e contra-hegemônica!

DAVID MACIEL, doutor em História, professor da UFG, também atua na editoria do Site Marxismo 21.org e no GT Marxismo e História da ANPUH (Associação Nacional de História). Atua também como músico na banda goianiense Aborto de Nazaré. É autor dos livros; “A Argamassa da Ordem: da Ditadura Militar à Nova República” e “De Sarney a Collor: Reformas Políticas, Democratização e Crise” (Alameda Editorial).

O Xadrez do Coronavírus: Geopolítica da Pandemia
Transmitido ao vivo no Canal A Casa de Vidro no Youtube:

ASSISTA À TRANSMISSÃO COMPLETA (1 hora e 47 minutos):
(LINK: https://youtu.be/9JUP5uvjcFI)

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“Bolsonaro é um troglodita conduzindo o Brasil ao matadouro”, afirma Lula ao The Guardian

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT – Partido dos Trabalhadores) acusa Jair Messias Bolsonaro de ser um “troglodita” que está conduzindo o Brasil “ao matadouro” por sua desastrosa e irresponsável gestão da pandemia Covid-19.

Leia em um dos mais importantes jornais do mundo, o The Guardian (Inglaterra):

Em uma entrevista apaixonada – que chegou quando o número de mortos no Brasil no Covid-19 atingiu 1.924 pessoas – Lula disse que, ao minar o distanciamento social e defenestrar o próprio ministro da Saúde, o líder “troglodita” do Brasil arriscava repetir as cenas devastadoras que acontecem no Equador, onde as famílias tiveram que despejar cadáveres de seus entes queridos nas ruas.

“Infelizmente, eu temo que o Brasil sofra muito por causa da imprudência de Bolsonaro. Receio que, se isso crescer, o Brasil poderá ver alguns casos como aquelas imagens horríveis e monstruosas que vimos em Guayaquil”, disse o esquerdista de 74 anos.

“Não podemos apenas querer derrubar um presidente porque não gostamos dele”, admitiu Lula. “Mas se Bolsonaro continuar cometendo crimes de responsabilidade e tentando levar a sociedade ao matadouro – que é o que ele está fazendo – acho que as instituições precisarão encontrar uma maneira de enquadrar Bolsonaro. E isso significa que você precisará ter um impeachment. ”

Bolsonaro – um ex-capitão do exército orgulhosamente homofóbico, já tão desprezado por brasileiros progressistas por sua hostilidade ao meio ambiente, direitos indígenas e artes, bem como seus supostos vínculos com a máfia do Rio – alienou milhões a mais com sua postura de desprezo ao coronavírus, que ele menospreza como “histeria” da mídia e “um pouco de resfriado”.

O jornal alemão stuttgarter-zeitung.de publicou na edição de sexta-feira (27 de Março de 2020) uma charge com Jair Bolsonaro no púlpito gritando: “É tudo histeria e conspiração!”. Atrás dele, o coronavírus e a Morte aplaudem. Fonte: Facebook A Casa de Vidro.

Desde que a OMS – Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia em 11 de março, o presidente do Brasil repetidamente desprezou o distanciamento social, primeiro convocando e participando de protestos pró-Bolsonaro e depois com uma série de visitas provocativas a padarias, supermercados e farmácias. Durante um passeio desnecessário, Bolsonaro declarou: “Ninguém impedirá meu direito de ir e vir”.

Em março, o populista de direita chegou a sugerir que os brasileiros não precisassem se preocupar com o Covid-19, pois poderiam banhar-se nos excrementos “e nada acontece”.

Tais medidas colocam Bolsonaro em desacordo com seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, médico que virou político e que foi demitido na quinta-feira (16/04/2020) depois de contestar o comportamento do presidente.

Enquanto isso, o filho político de Bolsonaro, Eduardo, levou a bola de demolição para os laços com o parceiro comercial mais importante do Brasil, a China, acusando seus líderes do Partido Comunista de serem os culpados pela crise do coronavírus.

As ações de Bolsonaro provocaram protestos noturnos de panelaços nas cidades de todo o país e ele é desprezado por todo o espectro político.

“O coronavírus deve estar rindo demais”, escreveu Eliane Cantanhêde, colunista do jornal conservador Estadão de São Paulo, sobre as travessuras de Bolsonaro nesta semana.

O governador de direita do estado mais populoso do Brasil, São Paulo, declarou o país em guerra contra o coronavírus e o “Bolsonavírus”.

Lula, que governou de 2003 a 2010, afirmou que as ações “grotescas” de Bolsonaro estão colocando em risco vidas, ignorando as diretrizes de distanciamento adotadas pelo próprio Ministério da Saúde do Brasil.

“É natural que uma parte da sociedade não entenda a necessidade de ficar em casa ou o quão sério isso é – especialmente quando o presidente da república é um troglodita que diz que é apenas um pouco de gripe”, disse Lula por videochamada da Cidade brasileira de São Bernardo do Campo, onde está isolado após retornar de uma turnê pela Europa.

“A verdade é que Bolsonaro não pensa no impacto que seus atos destrutivos têm na sociedade. Ele é imprudente. ”

Bolsonaro diz que sua oposição ao distanciamento decorre de seu desejo de proteger os cidadãos mais vulneráveis do Brasil e seus empregos.

Depois de demitir seu ministro da Saúde, Bolsonaro afirmou estar lutando pelo “povo brasileiro sofredor” e alertou que o coronavírus ameaçava se tornar “um verdadeiro moedor de carne”.

“Em nenhum momento o governo abandonou os mais necessitados … As massas empobrecidas não podem ficar presas em casa”, disse Bolsonaro. “Eu sei… a vida não tem preço. Mas a economia e o emprego devem voltar ao normal. ”

Lula, que nasceu na pobreza rural e ganhou aplausos internacionais por sua luta contra a fome, zombou da ideia de Bolsonaro ser um defensor dos pobres.

“Bolsonaro está interessado apenas em si mesmo, em seus filhos, em alguns generais bastante conservadores e em seus amigos paramilitares”, afirmou, referindo-se a alegações de longa data sobre os laços familiares do presidente brasileiro com a máfia do Rio de Janeiro.

“Ele não fala com a sociedade. Bolsonaro não tem ouvidos para ouvir. Ele só tem boca para falar bobagem.”

Embora o ex-presidente do Brasil alegasse que o impeachment era uma opção, ele admitiu que atualmente não há apoio para isso no congresso do país, como ocorreu quando sua sucessora de esquerda, Dilma Rousseff, foi demitida em 2016.

Ele disse que muitos políticos de direita acham mais prudente permitir que Bolsonaro continue sabotando suas chances de reeleição em 2022 por sua própria incompetência – antes de eleger outro presidente da direita.

Lula, que foi afastado da eleição de 2018 após ser preso por duvidosas acusações de corrupção, sinalizou que ele não seria o candidato de esquerda nesse próximo pleito.

“Perdi meus direitos políticos, por isso não estou falando de mim”, disse Lula, que foi libertado em novembro de 2019 de 580 dias de prisão após uma decisão da suprema corte. “Mas vou lhe dizer uma coisa, você pode ter certeza de que a esquerda voltará a governar o Brasil depois de 2022. Não precisamos conversar sobre quem é o candidato agora. Mas votaremos em alguém comprometido com os direitos humanos e que os respeite, que respeite a proteção ambiental, que respeite a Amazônia … que respeite os negros e os indígenas. Vamos eleger alguém comprometido com os pobres deste país. ”

(…) Lula disse ter certeza de uma coisa: que em um momento de crise nacional, o Brasil precisava de um líder capaz de unir seus 211 milhões de cidadãos.

“Um presidente deve ser como o maestro de uma orquestra”, disse ele. “O problema é que nosso maestro não sabe nada sobre música, não consegue ler uma partitura e nem sabe como as batutas funcionam.”

“Ele está tentando tocar música clássica com os instrumentos que você usa para tocar samba. Ele transformou sua orquestra em uma loucura – uma Torre de Babel”, disse Lula. “Ele não sabe o que está fazendo no palácio presidencial… nem mesmo Donald J. Trump o leva a sério.”

POR TODD PHILLIPS

 

VEJA TAMBÉM:

PUNINDO OS POBRES PELA PANDEMIA: Esqueçam a falácia do “estamos todos no mesmo barco” || A Casa de Vidro

Diante da crise que definirá nossa geração (como escreveu Jamil Chade no El País Brasil), temos ouvido muito que “estamos todos no mesmo barco”, como reza um velho clichê. Que barco é este em que estamos todos embarcados senão o planeta? Embarcados na Espaçonave Terra, de fato podemos nos considerar – nós, os mais de 7 bilhões e 700 milhões exemplares atuais do homo sapiens – como unidos em nossa humana condição.

Porém, um barco tão complexo a ponto de abrigar tanta gente assim jamais poderia ser descrito como algo similar a uma canoa de madeira repleta de náufragos igualmente desprovidos de recursos além de seus corpos, ou seja, munidos apenas de suas vidas nuas.

O nosso é um barco cheio de subdivisões. Para mencionar apenas uma, com o perdão do dualismo um pouco reducionista: neste barco planetário, há áreas VIP de difícil acesso aos reles mortais desprovidos de capitais e propriedades – e estas áreas para very important people estão brutalmente apartadas dos favelões e cortiços onde padecem, em péssimas condições de salubridade, um imenso número dos humanos.

O necroliberalismo hoje vigente – resultado da fusão do neoliberalismo com o neofascismo – explicita hoje, através das ações de figuras execráveis como Bolsonaro, que certas vidas valem menos que outras, e podem ser tranquilamente sacrificadas no altar do Deus Mercado para que a economia capitalista prossiga em sua normalidade. Obscena normalidade!

Pode parecer, à primeira vista e na falta de mais reflexão, que o coronavírus, nesta pandemia global (2019 –  2020), “age” de maneira “democrática” (dizê-lo desta maneira é cair na prosopopéia… peço a todos que não levem a mal esta “licença-poética”). Estes micro-organismos que nem mesmo são considerados organismos e que são obrigatoriamente parasitas de células, afinal de contas,não possuem nada parecido com uma mente, e disso decorre que não têm capacidade de discriminação. Não escolhem quem infectar baseados em preconceito de classe, gênero ou cor.

A cadeia de transmissão não é restringível a partir de parâmetros raciais impostos por humanos: as hordas de vírus não enxergam cor de pele, não poderiam se importar menos com os níveis de melanina na pele dos sujeitos humanos que estão disponíveis no ambiente. O que os vírus “querem” é entrar no motel de uma célula humana, para ali produzirem em ritmo frenético as cópias de si mesmos, os viruzinhos-filhos, numa louca orgia reprodutiva. A pulsão de vida em sua forma mais básica e selvagem.

Assim, nesta perspectiva, estamos de fato todos juntos nisso. Os corpos de ricos e pobres, presidentes e mendigos, proprietários e precarizados, machões e gays, pessoas cis e trans etc., estão todos vulneráveis diante desta ameaça. We’re all in this together. O que supostamente nos solidariza, nos une, gerando a noção de que diante dum problemática global precisamos de uma solucionática também global.

Porém, esta leitura do “todos no mesmo barco”, isto é, a noção de uma suposta igualdade de todos os humanos diante do flagelo, cai por terra quando consideramos os efeitos das pandemias ou das catástrofes sócio-ambientais sobre diferentes classes sociais. Não, não estamos todos no mesmo barco! Como compartilhou Gunther Zibell, “estamos todos nos mesmo mar, mas uns em iates e outros agarrados a um tronco.”

Torna-se claro para qualquer um que estude as questões sociais seriamente que os efeitos catastróficos das pandemias são sofridos muito mais pelas vítimas das injustiças sociais. O sistema que hoje impera está programado para punir os pobres, para emprestar a expressão que nomeia a obra de Löic Wacquant.

Quem soube expressar isto muito bem foi o cineasta sul-coreano Bong Joon-Ho (que marcou época nas premiações cinematográficas com Parasita em 2019 e 2020), em seu filme Snowpiercer – Expresso do Amanhã.  Ali, em cenário pós-apocalíptico, toda a pequena parcela da Humanidade que conseguiu sobreviver à catástrofe ambiental planetária está reunida em um único trem.

O que poderia nos conduzir à repetir, com outro meio de transporte que não o barco, a mesma lenga-lenga igualitária: “agora estamos todos no mesmo trem”. Porém o cineasta expressa com força em sua obra que este trem é altamente segregado, cada um dos vagões servindo, em micro-escala, como um estamento duma sociedade piramidal. Quem fala que estamos todos no mesmo barco deve fazer o adendo: e neste barco está vigente o mais brutal apartheid. É o que a filósofa Judith Butler soube expressar muito bem em seu texto sobre a epidemia de covid-19:

“A desigualdade social e econômica garantirá a discriminação do vírus. O vírus por si só não discrimina, mas nós humanos certamente o fazem, moldados e movidos como somos pelos poderes casados do nacionalismo, do racismo, da xenofobia e do capitalismo. Parece provável que passaremos a ver no próximo ano um cenário doloroso no qual algumas criaturas humanas afirmam seu direito de viver ao custo de outras, reinscrevendo a distinção espúria entre vidas passíveis e não passíveis de luto, isto é, entre aqueles que devem ser protegidos contra a morte a qualquer custo e aqueles cujas vidas são consideradas não valerem o bastante para serem salvaguardadas contra a doença e a morte.” – Judith Butler na Boitempo

Quando Butler fala de “distinção espúria”, pode-se sentir a indignação que motiva a filósofa-ativista: ela está fazendo a crítica da tendência em discriminar entre vidas passíveis de luto e aquelas dos que podem morrer sem que ninguém se lamente. Apesar de sermos todos mortais, ou seja, finitos no tempo e no espaço, vulneráveis a ataques de outros organismos, destrutíveis por elementos naturais que superam nossas forças, ou seja, apesar de compartilharmos esta condição ontológica de precariedade, não seria verdadeira dizer que “somos todos precários”. Alguns são socialmente construídos como mais precários que outros, algumas vidas são construídas como sendo passíveis de luto na hora da morte, e outras como mortes que não passam de “danos colaterais” que não merecem nossas lágrimas.

Por isso soa, infelizmente, tão autêntico este prognóstico: Favelas serão as grandes vítimas do coronavírus no Brasil”, diz líder de Paraisópolis à BBC. Carol Proner, em um texto poderoso, soube descrever bem os abismos que há entre as vivências do vírus entre classes tão apartadas quanto Os Ricos e Famosos VS As Comunidades Carentes:

“É claro que o vírus acéfalo, que veio de avião e frequentou as colunas sociais nas festas e casamentos de famosos, já se espalhou nas comunidades carentes. E não foi por acaso que uma das primeiras mortes tenha sido a da empregada de 63 anos que cuidava dos patrões em quarentena na zona sul do Rio de Janeiro, um casal recém chegado da Itália e que passa bem.

Zizek, um dos primeiros intelectuais a opinar em meio à crise, tem insistido no argumento de que “estamos todos no mesmo barco”, de que saídas individuais não resolverão e que estamos diante da oportunidade de um “novo comum”, uma mudança ética que possa resgatar a racionalidade humana para salvar vidas. Mas talvez o filósofo esloveno, comovido pela solidariedade de outros países à Itália, mude de ideia ao conhecer a evolução do coronavírus no Brasil, onde a concentração de renda e de privilégios é extrema e que, por força dos golpes e das guerras híbridas, vem sendo governado por um bando de loucos violentos.

No Brasil das mentes planas, o governo e também a mídia classista, devidamente higienizada com álcool gel, ignoram a escala discriminatória dos efeitos desta guerra. Talvez achem que a circulação no barco de que fala Zizek possa ser feita com as pulseiras fosforescentes de acesso privilegiado, como estas que são usadas nos cruzeiros de luxo e festas de bacanas, evitando a entrada do vírus nos andares superiores. Nos porões do Brasil, mesmo com um programa de assistência única de saúde que pode ser considerado um exemplo para o mundo, estarão as vítimas mais numerosas, como já previnem os especialistas. No porão também está a multidão prisional, que já é grandemente formada por mortos-vivos, mas isso também faz parte da guerra. (PRONER, Carol. In: Brasil de Fato)

A extensão da tragédia coletiva que a pandemia representará na História do Brasil ainda é desconhecida, e aqui não se trata de tentar quaisquer exercícios de futurologia. O que já é claro, desde o presente, a partir da leitura de suas tendências e fluxos, é que haverá uma distribuição diferencial do sofrimento e que os favelados, os prisioneiros, os refugiados, os que não tem teto nem terra, os mais pobres e desvalidos, vão sofrer bem mais do que a classe média que pode pagar plano de saúde e tem uma poupança, que por sua vez vai sofrer mais do que os banqueiros capazes de se fechar num bunker com um Disneilândia dentro.

Lelê Teles soube expressar isso bem em sua provocativa crônica publicada em Geledés:

“as pessoas devem ficar em casa”, grita o guarda municipal, com o apito na mão, numa praça em são paulo.

aí surgem as perguntas, tipicamente brasileiras: “onde é a minha casa?”, indaga o sem-teto.

“o que é uma pessoa?”, pergunta o “menino de rua”.

questões enigmáticas.

(…) nada é mais didático do que aquelas fotografias em preto e branco dos pretos estadunidenses marchando pelas ruas com um cartaz no pescoço onde se lia: “i’m a man.”

O autor tira a conclusão de que “no Brasil tem as pessoas, as não-não pessoas e as superpessoas; estas, são aquelas dos camarotes vips.” Por isso, é impossível des-politizar a pandemia, tratá-la “apenas” a partir do viés da ciência, por exemplo clamando para um trabalho comum em prol do desenvolvimento de vacinas e remédios.

É evidente que o trabalho científico conjugado, internacionalista, solidário, é a nossa melhor chance para amainar o impacto mortífero das pandemias, porém nosso maior problema também seja outro: o Sistema que produz, em seu bojo, as pandemias, as catástrofes sócio-ambientais, as mudanças climáticas antropogênicas etc.

Rosana Pinheiro-Machado escreveu no The Intercept Brasil sobre o tema que aqui estamos explorando:

O vírus, em princípio, não escolhe classe, raça e gênero. Ele simplesmente se espalha, entre partículas e superfícies, de um corpo para o outro. Mas sabemos que a maneira como corpos, partículas e superfícies estão dispostas no mundo variam de acordo com marcadores sociais de desigualdade.

(…) Na última semana, assistimos muitos vídeos de como lavar as mãos em 20 segundos. Aprendemos a abrir a porta com o cotovelo e realinhamos nossa distância física nos afetos e cumprimentos da vida. Enquanto passamos o sabonete no pulso, palma da mão e punho muitas vezes ao dia, as consequências extremadas de um mundo distópico pandêmico seguem seu curso, demarcando um apartheid sanitário. Bilionários pegam seus jatinhos particulares e vão para bunkers de luxo isolados em países não infectados. Enquanto isso, 736 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza no mundo e consideram o sabonete um objeto de luxo.

Tudo isso indica a dimensão catastrófica da pandemia quando esta penetra em favelas, bantustões, presídios, campos de refugiados e comunidades desprovidas de recursos médicos e sanitários. Vijay Prashad, em artigo publicado pela Tricontinental, relembrou um episódio em que a História ilumina nosso presente sombrio:

“Pouco se sabe que a gripe espanhola de 1918-1919 teve seu pior impacto no oeste da Índia; dos milhões que morreram nessa pandemia, 60% eram desta parte do país e os que morreram já estavam enfraquecidos pela desnutrição imposta pela política colonial britânica. Hoje, os famintos vivem nesses cinturões de favelas que até agora não foram dramaticamente atingidos pelo vírus. Se a morte começar a assolar essas áreas, onde os cuidados médicos foram severamente esgotados, o número daqueles que morrerão será alarmante, a miséria da estrutura de classes ficará evidente nos necrotérios.”

Para aqueles que chegaram a pensar um dia que a segregação do apartheid havia sido extinta, para figurar somente em museus sobre a história da África do Sul ou do III Reich nazifascista, outra má notícia é que “a desumanidade terá um longo futuro”, como vaticinou o poeta Paul Válery. Como escreveu Eliane Brum em El País, também ela destacando que “não estamos todos no mesmo barco”, estamos diante de uma década que nasce marcada pelo conceito de apartheid climático:

“Não estamos todos no mesmo barco. Nem para o coronavírus nem para a crise climática. Mais uma vez, a comparação entre coronavírus e crise do clima faz todo o sentido. A ONU criou o conceito de apartheid climático, um reconhecimento de que as desigualdades de raça, sexo, gênero e classe social são determinantes também para a mudança do clima, que as reproduz e as amplia. Aqueles que serão os mais atingidos pelo superaquecimento global —negros e indígenas, mulheres e pobres —foram os que menos contribuíram para provocar a emergência climática. E aqueles que produziram a crise climática ao consumir o planeta em grandes porções e proporções —os brancos ricos de países ricos, os brancos ricos de países pobres, os homens, que nos últimos milênios centralizaram as decisões, nos trazendo até aqui— são os que serão menos afetados por ela. São esses que já passaram a erguer muros e a fechar as fronteiras muito antes do coronavírus porque temem os refugiados climáticos que criaram e que serão cada vez mais numerosos no futuro bem próximo.

Na pandemia de coronavírus há o mesmo apartheid. É bem explícito qual é a população que tem o direito a não ser contaminada e qual é a população que aparentemente pode ser contaminada. Não é coincidência que a primeira morte por coronavírus no Rio de Janeiro foi uma mulher, empregada doméstica, a quem a “patroa” nem reconheceu o direito à dispensa remunerada do trabalho, para fazer o necessário isolamento, nem achou necessário contar que poderia estar contaminada por coronavírus, cujos sintomas já sentia depois de voltar de um Carnaval na Itália. Essa primeira morte no Rio é o retrato do Brasil e das relações entre raça e classe no país, expostas em toda a sua brutalidade criminosa pela radicalidade de uma pandemia.

(…) Muitas das ações da direita e da extrema direita no Brasil dos últimos anos tiveram como objetivo neutralizar e sepultar uma insurreição das periferias, no sentido mais amplo, que começava a questionar, de forma muito contundente, os privilégios de raça e de classe. Começava a reivindicar sua justa centralidade. Marielle Franco era um exemplo icônico destes Brasis insurgentes que já não aceitavam o lugar subalterno e mortífero ao qual haviam sido condenados. A pandemia mostrou explicitamente que a rebelião continua viva. O Brasil das elites boçais, aliado à nova boçalidade representada pelos mercadores da fé alheia, não conseguiu matar a insurreição. O “Manifesto das Filhas e dos Filhos das Empregadas Domésticas e das Diaristas”, afirmando que não permitiriam que os patrões deixassem suas mães morrer pelo coronavírus, foi talvez o grito mais potente deste momento, impensável apenas alguns anos atrás. (BRUM, Eliane)

O vírus não tem cérebro, nem moral, é incapaz de discriminação e malevolência. Está aqui por resultado das ações humanas no seio da Natureza – marcadas por uma destrutividade que beira a insanidade. Seus efeitos catastróficos são devidos a um sistema pré-existente onde proliferam os apartheids, as zonas de sacrifício, as injustiças sociais baseadas em distinções de raça, gênero e classe. Por isso, no perturbador e salutar texto Monólogo do Vírus, publicado por Lundi Matin, a prosopopéia humana atribui a ele uma função pedagógica (saibamos ser aprendizes!): “Eu vim parar a máquina cujo freio de emergência vocês não estavam encontrando. Eu vim suspender a operação da qual vocês são reféns. Eu vim expor a aberração da ’normalidade’.”

 

Por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Brasil – 23/03/2020

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRUM, Eliane. O vírus somos nós (ou uma parte de nós). El País Brasil, 25 de Março de 2020.
BUTLER, Judith. O capitalismo tem seus limites. Blog da Boitempo, 20 de Março de 2020.
CHADE, Jamil. A crise que definirá nossa geração. El País, 17 de Março de 2020.
LUNDI MATIN. O Monólogo do Vírus. 24 de Março de 2020.
PINHEIRO-MACHADO, Rosana. Coronavírus não é democrático: pobres, precarizados e mulheres vão sofrer mais. The Intercept, 17 de Março de 2020.
PRASHAD, Vijay. Profissionais da saúde movem um mundo mutilado. Tricontinental, 19 de Março de 2020.
PRONER, Carol. Nesta guerra, Bolsonaro é um aliado do coronavírus. Brasil de Fato, 21 de Março de 2020.
TELES, Lelê. Coronavírus, uma abordagem antropológica. Geledés, 18 de Março de 2020.


LEITURAS SUGERIDAS / LINKS A CONHECER E COMPARTILHAR:

O último filme de Ken Loach faz uma radiografia da pandemia de “Uberização” laboral || A Casa de Vidro

A tragédia da riff-raff britânica na era da Uberização laboral: eis o cerne de Sorry We Missed You (Você Não Estava Aqui), novo filme do mestre Ken Loach (UK, 2019, 100 min), duas vezes premiado com a Palma de Ouro em Cannes. Partindo de uma narrativa que foca suas atenções sobre uma família específica, o filme manda seu recado sobre uma situação geral daquela fração da classe trabalhadora, em constante expansão, que inclui aqueles apelidados de infoproletários e de “Precariado” (analisados em minúcias, no Brasil de hoje, por cientistas sociais como Ruy Braga e Ricardo Antunes).

No roteiro escrito por Paul Laverty, o destino da família protagonista serve como emblema para a condição do Precariado na atualidade. Esta classe sofre com a insegurança extremada conectada à informalidade, com o colapso da jornada de trabalho de 8 horas e com a perda de direitos elementares à saúde, à educação e à previdência. Estes trabalhadores precarizados frequentemente são enforcados pelas dívidas, sendo assim algemados a neo-servidões e neo-escravidões.

Conquistas dos movimentos sindicais, sociais e revolucionários do passado vão se perdendo no grande desmonte privatista neoliberal conforme a crueldade capitalista adere às núpcias sinistras com o fascismo. Como ensinou Brecht, “a cadela do fascismo está sempre no cio” – hoje, neofascismo e neoliberalismo tem transado em praça pública e sua prole é tenebrosa.

As linhas de montagem não são mais aquelas dos Modern Times de Chaplin (1936). São as linhas de montagem invisíveis do Ubercapitalismo, que cada vez pretende estender seu império a ponto de tornar-se ubíquo. Os prazos a cumprir no delivery de mercadorias são as novas cadências de velocidade brutal, linhas de montagem lançadas para fora das fábricas e adentrando cada vez mais o trânsito caótico dos grandes centros urbanos.

O “novo” patronato vai agindo contra o proletariado com a velha mentalidade escravista que as elites do atraso recusam-se a abandonarno mundo afora e não só no Brasil radiografado por Jessé Souza. O escravismo dá lucro, e por isso tanta adesão a ele por parte de patrões que, em termos éticos, estacionaram na História e desejam sobretudo a continuidade obscena de seu gozo de privilégios excludentes. Elites que agem com a sádica alegria com a desgraça alheia e o senso de superioridade de quem, na relação entre a bota e a face que ela pisa, está do lado de quem é o dono do pé pisoteante.

A rotina massacrante quebra a espinha do trabalhador uberizado e ifoodido. O protagonista de Sorry We Missed You é um emblema do pai de família que não consegue mais sentar direito a bunda na mesa-de-jantar de casa, tamanha a correria de seu trampo. Um trabalhador que atinge no filme um tal grau de exaustão que ele flerta com a auto-destruição. O cara chega a tal fundo de poço que está às beiras de enfiar sua van num muro e morrer no crash, deixando uma viúva e dois órfãos. O protagonista vai sendo lançado, por este sistema insano, a uma situação de nervous breakdown. 

Eis uma sociedade governada por elites econômicas que querem ensinar ao trabalhador que ele não deve crer na sua dignidade intrínseca – e ele muitas vezes interioriza este desrespeito alheio e torna-se auto-depreciativo. Como no diálogo em que o pai elogia a filha dizendo que ela é inteligente e esperta demais, e lhe diz: “com certeza você não herdou meu cérebro”.

Esta auto-derrisão também se manifesta quando ele exorta o filho a ser disciplinado na escola ao invés de pintar grafites pela cidade (ultimamente, inclusive com spray roubado): “não quero que você termine como eu”. O filho, que tem agido com uma atitude punky, num espírito à la Banksy, atua como a consciência crítica da família e despreza a perspectiva de entrar na universidade. Não que ele esteja dominado por um desprezo pelo conhecimento, mas sim sente nojo por toda a condição do universitário pobretão que só consegue estudar afogando-se em dívidas e aniquilando qualquer chance de ter tempo para lazer, cultura, contemplação e descanso.

Pois a realidade educacional anglo-saxã, onde o liberalismo impôs o avanço da escola-empresa e do conhecimento-mercadoria, na esteira das teoria do “capital humano” de Gary Becker, o universitário pobre é obrigado a trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Mesmo depois de formado é obrigado a trabalhar anos para pagar as dívidas contraídas, e durante seu curso é coagido a um sobretrabalho estafante que prejudica a qualidade de seu trabalho intelectual e de sua aprendizagem. Um contexto que lança seu mundo emocional no turbilhão da angústia e da ansiedade constantes, pois sabe que pende sobre sua cabeça a espada de Dâmacles dos credores papa-juros que ameaçam cortar sua cabeça nas guilhotinas do Mercado.

O filme de Loach é também brilhante no retrato contemporâneo do fenômeno da dívida – cuja história nos últimos 5.000 anos foi realizada pelo antropólogo anarquista David Graeber em Debt: The First 5,000 Years. O filho da família sabe que entrar para a universidade, para alguém de sua classe, consiste em botar o pescoço na guilhotina das tuition fees. O garoto sabe que a ascensão social via estudo, para alguém da riff raff, só é algo plausível sob o domínio de um cruel endividamento que iria tornar ainda pior a situação financeira familiar.

Escultura de Cain Motter

O filme de Loach, ultra-realista, faz o retrato de uma classe down’n’out na Grã-Bretanha do Brexit. Uma gente que os banqueiros tratam como arraia-miúda e que interessou a George Orwell – autor do crucial livro de ensaios  Como Morrem Os Pobres (Cia das Letras), que aqui Loach parece querer atualizar para nossos tempos.

O teor trágico de Sorry We Missed You vem da ausência de perspectivas revolucionárias. Nem mesmo algum tímido sindicalismo reformista dá o ar de sua graça no filme (nada do “espírito Norma Rae“, do entusiasmo Martin Rittiano pela mobilização proletária, aparece por aqui). O pai-de-família que protagoniza a obra desce ao inferno-na-terra ao ser alvo de múltiplas opressões cruzadas, apesar de ser um homem, branco e hétero (suposta epítome do estereótipo do opressor).

Cúmulo de seu destino enquanto oprimido desta sociedade de opressões que se interseccionam é aquela série de cenas em que ele é literalmente roubado após ser esmurrado, chutado e encharcado com o próprio mijo. Depois é cobrado pelo patrão pelo prejuízo acarretado ao equipamento da firma pelos assaltantes. Todo quebrado e fodido, no hospital, esperando o resultado do raio-X, ele passa por esta humilhação suplementar. A esposa não aguenta e explode em indignação contra o patrão do esposo pelo telefone.

Em uma cena-chave, o patrão havia se gabado dos índices de produtividade de sua empresa, supostamente “de elite” em toda a Great Britain. As atitudes senhoriais são justificadas com um apelo à ideia de que os clientes só se importam em receber os produtos que encomendam na hora certa – e estão pouco se fodendo em relação ao bem-estar dos que trampam nas vans, motos e bikes deste enxame crescente de “entregadores de aplicativo”.

– Alguém genuinamente já te perguntou como você está, quando você aparece na soleira da porta após tocar a campainha com um pacote em mãos? Acha que os clientes se importariam se você batesse as botas ao chocar a van contra um muro?

Quando um patrão trata seu “sócio” desta maneira podemos ter certeza de que não se trata de uma relação simétrica entre dois “patrões de si mesmos” que estão em negociação. É uma relação assimétrica e injusta onde burguês e proletário seguem existindo, apesar de mascarados pelas novas noções de CEO e “empreendedor”. Um abismo de desigualdade social imensa separa estas duas posições.

Neste mundo de colapso generalizado da empatia, da pandemia duma frieza de coração, empedernida e violenta, a ideologia tóxica do neoliberalismo empreendedorista surge para tentar nos convencer de que o egoísmo é parte da natureza humana. Mas não é, como argumenta o filósofo australiano Roman Krznaric em O Poder da Empatia: o egoísmo não pode ser descrito como intrínseco e inato à natureza humana, como querem muitos liberais, pois sua manifestação atual, enquanto individualismo empreendedor, é produto de uma ideologia inculcada e de um imenso aparato de doutrinação. Nurture, not nature.

O sistema de remuneração por produtividade prejudica a classe trabalhadora pois os detentores do poder sempre podem, na ausência de regulações estatais que coloquem freios no laissez faire do Mercado, puxar as metas para cima, exigindo ritmos e durações laborais incompatíveis com a dignidade humana.

Inculca-se a ilusão, na cabeça do precário-proletário, de que ele seria proprietário de um meio de produção, quando na verdade ele é unicamente o dono de um carro, uma moto ou uma bike. O sujeito quer tratar a si mesmo como empreendedor, um “patrão de si mesmo”, mas na real isso mascara a brutal desproporção entre os donos dos meios de produção e concentradores de capital – o Patronato! – e o enxame dos que não tem nada senão o poder de se deixar explorar por 12 horas ao dia por um salário de miséria ganho com o suor do próprio rosto, enquanto os CEOs de empresas como Uber e Ifoods ficam no bem-bom, vagabundeando em suas jacuzis nas suas mansões de 500 milhões de dólares no Vale do Silício.

Na real, o trabalhador ifoodido não possui direitos trabalhistas, não tem direito a adoecer e se tratar, obviamente não tem direito ao lazer e à cultura – nem mesmo, muitas vezes, tem o direito de mijar no banheiro (o protagonista do filme de Loach é obrigado a fazer xixi numa garrafa). Enquanto  os donos da Uber, da Ifoods ou da Rappi ficam bilionários apenas gerindo sistemas informacionais e logísticos, os empreendedores labutam como condenados, muitas vezes sem direito a fim de semana e férias, para girarem na roda da miséria como nas torturas gregas impostas a Íxion, Sísifo ou Tântalo. Eles são a nova-versão do “homem-boi” de Taylor, satirizado em versão equina, com verve sarcástica, no provocativo filme Sorry To Bother You, de Boots Riley.

Marilena Chauí, em entrevista recente, aponta que a ilusão de independência do moderno precariado acaba sendo bastante difícil de desconstruir. Sempre em trânsito, essa força de trabalho perde o tempo que poderia ser dedicado às conversas com seus iguais. Eles lhe aparecem como competidores, apenas. Sobra-lhes um espaço público degradado por obstáculos que sacrificam o pensamento independente pois exigem constante atenção ora a um buraco na rua, um cachorro a persegui-los ou um guarda indisposto.

Uma rotina que lembra a dos “negros de ganho” do Brasil colonial (que “eram aqueles que trabalhavam e que repassavam todos os seus ganhos a seus donos”). Ao precariado, a posse de um veículo automotivo e a possibilidade de mudar de senhor já são um engodo poderoso o suficiente para estabelecer um líquido sistema de servidão voluntária. Nele, como diz a filósofa Marilena, as pessoas já não se definem pela sua ocupação ou pelo seu contrato de trabalho. Em um mundo liquefeito como lama, ora sou entregador, ora sou garçom, ora sou manobrista, ora trabalho das 7h às 22h, ora das 22h às 7h: isto seria liberdade, ou somente a nova encarnação da servidão voluntária?

Quando possível, os precários caem no desemprego e tentam recuperar-se dessas jornadas exaustivas gastando irrisórios seguros-desemprego (quando a eles tem direito). Quando seguem na informalidade, pulando de trampo precário em trampo precário, como breve bálsamo para suas torturas cotidianas gozam no consumismo com suas parcas economias. Um consumismo frequentemente movido a crédito e financiamento – ou seja, propulsionado a dívida.

Através de seus filmes recentes, Ken Loach faz a crítica de um sistema que quer convencer “as pessoas mais vulneráveis da terra” de que “a pobreza é sua própria culpa”. Ou seja, a ideologia meritocrática, ancorada no racismo estrutural (como argumenta Silvio de Almeida), quer persuadir que os ricos são ricos por seu próprio mérito (e não pelo roubo, exploração e desumanidade que praticam em sua crudelíssima ação de classe).

Despontam muitas perguntas, ainda sem respostas, incitadas pelos filmes deste mestre britânico da 7ª arte: será que o cinema recente praticado de Ken Loach, com sua vibe meio bleak, seria um fator desmotivador das lutas anticapitalistas? Em outras palavras, seus filmes comunicariam um sentimento de desolação que poderia conduzir a uma certa apatia? 

Em certa medida, parece-me que sim: Sorry We Missed You Eu Daniel Blake parecem-me filmes um tanto desanimadores, que parecem se desenrolar sob o signo da derrota de uma certa esquerda. É como se John Lennon, aos 29 anos, quando dizia que “o sonho acabou”, estivesse de fato com a razão – e o octagenário Ken Loach estivesse fazendo o cinema para prová-lo. Um certo clima de there’s no alternative espraia uma energia deprê por estas narrativas.

O sonho utópico não dá o ar de sua graça nestes filmes de Loach – pelo menos não de maneira explícita. No máximo, podemos falar de algum utopismo subliminar, envergonhado de si mesmo, que ousa se manifestar apenas de viés, através do elogio ético da empatia e da solidariedade, mas sem ousar encarnar esta aspiração em algum movimento cidadão ou partido revolucionário.

Sob o signo da derrota, Ken Loach sempre desenvolveu seu poderoso cinema. Os últimos filmes parecem mergulhados na atmosfera da derrota do Partido Trabalhista de Jeremy Corbin diante do triunfo dos Brexit-ers à la Boris Johnson. Sob o signo também da derrota dos movimentos sociais que defendem serviços públicos de qualidade e inclusão social, ainda que no horizonte limitado do welfare state. Derrotas às mancheias. Mas será que Ken Loach está nos propondo a resignação? Está nos contaminando com a atmosfera da desistência? Está nos conduzindo à admissão de que perdemos, e à decisão de abandonar a arena de luta?

Não necessariamente, e neste aspecto é preciso colocar sua obra recente no contexto de sua filmografia. O italiano Enzo Traverso, um dos maiores pensadores políticos contemporâneos, que leciona em Cornell (Ithaca, Nova York), dedicou algumas das páginas mais lindas de seu livro Melancolia de Esquerda a este “derrotismo” de Loach. Ali, analisa principalmente o modo como Loach retrata derrotas em seus melhores filmes – como fez em seu retrato da Guerra Civil na Espanha (1936 – 1939) em uma de suas obras-primas, Terra e Liberdade (Land and Freedom, 1995), premiado com a Palma de Ouro em Cannes:

“Em Terra e Liberdadeé a revolução em si que se transforma em domínio da memória, evocada e ‘vivida’ com empatia e uma nostalgia dilacerante, ainda que o olhar melancólico de Loach seja o oposto da resignação. Muito além de uma homenagem à revolução espanhola, seu filme queria mexer com o zeitgeist conformista dos anos 1990, além de contestar  a representação convencional da Guerra Civil Espanhola como uma catástrofe humanitária.

Sob esse ponto de vista, Terra e Liberdade surge quase como um antípoda de Soldados de Salamina (2001), o aclamado romance de Javier Cercas em que uma trágica dimensão da guerra não deixa lugar para esperança nem motivo para o engajamento político. (…) Terra e Liberdade descreve uma experiência histórica encerrada que, epítome da derrota das revoluções socialistas do século XX, claramente transcende as fronteiras espanholas.

O protagonista do filme é um jovem proletário de Liverpool, David Carr (interpretado pelo ator Ian Hurt), que vai para a Espanha não para participar de uma conferência internacional em defesa da cultura, mas com o intuito de lutar nas Brigadas Internacionais. Lá David completa sua educação política e sentimental, desenvolvendo valores e convicções que não abandonará pelo resto da vida.

(…) A última cena retrata o enterro do protagonista: a neta lê um poema de William Morris, ‘O dia está próximo’, que reafirma a visão socialista da memória: ‘Vem, junta-te à única batalha onde ninguém pode perder / onde aquele que morre ou desaparece / em seus feitos, porém, prevalece.’ Em seguida, a neta desata o nó do lenço e joga a terra da Espanha no túmulo. Eles foram derrotados, mas outros seguirão lutando e ganharão. Essa conclusão convencional encerra um filme que é um monumento às revoluções do século XX.” (TRAVERSO, Melancolia de Esquerda, Ed. Âyiné, 2018, p. 232)

O cinema de Loach, ao retratar derrotar, não quer nos resignar ao derrotismo, mas nos conduzir àquela lucidez que Gramsci consolidou numa frase lapidar: temos o direito ao pessimismo da inteligência, mas precisamos do otimismo da vontade. Ao pintar a via-crúcis de Daniel Blake ou da família de Sorry We Missed You, este cineasta magistral está querendo nos comover para os destinos que um sistema desumano massacra cotidianamente – não para que nos resignemos a assistir a isso de braços cruzados, mas para que possamos ir à luta em prol da construção difícil e infindável de algo melhor.

 

Por Eduardo Carli de Moraes e Gisele Toassa,
Goiânia – Março de 2020
http://www.acasadevidro.com

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